Discografia

Maria Rita de volta ao samba

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Fotos: Vicente de Paulo

O sol já se punha por entre as árvores do morro Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, depois de uma maratona de três dias, a cantora Maria Rita ainda arranja disposição para mais uma entrevista, a última do dia. “Posso só comer uma banana?”, pergunta antes de esticar uma conversa informal sobre perguntas repetidas dos jornalistas e as “más interpretações” de suas palavras. Em seguida, foi a hora de receber o O POVO para falar sobre Coração a Batucar (Universal Music), seu novo disco.

Sete anos depois do esfuziante Samba meu, Coração a batucar é mais uma imersão da intérprete paulistana no mundo do samba. Curiosamente, o trabalho recebeu o nome de uma música lançada no disco Elo (2011), que encerrou a história da cantora na Warner. “Eu estava com muita dificuldade de traduzir o que era esse disco. Pegava as letras, pegava frase por frase, e, por mais que fosse um nome incrível, não chegava a expressar”, lembra ela, que viu no samba de Davi Moraes e Alvinho Lancellotti a solução e um possível problema com a gravadora anterior.

capaEsse problema foi resolvido fácil, assim como todos os outros. Afirmando sua autonomia diante da própria carreira, Maria Rita fez questão de escolher a sisuda foto da capa, como uma forma de quebrar estereótipos do mundo do samba. “Eu não acho que o samba tenha que ser boteco, tamborim e o pandeiro sempre. Não acho que seja só isso”, explica em tom firme, acrescentando que está bem mais segura para mexer com um som que fala tanto sobre o Brasil. “Naquela época (do Samba meu), eu estava inserida no samba, indo a shows nas quadras, ouvindo muito samba. Eu tinha a gana de mostrar para os sambistas que amo o samba. Nesse, eu estou mais livre da cobrança, com a certeza de que estou no meu ambiente”.

Se, há sete anos, ela tinha Arlindo Cruz como porto seguro para montar repertório, em Coração a batucar, novos compositores entraram no seu ritmo. De Marcelinho Moreira, Fred Camacho e Leandro Fab, Meu samba, sim, senhor abre o disco com uma carta de intenções. “Eu vou representar com todo o meu amor, cantando por aí, levando alegria pro meu povo”, avisa na letra, em clima de samba-enredo. Já No meio do salão, de Everson Pessoa, Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira, membros do Quarteto em Branco e Preto, é uma resposta ao clássico Sem compromisso, de Geraldo Pereira. Lançada por Almir Guineto em 1981, Saco cheio manda um recado para quem entrega a deus todas as suas responsabilidades.

Se não é propriamente uma sambista, Joyce Moreno também entrou na roda de Coração a batucar com a tocante No mistério do samba. “Acham que ela fez pra mim”, comenta Maria Rita, que não chegou a confirmar com a compositora. Se for, há algum simbolismo, pois foi uma composição de Joyce (Essa mulher) que Maria Rita escolheu na primeira vez que cantou na TV uma música do repertório de Elis Regina (1945 – 1982). Por falar na mãe, Mainha me ensinou parece ter sido feita sob medida para a intérprete. “O Xande (de Pilares, parceiro de Arlindo e Gilson Bernini na composição) não sabia que essa música tinha chegado até mim. No entanto, quando ouço, eu identifico a minha mãe que era uma defensora da natureza, muito correta, muito justa”.

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Segundo Maria Rita, esta canção tornou-se um retrato do seu momento de vida, lançando um disco novo após a turnê Redescobrir. O esforço de interpretar as canções de Elis acabou sendo maior que o esperado, mas foi também a hora de se livrar de alguns antigos fantasmas pessoais e profissionais. Tanto que ela adianta que algumas canções da mãe vão permanecer no repertório da nova turnê, que já está quase pronta para estrear no dia 12 de abril, no Paraná. “É um show mais focado no samba, que o Samba meu. O roteiro ta de furar sapato, derreter a maquiagem. Não sei é somo eu vou segurar a onda”, adianta antes de soltar uma gargalhada.