Discografia

Humberto Teixeira, o inventor do Nordeste

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image001MA15293902-0001“Eu vou mostrar pra vocês como se dança o baião. E quem quiser aprender, é favor prestar atenção”. Essa foi a senha para o surgimento de um novo estilo musical, uma nova dança e uma nova febre no Brasil dos anos 40. Meio sensual, meio agitado e coberto de energia para subir dos pés até a cintura, o baião chegou para mudar o ritmo do País. Um dos responsáveis por armar esta bomba musical foi o cearense Humberto Teixeira, que ao lado de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), fez o povo voar agarrado nas penas das “Asa Branca”.

Cearense de Iguatu, Humberto Teixeira nasceu em 5 de janeiro de 1915 e, logo cedo, mostrou que levava jeito para a música. Aos 13 anos, já compunha e editava canções, como a iniciante Miss Hermengarda. Aos 15, partiu para o Rio de Janeiro, onde se formou em direito. Nem por isso largou a música, sendo gravado por nomes como Dalva de Oliveira, Emilinha Borba e Orlando Silva. No entanto, nenhum nome foi tão importante nessa história quanto o do Rei do Baião. Cercados de sanfona, zabumba e triângulo, sucessos como Assum preto, Qui nem jiló e Respeita Januário, Humberto e Luiz ganharam o Brasil mostrando um Nordeste sofrido, feliz e balançado.

No ano que a história de Humberto Teixeira completa seus 100 anos, a filha do compositor, Denise Dumont, conversa com O POVO e lembra a pesquisa que realizou sobre a vida do pai. Diretora do documentário O homem que engarrafava nuvens, a atriz carioca (com cidadania cearense) mora em Nova York, de onde acompanha a obra do compositor de No meu pé de serra. “Tanto aqui em Nova York quanto em vários países na Europa, existem casas noturnas que dedicam pelo menos um dia da semana ao forró e baião em geral”, comemora por email. Acompanhe.

O POVO – Qual a lembrança mais forte que você tem de Humberto Teixeira?

Denise Dumont – Difícil saber a mais forte. São tantas! Vou escolher uma feliz. Bem criança, indo de carro com ele para Mangaratiba (RJ) ao nascer do dia, com minha prima Evinha (filha de Lauro Maia), cantando junto a viajem inteira e sendo apresentada à Dalva, a estrela matutina.

O POVO – É sabido que a obra do Humberto Teixeira, com mais destaque para a obra que ele construiu ao lado do Luiz Gonzaga, ultrapassou as fronteiras do Nordeste e ganhou o mundo. Quem mora fora do Brasil, como é seu caso, de que forma se pode ter contato com essa obra?

Denise – Em primeiro lugar, gostaria de tirar o destaque, sem tirar obviamente a importância, da parceria. Provavelmente a música que fez e ainda faz mais sucesso internacionalmente é Kalu, que é só dele (letra e música). Kalu foi gravada em várias línguas, aqui por exemplo pela (cantora e atriz norte-americana) Eartha Kitt e em japonês várias vezes, a mais recente pela (cantora japonesa) Miho Hatori com o Forró in The Dark e é cantada até hoje. Afora isso, tanto aqui em Nova York – no Nublu, no East Village, por exemplo – quanto em vários países na Europa, existem casas noturnas que dedicam pelo menos um dia da semana ao forró e baião em geral. Nos últimos anos, Bebel Gilberto gravou Juazeiro aqui em inglês e português, David Byrne gravou Asa Branca e (a banda) The Real Tuesday Weld também, na Inglaterra. Só para citar alguns exemplos. A obra continua “alive and well” (viva e bem) correndo o mundo.

O POVO – Que relação o Humberto Teixeira manteve com o Ceará, uma vez que ele saiu daqui ainda adolescente? Conservou algum hábito típico do Nordeste?

Denise – Eu diria que mais do que tudo, de saudade e de um compromisso de jamais esquecer e de compartilhar a terra natal com o sul do país. Uma relação de profundo amor. Mais tarde na vida, ele teve um certo ressentimento por não ser devidamente apreciado, apesar de ter levado através da música e da poesia, a beleza, a dor, a riqueza e a pobreza do Nordeste para o Brasil e o mundo. Ele saiu do Ceará, mas nunca o esqueceu, e voltou sempre que necessário para ajudar e fazer campanha, durante secas e enchentes, como quando o mar invadiu a praia de Iracema e ele escreveu Eu vou pro Ceará no avião a caminho. Quanto aos hábitos, nunca faltou baião de dois na nossa mesa e papai dormiu em rede até o último dia de sua vida. Em todas as casas que moramos, em seu quarto sempre tinha uma cama nunca desfeita e uma rede usada até ficar em frangalhos.

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O POVO – Um dos pontos mais relevantes de O homem que engarrafava nuvens é que você parece querer descobrir quem é o personagem Humberto Teixeira junto com o público. Como filha, o que foi fácil, difícil, desafiador nesse trabalho?

Denise – Foi uma grande viagem em todos os sentidos. No nível estritamente pessoal, eu confirmei que ele era um homem de bem, querido por seus amigos e por sua família, e admirado por seus colegas. No sentido mais público, me deparei com a minha ignorância galopante sobre o tamanho e significado da obra, sobre o Nordeste, sua paisagem e tradições, e o Ceará em particular. Foi uma das experiências mais gratificantes da minha vida. Quase como ter filho! Saí dessa com imenso orgulho e o coração cheio. Difícil e desafiador sim, em mais sentidos do que o espaço que temos aqui pra falar disso, mas fácil porque estava muito bem acompanhada por Lírio Ferreira (roteiro e direção), Walter Carvalho (diretor de fotografia), Iafa Britz (produção executiva) e a melhor equipe do mundo!

O POVO – Que frutos você colheu desse documentário? Acha que seu pai passou a ser mais reconhecido depois do filme?

Denise – Como disse acima, no nível pessoal não teve preço! As críticas do filme foram, sem exceção, excepcionais no mundo inteiro. Não tenho espaço físico para a coleção de prêmios e troféus que O Homem… colecionou pelo mundo, começando com cinco no Cine Ceará e culminando com os prêmios de melhor Filme Documentário e melhor Trilha Sonora da Academia Brasileira de Cinema, o Oscar Brasileiro. Sei que o filme e todo o processo de resgate à sua volta, e o fato de que continua sendo exibido, ajudou e continua ajudando no reconhecimento da importância de Humberto Teixeira. Mas ainda estamos longe de chegar onde ele merece.

Denise Dumont nas gravações de O homem que engarrafava nuvens

Denise Dumont nas gravações de O homem que engarrafava nuvens

O POVO – Como a obra do Humberto Teixeira é administrada atualmente? Receb muitos pedidos de regravações?

Denise – Eu administro junto com as editoras. Eu sou herdeira única, portanto, afora a percentagem das editoras, eu recebo o resto. Quanto à renda, apesar da grande luta de meu pai pelos direitos autorais, não chega nem perto do que deveria ser! Está cada vez mais difícil, por conta de pirataria e fácil acesso a qualquer obra. Eu me sinto dividida em relação a isso. Por um lado, acho que arte tem que ser totalmente disponível ao público. Por outro, do que o artista vive senão de sua arte? E sim, recebemos bastante pedidos. A obra continua viva e relevante. Aliás, infelizmente, por um lado, cada vez mais por conta das mudanças ecológicas, aquecimento global e seca.

O POVO – A sinopse de O homem que engarrafava nuvens (publicada no site do filme) diz que Humberto subiu ao estrelato, mas foi eclipsado pelo Luiz Gonzaga. Como você vê essa relação entre os parceiros? Houve alguma tensão entre eles?

Denise – Esse eclipse foi uma consequência natural. Papai era compositor, mas era também advogado, deputado federal, ativista do direito autoral, etc. Ele vivia mais atrás de sua escrivaninha do que nos olhos do público. Luiz por sua vez, apesar de ser chamado de Lua, era na verdade um Sol! Um pop star de primeira. Um grande intérprete e uma grande estrela. Um não teria existido sem o outro e a obra não teria o alcance que teve e tem sem essa combinação. Eles eram amigos, apesar de extremamente diferentes, intelectualmente falando. A parceria se desfez quando Luiz resolveu sair da UBC (União Brasileira de Compositores) e papai, por conta da luta pelos direitos autorais e sua fidelidade à causa e ao sindicato, ficou. Não por conta de nenhuma “tensão”. Como papai dizia, foi bom no caso de Luiz, deu chance a uma nova parceria maravilhosa, com Zé Dantas e pra papai quase que imediatamente ele teve um tremendo sucesso sozinho com Kalu.

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Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Denise – Tive pouco contato com ele, mas sempre memorável e engraçado. Ele era hilário. Por exemplo, quando eu estava pra casar com o Claudio Marzo, que é bem mais velho do que eu, Luiz veio nos visitar e resolveu cantar em nossa homenagem “pra cavalo velho o negócio é capim novo”. Outra lembrança bastante forte que tenho dele, foi no dia que papai morreu. Ele me telefonou e disse que papai tinha sido um parceiro muito generoso e que várias das composições tinham sido feitas inteiramente por ele, mas que ele fez questão de dar a parceria. Eu, triste e malcriada, respondi que ficaria muito grata se ele ao menos mencionasse o parceiro de vez em quando. Papai nunca teve ressentimento algum, já eu não posso dizer o mesmo. Mas, o filme me curou disso.

O POVO – Com o fim da parceria, o que ficou entre Humberto e Luiz Gonzaga? Permaneceram amigos?

Denise – Sim, com certeza. Não se viam com frequência porque levavam vidas muito diferentes, mas o carinho, amizade e respeito ficaram para sempre.

O POVO – Com o centenário do Luiz Gonzaga em 2012, muito foi comemorado e vários trabalhos foram lançados em livros, discos e vídeo. Nisso, boa parte do trabalho do Humberto acabou sendo também resgatado. Existe algum projeto em vista para esse ano tendo o Humberto como homenageado? Lançamentos, filmes, etc.?

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Dalva de Oliveira e Humberto Teixeira

Denise – Temos inúmeros eventos, incluindo uma peça musical escrita por meu marido, o roteirista Matthew Chapman, chamada Baião de Dois, co-produzida por Pedro Alvares, à estrear em Fortaleza e depois correr o Brasil e quem sabe chegar na Broadway. Sei que Calé Alencar está com vários projetos importantes e, afora isso, com a ajuda e coordenação do Pedro Carlos Alvares, já temos confirmados com o apoio da Prefeitura de Fortaleza, inauguração da praça “Doutor do Baião” com uma estátua (na atual praça do Teatro São José), show na Praça do Ferreira com artistas do Ceará e Pernambuco no aniversário de Fortaleza, inauguração de uma nova Avenida, uma nova escola e um CUCA, com seu nome, inauguração simbólica do memorial de Humberto Teixeira na Beira-Mar (projeto do grande e querido Fausto Nilo) e a inauguração da Sala Humberto Teixeira no Museu do Ceará, onde ficará em exposição permanente, o acervo de meu pai. O senador Inácio Arruda, propôs emissão de selo comemorativo dos Correios e uma Medalha da Ordem do Mérito Cultural pelo MINC. Em Iguatú também acontecerão várias festividades começando agora no dia 24, aniversário da cidade. Espero estar presente! A abertura oficial em Fortaleza será em março no Cine São Luiz com um grande show, sessão do filme e um culto ecumênico na Catedral Metropolitana de Fortaleza. Espero celebrar o ano inteiro, de maneira inclusiva, supra partidária, duradoura e permanente. Essa programação está obviamente sujeita ao apoio real com o qual estou contando.

O POVO – Ao que parece, sua intenção em fazer o documentário sobre o Humberto Teixeira era saber mais do homem além do mito. O que você descobriu sobre ele nessa pesquisa? Passados cinco anos, que avaliação você faz do trabalho que realizou?

Denise – Costumo dizer que saí atrás de descobrir quem foi meu pai e acabei descobrindo o Brasil. Acho que Lírio Ferreira, com a colaboração de Walter Carvalho, Mair Tavares, Antonio Venancio, Gringo Cardia, uma grande e excelente equipe, afora um elenco absurdo de artistas e intelectuais generosos, fez um filme extraordinário, melhor, mais abrangente e mais lindo do que eu jamais pude imaginar. Esse filme nunca vai ser “datado”. Ele é para sempre! Ele fala da nossa história, do nosso povo, da nossa música e suas raízes, não somente de meu pai. Tenho muito orgulho de ter produzido isso. Não teria conseguido sem a ajuda em primeiro lugar da Ana Jobim e depois, da Iafa Britz produtora executiva, e meus parceiros Total Filmes, Lereby, Daniel Filho, Asylum Films, Banco do Nordeste, Governo Brasileiro e Governo do Estado do Ceará, Ancine, Inácio Arruda, minha família e uma lista de agradecimento tão gigantesca que leva quase 10 minutos nos créditos finais do filme ao som de Lenine cantando Cariri à capela. Recomendo a todos que não viram que vejam e a quem já viu, que reveja!