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Mais assuntos com Marcelo Nova

CV (1)

Por telefone, a voz de Marcelo Nova deixa claro que este baiano de 63 anos permanece tão elétrico quanto há três décadas, quando estreou com o Camisa de Vênus. Em Fortaleza para uma turnê comemorativa, ele falou falou por quase uma hora sobre diversos assuntos. Aproveite.

– A volta do Camisa de Vênus

Está sendo muito divertido. São 35 anos que montei essa banda. Chamei o Robério, que era da TV Aratu, e eu na Rádio Aratu, ambas da mesma empresa. Foi o cara que primeiro chamei e, juntos, começamos a formatar o som, quem ia fazer cada coisa.

– Os 35 anos

Venho lançando coisas solo e não tinha me tocado. Fazer 35 anos é pra lá de The Who. Sem querer parecer pretensioso, não é questão de patamar. Mas, fazer rock pra eles é mais fácil. Eles fazem no mundo e a gente faz no Brasil. E eu pensei, por que não? Liguei pro Robério e ele topou. Estreamos no Circo Voador (RJ), fizemos um show muito bom. Foi uma festa. É bom constatar que, depois de três décadas, as canções continuam relevantes, com sentido de atemporalidade.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=mQ9gabnlk2Y[/youtube]

– Caça níquel?

Caçar níquel é meu trabalho. Queria saber se as pessoas que falam isso trabalham de graça. Eu toco com o Camisa quando me der vontade e eu tenho feito isso com muito pouca frequência. Não faço filantropia não. O meu trabalho não é de filantropia.

– Saudades dos anos 1980?

De nada (enfático). Não sou saudosista de maneira nenhuma. A vida nada mais é do que uma sucessão de experiências. À medida que você vai passando através do tempo, mudanças vão acontecendo. Penso eu que o mais importante não é ficar pensando em que estação do trem você vai saltar, mas ficar contemplando a janela. Observando, comparando, criando parâmetros.

– Chorão

É curioso. Você vê todos esses artistas que morrem do pop e do rock, todos eles são reverenciados na mídia, nas retrospectivas. Mas, eu não vi nenhuma simples menção a Chorão. Independentemente da qualidade, todo e qualquer artista de qualquer gênero popular é reverenciado ad nauseam. Chorão, acredito que pela personalidade, não é lembrado. É como se quisessem apaga-lo.

– Influência para novas bandas

Pra mim é difícil fazer esse tipo de afirmação. Não direciono o meu trabalho pra nenhum tipo de público. Tenho 63 anos e tenho fãs donas de casa, rebeldes, médicos, policiais. A essa altura do campeonato, penso que minha obra não é direcionada a nenhum grupo social. Minha obra é pra quem aprecia-la.

– Acústico MTV inédito

O registro existe guardado em alguma gavetinha. Na época, não existia essa linguagem de rock acústico. Quando o Collor baixou o confisco de poupanças e o País ficou num estado de apreensão terrível, eu tive vários shows cancelados. Então caí na estrada de voz e violão e gostei. Pensei que poderia ampliar aquilo para um contexto de banda e gravei o disco Blackout (1991). Quando a MTV soube disso, ela estava começando a desenvolver o projeto Acústico e foi atrás de quem pudesse fazer isso. Quem inventou isso fui eu. Ficou explicito que estou sempre à frente da humanidade, pena que é só alguns minutos. Fiz a gravação do piloto (do Acústico MTV) e, pra mim, foi interessante. Era um programa de TV onde iria expor uma sonoridade que eu criei. (Um trabalho acústico de rock) era uma coisa absolutamente inadequada. O presidente da gravadora disse que era um absurdo e ficou com medo do disco não vender nada.

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– Política brasileira atual

Eu não me interesso por isso. O que muda uma sociedade é o passar do tempo, é a chegada de outras gerações. Não é através da panfletária, político partidária. Meu pai disse que meu avô dizia “esse país é uma merda”. Do meu bisavô pra cá, quantos partidos tomaram o poder? Quantas formas de governar foram empregadas? Nenhuma delas mudou esse panorama. O que mudou não foi nenhum projeto político. Foi aprimoramento e as ideias que essas gerações vão trazendo, isso é que muda. Não vou perder meu tempo depositando fé em ninguém. Eu sou ateu, graças a Deus!