Discografia

A saga do leão do norte 1

Foto: Chico Alencar

Fotos: Chico Alencar

A voz é a mesma que deu vida a sucessos que já grudaram na cabeça do público, como Paciência, Leão do norte e Jack soul brasileiro. Seja sussurrada, como quem canta uma balada, seja forte, com o peso do rock, Lenine conversa como se interpretasse um personagem. Junto com os expressivos olhos claros e o gestual expansivo, sua comunicação é ampla e hipnótica. Curiosamente, são esses os mesmos recursos usados nos palcos do Brasil e do Mundo.

Foi assim, para falar de corpo inteiro, que Lenine recebeu a equipe do O POVO antes da passagem de som do seu show em Fortaleza. Entre a sobriedade de um príncipe e a graça de um moleque, ele contou sobre a infância em Recife, onde morava com o pai ateu e comunista, a mãe católica e macumbeira, e os três irmãos. Seguindo a prosa, ele lembrou os primeiros shows, os parceiros e a chegada ao Rio de Janeiro, onde mora há mais de 30 anos. Comentou, ainda, sobre o amor pelas orquídeas e o asco pela política brasileira. Muitas facetas de um artista que não tem dúvida do seu papel como cidadão: “Eu não faço só entretenimento, cacete. Eu tenho um papel de educador nessa história. Ouso e prefiro acreditar que passa pela educação o que eu faço”.

O POVO – Como começa sua história com a música? Quem foi o primeiro ídolo musical?

Lenine – Acho que é no núcleo familiar, a música já estava presente. Não me lembro quando. Só me lembro de estar ouvindo música, sempre. Nos finais de semana, tinha a coisa do (aparelho de som) ABC Voz de ouro, do meu pai. Aquele com as canelas finas, que era vitrola, rádio. Era o três em um. Rapaz, as memórias mais antigas que eu tenho, mais longevas, a música está presente.

O POVO – E o que tocava nessa vitrola?

Lenine – Tudo (enfático)! Éramos quatro filhos e meu pai e minha mãe. Cada um tinha seu gosto. Tinha tudo, cara. E todo mundo gostava de cantar, todo mundo tocava algum instrumento, todo mundo tinha seu caderninho de músicas preferidas. Então, não bastava você tocar só as suas músicas. Você tinha que tocar o caderninho do outro. Isso dá uma abrangência muito grande por que tinha músicas de vários nichos. Tinha uma intimidade com essas canções. Não me lembro de a música não estar presente na minha vida desde novinho.

O POVO – Seu pai tinha formação comunista…

Lenine – (interrompendo) E ainda vive e ainda tem esse sonho utópico. Ele foi quem me ensinou que o cristão e o socialista, a diferença é só a morte. Enquanto um trabalha pra depois da morte ter o paraíso, o outro quer o paraíso aqui, antes de morrer (risos).

O POVO – E sua mãe uma católica praticante…

Lenine – E macumbeira! E macumbeira! (mais risos) Então eu sofro desse sincretismo na base da minha formação.

O POVO – Pois você já adiantou a pergunta. De que forma essas vertentes antagônicas se encontravam no cotidiano?

Lenine – Meu pai é ateu. Ele chega à ideia de socialismo, ele era seminarista. Ia ser padre. Então, é uma série de eventos que gerou esse núcleo familiar. Foi muito bacana por que eles dois foram muito visionários em educarem e criarem os filhos da maneira que criaram. Instigando o conhecimento, instigando diversão, humor. Ainda hoje estão vivos, 94 (anos) o papai e 90 (anos) a mamãe.

O POVO – E de que forma esses elementos se misturaram na tua cabeça?

Lenine – Não se mistura não. É presente. No que diz respeito à religiosidade, eu tenho um interesse antropológico. E no sentido mais político das coisas, eu tenho um interesse espiritual (gargalha). Agora, ritualizei o que eu faço a ponto de ser uma missa, digamos assim. Fazer música foi a maneira que eu ritualizei o que eu faço a ponto de ser um momento especial, celebrativo, de comunhão e tal. Fazer junto, por isso que é tão importante pra mim. Por isso que o coletivo é tão fundamentalmente importante em tudo que eu faço.

BOA7O POVO – E você nasceu em durante o Regime Militar. Como um filho de comunista lidou com essa situação?

Lenine – Por isso que eu sou Oswaldo Lenine. Por que, naquele momento, o tabelião podia exercer a função de pequeno tirano. “Não, esse nome não. Arrume outro. Nome composto eu boto, mas só Lenine não vou botar” (imitando o tabelião). E minha mãe a lembrança do pai dela, Oswaldo, e ficou esse creme Rinse com abacate.

O POVO – E alguém da família teve problema com Ditadura?

Lenine – Sim, meu pai foi um. Eu lembro muito da minha mãe fazendo fogueira de livro dele e aquele fumação. Eu era muito novinho, né? Eu sou de 1959. Quando se dá o meu nascimento, já teve a segunda vez do Getúlio (Vargas) e aí já tinha perseguido todo mundo. Enfim, eu tenho essas memórias fragmentadas de perseguição. Mas, papai sempre teve essa coisa do poeta, uma sensibilidade muito grande, um olhar artístico sobre as coisas. Então, as pessoas fizeram muita vista grossa por ele. Ele foi preso, mas não foi torturado.

O POVO – E com 20 anos, você trancou o curso de Engenharia Química e vai pro Rio de Janeiro tentar a sorte na música. Antes, queria saber por que escolheu esse curso.

Lenine – Tranquei, achando que ia voltar. Eu gosto muito de Engenharia Química. Eu sou da época que a gente tinha primário, ginásio e científico. Faz tempo (risos). E no final do científico, no terceiro ano, você fazia num cursinho preparatório para vestibular. Então, já naquele momento, eu fiz alguns profissionalizantes, que é uma maneira de tomar conhecimento com alguma coisa que você gostava pra te ajudar a escolher na hora que você fosse fazer um vestibular. Já naquele momento, eu fiz petroquímica, geologia e todos eles tinham o viés da química. Isso continuou comigo. Eu tenho o interesse pelas coisas. Eu sou curioso, cara. Quando entrei na faculdade, cheguei a fazer estágio em análise cromatográfica com antibiótico, coluna e tal. Pude aprofundar um pouco esse universo.

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