Discografia

Rita Lee, uma Autobiografia promete contar tudo sem cortes

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Caro Aníbal,

No ano em que Bob Dylan deve receber um Nobel de Literatura (e digo deve porque, até agora, ele não demonstra ter dado muita importância à homenagem), a música parece estar ganhando mais espaço entre as letras. Já por isso, 2016 passa a ter uma forte simbologia para a chegada da sua tão esperada história às lojas. Rita Lee – Uma Autobiografia chega hoje às livrarias cercada pela expectativa de que ali, naquelas parcas 353 páginas, estará muito iluminada a aventura de uma menina tímida que virou rainha do rock brazuca.

Pelas poucas e repetidas notícias que já circulam por aí, soube que você selecionou pessoalmente todas as imagens. Tem topless em Barbados, no Caribe, imagens de família e de palco. Tudo saído de um baú cheio de preciosidades ainda inéditas para seus curiosos fãs. E sua vontade de cuidar bem desse tesouro é grande, já que avisou à Globo Livros, sua editora, onde deveria ir cada imagem e escreveu de próprio punho cada legenda. Ah, sim, e ainda se cercou de tesoura, cola, cartolina e canetinha para desenhar a capa. Lembrei, inclusive, que você teve um monte de objetos pessoais roubados do seu sítio. Entre as peças perdidas, figurinos, fotos e prêmios que poderiam enriquecer ainda mais as páginas deste novo livro.

Sim, caro Aníbal, cada detalhe desta autobiografia deve vir com o crivo dos seus atentos olhos azuis. Resta agora saber se as histórias que você botou ali são de fato reveladoras e não mais um apanhado de exageros em drogas que já viraram caretice entre biografias de roqueiros. O tal Guilherme Samora, o jornalistazinho que assina o texto de apresentação do seu novo livro, diz que sua honestidade é “muitas vezes brutal”. Pois vejamos. O que falar, você tem, e muito.

Segundo esse Samora aí, você descreve a prisão por porte de maconha em 1976. Fato este que você sempre apontou como uma armação da polícia em tempos de Ditadura Militar (aliás, boa brincadeira a da contracapa do livro). Pelo menos, esse xilindró te deu chance de conhecer Elis, mais uma boa história para esse livro. Essa Uma Autobiografia virá também com histórias sobre o casamento com o disciplinado Roberto de Carvalho e o nascimento dos filhos. Quero saber essa história de frente e de trás, desde a composição de sucessos, aos estádios lotados.

Isso tudo é bem legal, mas é hora também dessa biografia trazer mais histórias sobre os Mutantes. Sim, você já falou muito sobre o quanto amava aquele trio de loucos e do quanto pensou em morrer quando foi chutada para fora quando viram que você não tinha aquele perfil virtuose que a banda pediria depois do quinto disco. Mas o que falta dizer sobre sua tumultuada relação com o gênio Arnaldo Baptista e com o mandão Sérgio? Além disso, ali você conviveu com a massa real tropicalista. Quanta memória bacana deve estar esperando para ganhar o mundo…

Em seguida vem seu melhor momento na música, o Tutti-Frutti. Que banda essa, hein? Lee Marcucci e Luis Carlini eram peso, ritmo e ginga da melhor qualidade. Foi ali que seu nome ganhou realeza, algo muito bem aproveitado na década seguinte. Tem também seu problema com o álcool, algo que você não pode nem tocar caso queira viver a próxima década, e seus muitos personagens – Dr. Alex, Aníbal (que até virou apelido), Belatrix, Raul Seixas…

E sobre o hoje, você fala? Já que você decidiu que só dá entrevistas por email e que só iria falar com três jornais sobre esta biografia, gostaria de saber se vou saber da sua vida de aposentada nela.

Essa é sim uma boa história para uma biografia, Aníbal. Agora, por favor, só não me faça como seu amigo Roberto Carlos que acha que a vida dele é um patrimônio que ninguém pode tocar (depois de tanta birra, o que ele conseguiu foi uma segunda biografia, escrita pelo mesmo algoz Paulo César de Araújo e que está programada para chegar às lojas ainda este semestre, competindo com a sua). Não, sua vida é sua arte e é pública. Contá-la é fazer história, assim como fazer justiça ao seu papel na música deste País chinfrin.

Com um abraço deste fã que te carrega numa tatuagem, Marcos Sampaio

Serviço:

Rita Lee – Uma Autobiografia
Globo Livros
353 páginas
Preço médio: R$44,90