Discografia

Toquinho celebra vida e carreira com box da Discobertas

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“Diz-me com quem andas e te direi quem és” seria uma boa forma de explicar a permanência de Antonio Pecci Filho por cinco décadas na música brasileira. Ao longo desta história, o rebatizado Toquinho teve em Jorge Ben (antes do Jor) o parceiro do seu primeiro grande sucesso, a ainda atual Que Maravilha. Ele também foi fundamental na vida de Chico Buarque, quando este teve que se mandar para a Europa em busca do trabalho que a Ditadura não o deixava desenvolver por aqui. Tem ainda o encontro com Mutinho, que rendeu as belíssimas canções infantis de Casa de Brinquedos. Isso sem citar a antológica parceria com Vinicius de Moraes, que legou ao mundo algumas de suas mais belas canções.

No entanto, reduzir Toquinho a um parceiro de luxo é ser injusto com o violonista de dedilhado ágil e harmonioso; com o cantor de voz curta, afinada e sedutora; e com o compositor cheio de personalidade e recursos. Isso é o que ganha destaque no box Toquinho Que Maravilha, que reúne quatro discos lançados entre 1966 e 1974. As 51 faixas celebram o meio século da obra e os setenta anos – completados em 6 de julho – do paulistano que se embrenhou ainda jovem entre os cânones da Bossa Nova para fazer história.

slv300485-2-toquinhoToquinho Que Maravilha começa com A Bossa De Toquinho. A estreia instrumental tem ares de Baden Powell no virtuosismo elegante. “Poderá haver imperfeições, é claro, pois mesmo para artistas tarimbados, o primeiro LP é assim como o início de uma partida de futebol; dificilmente se marca um gol logo de saída”, adianta um sincero Paulinho Nogueira no texto de apresentação. O músico também fala do quanto seu ex-aluno, então um “garotão de 16 anos, meio desajeitado”, era disciplinado. Da sobriedade da capa ao repertório traz Oscar Castro Neves (Antes e Depois), Bach (Allemande) e muito Vinicius de Moraes. Tem até Triste Amor que Vai morrer, uma rara composição de Elis Regina em parceria com o padrinho musical de Toquinho Walter Silva.

toquinho-1970Quatro anos depois da estreia, Toquinho ganha mais projeção nacional ao receber Jorge Ben como parceiro e convidado em três faixas – Que Maravilha, Zana e Carolina Carol bela (que décadas depois fez sucesso num remix do DJ Marky). Puxado para o sambarock, Na Água Negra da Lagoa e De Ontem Pra Hoje mostram o que Toquinho aprendeu com o parceiro. Paulinho Nogueira também comparece num dueto de violões em Bachiana N°1. Em meio a um repertório mais suingado, La Barca parece deslocada no tempo e no repertório.

capa-toquinho-guarnieriO terceiro disco do box é a trilha da peça de teatro Botequim. Escrita por Gianfrancesco Guarnieri, teve uma única montagem em 1973 e outra, de menor repercussão, 40 anos depois. O disco traz 12 parcerias de Toquinho com o ator italiano e conta ainda com a voz madura de Marlene, numa época que ela procurava renovar o repertório e a imagem. Nessa época, a parceria de Toquinho com Vinicius já seguia prolífica e, sabedor dos ciúmes do Poetinha, ele aproveita Bobeou não vai entender para pedir perdão “pela traição com um cara que é demais, um bom parceiro, um diretor fora de série, o ator tão badalado Gianfrancesco Guarnieri”.

615m60rk-nlSe Botequim já transparece o estilo que marcou a dupla Toquinho e Vinicius, Boca Da Noite aponta para os caminhos que marcariam a obra do compositor de Aquarela e O Caderno. Toadas e melodias que balançam entre o popular e o erudito marcam um repertório de composições – cantadas e instrumentais – próprias e releituras. Tem Luiz Gonzaga (Asa Branca), Dorival Caymmi (Na Cancela) e outros. Tem parcerias com Paulo Vanzolini, Geraldo Vandré, Canhoto da Paraíba. Tem até um blues em homenagem ao guitarrista norte-americano Josh White. Um boa despedida, antes dele dedicar os próximos 15 anos praticamente à parceria com Vinicius de Moraes. Também uma boa forma de fechar esta caixa com um turbilhão de notas e melodias que fazem de Toquinho um grande nome da nossa música.