Discografia

Arnaldo Antunes apresenta repertório inédito de rocks e sambas

Uma semelhança histórica entre o samba e o rock é que ambos tornaram-se instrumentos de protesto nas mãos dos seus autores intérpretes. O primeiro deu voz à camadas populares e denunciou injustiça, exclusão, preconceito e outras mazelas. O segundo nasceu como um grito da juventude que se revoltava contra opressões, guerras e caretices. Com o tempo, ambos os estilos cresceram, se fundiram, ganharam novas leituras e ideias. Algumas dessas diferentes formas do rock, do samba e do sambarock se encontram em RSTUVXZ, novo disco de Arnaldo Antunes.

“Esse disco parte de um conceito sonoro, assim como o Iê Iê Iê (2009), que é uma visão contemporânea da jovem guarda. Esse, pelo sabor do que vinha compondo, quis juntar num disco de atrito, de contrataste entre os dois gêneros”, explica o compositor que traz esse novo repertório a Fortaleza em junho, como uma das atrações do Festival Vida&Arte. No show, Arnaldo também visita outros discos para mostrar que o rock (R) se manteve após sua saída dos Titãs, e se misturou com sambas (S) e outros ritmos (TUVXZ) numa carreira que se pautou pelo inclassificável.

E nesse 12º disco do paulistano de 57 anos os ritmos aparecem de forma bem organizada: um samba, um rock, um samba, um rock… Mais para o final das 13 faixas, um sambarock que lembra o cantor Bebeto (Serenata de Domingo) anuncia a chegada de outros ritmos (ou letras). “A ideia era essa mesmo, de ir alternando. Claro que qualquer forma de ouvir livremente vale a pena. Mas tem uma valorização da sequencia, incluindo as vinhetas que aparecem antes ou depois das faixas. Tornou-se um hábito maior ouvir saltando faixas, selecionando. Mas ainda dou valor a quem ouve o disco inteiro”, sugere Arnaldo.

Com repertório autoral e inédito, RSTUVXZ abre com uma homenagem ao feminino do samba. A Samba nasceu falando desse ritmo que, mesmo terminado com “a”, é tratado no masculino. “Ele começa falando de uma personagem e termina falando dessas personalidades maravilhosas. Na verdade, eu estava comentando o samba e fui terminando, vendo que era uma homenagem às mulheres”, conta ele que elenca nomes como Elza Soares, Jovelina Pérola Negra, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Baby do Brasil numa lista que está longe de ser definitiva. “Quando terminei, pensei: ‘Tem que ter a Beth (Carvalho), mas já estava pronta. E com certeza várias outras”.

A faixa seguinte é Se Precavê, um rock acelerado feito com Marcelo Frommer, guitarrista dos Titãs falecido em 2001. “Tenho uns cadernos e essa estava lá no baú de coisas que eu tenho guardadas, mas que permaneceram inéditas. Ela é representativa do rock que eu queria fazer nesse disco, mais berrado”, explica Arnaldo que também resgatou Pense Duas Vezes Antes de Esquecer, parceria com Marcelo Jeneci e Ortinho já gravada por eles, mas até então inédita com Arnaldo. Tem ainda Eu Todo Mundo, um rock tribal que lembra o clássico titânico O Quê. “É uma música nessa praia de usar um modo de linguagem e alternar as palavras, algo nem tão lírico e mais metafísico. Apesar de ser uma música com esse estranhamento, eu acho muito pop. Ela tem um apelo muito indireto”, avalia.

Em paralelo, Todo Mundo Pede Bis é um sambinha de acento tribalista e letra que não faria feio em vozes como Elton Medeiros ou Monarco. Ainda na batida, Amanhã Só Amanhã é um samba baiano acentuado pelos vocais das “pastoras” Liniker e Anelis Assumpção, enquanto a soturna Quero Ver Você propõe uma improvável junção de Paulinho da Viola com Rolling Stones. E antes de encerrar o álbum produzido por Curumim, Arnaldo Antunes emenda três faixas que fogem da ordem rock/samba. Tem concretismo pinkfloydiano em parceria com Paulo Miklos (Céu contra o muro), tem lambada (De Trem de carro ou a pé) e uma toada brejeira e etérea (Orvalhinho do mar).  No conjunto, a mistura faz todo o sentido por que está num disco de Arnaldo Antunes.

Tudo ao mesmo tempo agora
Na turnê que apresenta RSTUVXZ, Arnaldo Antunes aproveita pra mostrar as vezes em que se apropriou do samba pra dizer suas verdades. “São sambas que reli ao longo da minha carreira, como Judiaria, que eu fiz como um rock pra confundir ainda mais”, ri o compositor. “Não é mistura. No fim, você descobre que é a mesma coisa”, explica.

Além da composição de Lupicínio Rodrigues, Arnaldo já testou outros sambas ao longo dos 26 anos de carreira. Também em Ninguém, seu segundo álbum solo, por exemplo, tem uma versão de Lugar Comum, dos seus futuros parceiros Gilberto Gil e João Donato. No disco seguinte, O Silêncio (1996), foi a vez de Nelson Cavaquinho ter seu Juízo Final anunciado pelo paulistano.

Em Paradeiro (2001), o rock Exagerado, de Cazuza, Leoni e Ezequiel Neves, virou um tocante bossa nova nas mãos de Arnaldo Antunes. O oposto do que aconteceria com A Razão Dá-se a Quem Tem, samba de Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva, que transformou-se num punk que encerra o disco Saiba (2004). Essa trilha de sambas e rocks segue com misturas onde qualquer rótulo parece insuficiente.

Serviço:
Arnaldo Antunes – RSTUVXZ
Participações de Liniker, Anelis Assumpção, Fernando Catatau e outros
13 faixas
Pommelo Discos
Preço médio: R$ 24,90

Arnaldo Antunes no FVA
Quando: dia 24 de junho. Entrevista aberta às 14h30min e show às 20h30min
Quanto: R$20 (inteira) R$10 (meia) – válido para toda a programação do dia no evento (o acesso às atrações está sujeito à lotação dos espaços onde elas se apresentarão)
Onde: Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999)
Ingressos à venda no site e na portaria do Jornal O POVO (av. Aguanambi, 282 – José Bonifácio)
Programação completa aqui