Discografia

Gilberto Gil celebra a experiência e ignora polêmicas em Ok Ok Ok

A apresentação de Gilberto Gil na abertura das Olimpíadas de 2016 causou um alerta entre seus fãs. Claramente abatido e de rosto inchado, o músico em nada lembrava a figura esfuziante que cruzou gerações com seu som pop universal. Na época, ele passava por sucessivas internações para tratar uma insuficiência renal crônica. A iminência de perder um dos mais importantes ídolos da música brasileira deixou muita gente de antena ligada, mas ele levou a situação com a serenidade que lhe é peculiar. Postou foto em redes sociais, deu curtas declarações tranquilizadoras e deixou passar a tormenta com paciência. Não tardou e Gil já estava nos palcos celebrando os 40 anos do álbum Refavela e encontrando Gal Costa e Nando Reis na turnê Trinca de Ases.

Passado o susto, chega a hora de avaliar o que passou. É aí nasce seu 19º disco de compositor – excetuando discos ao vivo, projetos coletivos, tributos e coletâneas. Ok Ok Ok é o espelho de um artista maduro, cidadão consciente das suas funções, compositor inquieto e patriarca de uma família numerosa. Tudo é pessoal e íntimo, nada é por acaso. E, caminhando para os 60 anos de música, também não há ali a obrigação de agradar rádios, fãs ou gravadora (no caso, a Biscoito Fino), atender expectativas ou provar nada a ninguém. É apenas Gil apresentando suas mais novas composições.

Produtor do álbum, Bem Gil conta no texto de apresentação que foi chamado pela mãe, Flora, para conhecer a última lavra de canções do pai. Horas depois eles estavam juntos num estúdio, quando Gilberto Gil mostrou a faixa Ok Ok Ok, cuja letra volumosa responde a todos que querem saber sua opinião sobre tudo. A própria melodia, lenta e arrastada, transparece um cansaço diante de tantas cobranças vindas de quem espera que ele “saia no grito” ou “quede quieto e mudo”. “Então não falo, músico e poeta. Me calo sobre as certezas e os fins. Meu papo reto sai sobre patins a deslizar sobre os alvos e as metas”, encerra a questão.

Além da faixa que dá nome ao álbum, essa primeira leva de canções apresentou Na Real, um tema funkeado com ares de Djavan; Tartaruguê, uma brincadeira para o neto Dom, fã das Tartarugas Ninja; Yamandu, uma clara celebração ao violão “brejeiro”, “ligeiro” e com “suingue à beça” de Yamandu Costa, que participa da gravação. Kalil, Jacintho e Ouço compõem uma trilogia inicial sobre os apertos de saúde que Gil viveu. A primeira, que mais parece um jingle de campanha, é uma homenagem ao cardiologista Roberto Kalil, que “já tratou presidente, senador e tanta gente”. A segunda evoca um clima de Nelson Cavaquinho para falar de finitude em tons menores (“Velhice, cálculos, calos, calvície. Hora de chamar o vice para assumir o poder”). Por fim, Ouço é um samba-roqueiro que coloca o coração no centro de uma pulsação humana que vai além do corpo.

O conceito sonoro do disco Ok Ok Ok nasceu a partir da voz e do violão de Gil, gravados ao mesmo tempo. “Assim as sessões de gravação fluíram de forma orgânica, com o toque e o canto de Gil ditando andamentos e intenções”, explica Bem. E foi durante essas gravações que nasceram as demais canções do álbum. Uma delas é Quatro Pedacinhos, a narração poética de uma biópsia. Mais leve no tom, Uma Coisa Bonitinha é uma autêntica parceria com João Donato, com o próprio fazendo piano e vocais. Outra participação especial em Ok Ok Ok é de Roberta Sá, fazendo dueto na lindíssima Afogamento, que adianta o disco que a cantora está preparando apenas com músicas de Gil. Tem ainda músicas batizadas com nome da bisneta Sol de Maria (filha de Preta) e do neto Sereno (filho de Bem). Nesta última, um coro de netos faz a canção parecer uma brincadeira no quintal.

Para encerrar as 12 faixas alinhadas no conceito do disco (que tem mais três faixas bônus), Gilberto Gil reúne seus guias em Prece. Sozinho com a guitarra, ele troca boas energias com santos, iogues e orixás pedindo por um futuro indefinível. Sim, há um clima de despedida nas palavras, como se ele estivesse vendo um abismo ali na frente. Mas o homem que já quis falar com deus louva “a luta repetida da vida pra não morrer”. E, enquanto durar essa luta, ele vai cobri-la de poesia e notas musicais.