Leituras da Bel

Ryane Leão, autora de Tudo nela brilha e queima, participa de debate na Bienal do Livro

Por Natália Coelho*

“Sigo apaixonada pela mulher que batalhei para ser”. Esse é um dos versos da escritora cuiabana Ryane Leão, 30, poeta que resgata a identidade, principalmente de mulheres e negras. A autora ganhou notoriedade por pequenos poemas, divulgados em sua conta de Instagram (@ondejazzmeucoracao). Foi convidada para publicar seu livro Tudo nela brilha e queima (2017) pela editora Planeta quando a obra ainda estava em produção. Na época, a ideia era publicá-la pelo Catarse, site de financiamento coletivo em que recebeu R$ 15 mil em contribuição.

Com versos curtos, assimétricos e sem rimas em sua maioria, a poesia de Ryane Leão adota características similares da autora canadense Rupi kaur, conhecida pelos livros “Outros jeitos de usar a boca” e “O que o sol faz com as flores”. Ryane Leão é presença confirmada na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, que acontece entre 16 e 25 de agosto em 2019 em Fortaleza, e compartilhou sua trajetória e os objetivos de sua poesia em entrevista. Ela participa de conversa na próxima quarta-feira, 21 de agosto, que também terá Nina Rizzi e Jéssica Balbino.

Ryane Leão é presença confirmada na Bienal do Livro do Ceará

Leituras da Bel – Qual foi o seu primeiro contato com a poesia?
Ryane Leão – Eu escrevo desde pequena e sempre gostei muito de literatura. Meus pais liam muita poesia, como Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Cecília Meireles… Mas eu não me encontrava nessa narrativa. Eu digo que tive na verdade dois primeiros contatos: o primeiro quando eu era pequena e o segundo, em que a poesia renasceu pra mim em São Paulo, quando eu conheci saraus e a poesia escrita por das mulheres negras. Eu descobri um outro tipo de poesia que falava das minhas vivências. Então eu comecei a ler Mel Duarte, Lu Ribeiro e Jenyffer Nascimento…

Leituras da Bel – Como sua identidade é refletida na sua obra?
Ryane Leão – Acho que tudo que eu escrevo é uma forma de protesto, de identificação, de relato e de denúncia. Eu escrevo textos autobiográficos, ainda que não saiba com certeza se quando você passa para o papel, ele continua autobiográfico… A identidade é minha escrita e a escrita é minha identidade. Eu conto minhas histórias para que outras mulheres façam o mesmo.

Leituras da Bel – Como a escrita lhe ajuda a reafirmar sua identidade como mulher negra?

Ryane Leão – Acho que não é sobre reafirmar, mas sobre resgatar essa identidade. Como eu só conhecia a literatura de homens brancos, quando eu comecei a ler mulheres negras, sinto que resgatei minha vontade de falar, de ser eu, de me erguer e de dizer quem sou. A literatura das mulheres ainda tem que ser expandida, porque já falamos há muito tempo, mas ninguém parava para ouvir. É um registro para que nossas histórias não fiquem só na oralidade. A gente vive num mundo da importância do registro. Ele legitima a nossa literatura, apesar de já acreditar que a oralidade já é legitimada. Mas onde a gente vive, precisa ser escrito.

Leituras da Bel – Por que a poesia foi escolhida como o gênero do livro Tudo nela brilha e queima?

Ryane Leão – Não me prendo a nenhum gênero. A poesia para mim não tem formatação específica, nem a categorizo. Não não tem formatação, e não acho que tem que ter rima nem métrica. Mas acredito no lirismo, na abertura que ela [a poesia] dá. Como eu conheci a poesia ‘marginal’ em São Paulo, vi que as possibilidades do que pode ser dito eram amplas. A poesia, no caso, foi o gênero que veio primeiro e que me encantou mais.

Leituras da Bel – Você usa bastante o instagram como forma de divulgação de textos e trabalhos. Como as ferramentas virtuais dão propulsão aos escritos de jovens escritores?

Ryane Leão – Acredito que o Instagram é uma plataforma de divulgação do meu trabalho. Foi ótimo quando eu colava lambe-lambe na rua, porque você podia tirar foto, publicar, colocar hashtags… Possibilita que muitas pessoas tenham acesso a esse texto, tanto no Brasil, quanto fora. Quando um poeta independente teria essa possibilidade? Entendo que a internet pode ser caótica, mas aprendendo a usá-la bem, a gente pode dividir poesia, arte, revolução…

Leituras da Bel – Como foi seu processo de crescimento dentro da escrita?

Ryane Leão – Sempre fui poeta independente. Colava lambe-lambe na rua, tinha blog, depois fui para o facebook e para o instagram. Primeiro fiz um financiamento coletivo do meu livro pelo Catarse, para publicá-lo de forma independente. Mas escrevendo, eu fui chamada pela Editora Planeta para publicar lá. A editora estava buscando uma escritora que abordasse os mesmos temas da Rupi Kaur, autora do livro “Outros jeitos de usar a boca”. Me indicaram e fui chamada.

Leituras da Bel – Você fez uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse. Como as novas formas de financiamento ajudam os jovens escritores?

Ryane Leão – Acredito que expandem as possibilidade, porque os novos escritores sempre conseguem fazer algo,seja juntando pessoas na comunidade, fazendo um sarau, uma vaquinha, mas essas novas formas de financiamento ajudam especialmente a poesia independente. Eu estou numa grande editora agora, mas eu sei as dificuldades de chegar em uma grande editora. De precisar de indicação, de todo processo.

Leituras da Bel – Como foi a experiência de publicar em uma grande editora, a Planeta?

Ryane Leão – É uma abertura de possibilidade, não só para mim, mas para outras mulheres negras que querem divulgar seu trabalho. Quero que outras mulheres estejam lá, porque, se não, nada faz sentido. Saiu o livro “Querem nos calar – poemas para serem lidos em voz alta” após uma conversa minha na Flip de 2018. Como o meu livro vendeu bastante, eles juntaram também mulheres que nunca tinham sido publicadas e que talvez nunca pudessem ser divulgadas em uma grande editora. Penso que, indo para São Paulo, talvez eu consiga abrir portas para outras mulheres.

Leituras da Bel – Qual a expectativa de vir ao Ceará? É a sua primeira vez no Estado?

Ryane Leão – Eu estive no Ceará há três semanas, porque encontrei minha namorada, também poeta, em um evento. Me encantei. Estou ansiosa para fazer parte de alguma forma com a minha literatura, para não só falar, mas também ouvir. Vai ser um momento importante, político, para a gente lembrar da literatura como ferramenta de revolução social e também uma forma de motim,diante de tudo que temos passado.

Leituras da Bel – É verdade que o brasileiro não lê? E é verdade que poesia não vende no Brasil?

Ryane Leão – Acho que as pessoas estão começando a se expandir, falando de poesia. Acredito que seja a mesma situação que passei. Se a pessoa não se vê, ela não compra. Acredito que a poesia que nos foi apresentada, a gente não se identificava. Agora, por causa do instagram, tem muita gente escrevendo poesia, virando poeta. As pessoas estão começando a se identificar e a pensar sobre o que é poesia. Não exatamente defini-la, mas começando a pensar que a poesia pode falar diretamente com elas. É sobre identificação, não mercado.

Leituras da Bel – O que é que brilha e queima?

Ryane Leão – Acredito que nós somos, principalmente as mulheres, uma constelação. E como constelação, temos nossas partes que brilham muito e queimam muito. Todas as histórias terão muitos lados, então temos que estar dispostas a contar nossos lados e a ouvir. Para que a gente esteja disposta a falar, contar, ouvir e nos entender como constelações e mulheres grandiosas, que nossos processos de identificação são processos que vão permear a dor, mas são mais celebrativos que dolorosos.

Leituras da Bel – Quem é, afinal, a Ryane Leão?

Ryane Leão – Sou os textos que escrevo. Sou muitas em uma, todas que vieram antes, e as que virão depois. Sou minha família, minha mãe, que não teve a oportunidade de contar sua história, sou minhas ancestrais. Sou muitas coisas, não dá para definir numa coisa só.

Serviço
Café Literário Mulher de Palavra
Com Nina rizzi e Ryane Leão
Mediação: Jéssica Balbino
Onde: Sala A Rua e o Mundo – mezanino 2
Horário: 19 horas
Quando: quarta-feira, 21 de agosto

XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará
Quando: de 16 a 25 de agosto
Onde: Centro de Eventos do Ceará (avenida Washington Soares, 999 – Edson Queiroz)
Entrada gratuita

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Natália Coelho é estudante de jornalismo e integrante da equipe do Vida&Arte

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