Plínio Bortolotti

Jornalismo literário e jornalismo de precisão

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O texto que se segue é de autoria do jornalista americano Philip Meyer, autor do livro “Precision journalism: A reporter’s introduction to social science methods” – considerado um dos mais importantes livros sobre jornalismo e comunicação de massa no século XX – e “Os jornais podem desaparecer? Como salvar o jornalismo na era de informação”.

O artigo, uma palestra do autor, foi publicado no Observatório da Imprensa, de onde o recolhi, reproduzindo-o na íntegra. O texto é bastante longo, mas jornalistas e aspirantes a, não podem deixar de lê-lo.

Jornalismo literário e jornalismo de precisão
Por Philip Meyer, em 08/11/2011, edição 667 do OI.

Em 3/10/2011, o veterano jornalista Philip Meyer, professor emérito na Escola de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade da Carolina do Norte, fez o discurso reproduzido abaixo na Academia Austríaca de Ciências, como parte da Conferência Hedy Lamarr. Tradução: Leticia Nunes.

Íntegra da palestra de Philip Meyer: “Jornalismo literário e jornalismo de precisão”

É uma honra estar aqui e compartilhar meus pensamentos sobre as mudanças na indústria das notícias. Eu contei a meu amigo Alvin Shuster, que foi correspondente do New York Times na Europa, “Eles querem que eu faça a Conferência Hedy Lamarr”. Ele ficou surpreso.

“Ninguém”, brincou, “quer ouvir um conferencista de 80 anos que não se chama Einstein”.

Mas ser velho tem suas vantagens. É mais fácil compreender eventos que aconteceram há muito tempo. A idade nos permite ver as coisas de diferentes perspectivas. Como Steve Jobs falou em seu discurso na cerimônia de formatura em Stanford, é mais fácil ligar os pontos olhando para trás. Eu tenho lido Viena Fin-De-Siècle, de Carl E. Schorske, um relato das rápidas mudanças políticas e culturais que a revolução industrial trouxe a esta cidade no fim do século 19. Para aqueles que viviam na época, ele diz, “ninguém sabia muito como distinguir entre o que estava acima e abaixo, entre o que estava indo para frente e para trás”.

E, hoje, tentando encontrar padrões na atual confusão em meu próprio país, vejo coisas estranhas acontecendo à democracia. Imagino o quanto pode ser atribuído ao modo como novas formas de mídia, especialmente a mídia social, permitem a junção de pontos de vista polarizados. Seria isto uma aberração temporária ou uma consequência permanente da tecnologia?

Fazer prognósticos é difícil.

Mas não é impossível. Eu li o livro Forecasting the Telephone (Prevendo o Telefone), de Ithiel de Sola Pool, em que ele enumera as diferentes consequências que os especialistas previram quando o telefone estava em seu estágio inicial, de 1876 a 1940. Algumas das previsões eram bastante precisas. Por exemplo, uma feita em 1906 afirmava que o telefone facilitaria a administração central de organizações e campanhas políticas. Uma que estava enganada, também feita em 1906, dizia que o bocal do telefone coletaria germes e espalharia doenças, especialmente a tuberculose.

Acadêmicos hoje têm diferentes interpretações para o que a tecnologia está fazendo ao jornalismo, e eu não posso ter certeza de que alguma delas esteja errada. Clay Shirky da Universidade de Nova York vê um período inevitável de caos. “As coisas velhas se quebram mais rápido do que as coisas novas são postas no lugar”, disse ele. “A importância de qualquer experimento não é aparente no momento em que surge; grandes mudanças paralisam, pequenas mudanças se propagam”.

Eu tenho alguma experiência para amparar esta observação, tendo estado presente a uma grande mudança que acabou paralisada. De 1978 a 1981, ajudei a Knight Ridder a se preparar para seu empreendimento Viewtron. Meu trabalho era pesquisar o mercado e supervisionar a redação do manual de usuário. Eu fiz discursos entusiásticos alegando que esta nova tecnologia se provaria tão revolucionária quanto a invenção do tipo móvel. Mas ela ainda não havia chegado lá. Ainda que a informação se movesse eletronicamente, movia-se lentamente, no fio telefônico, à taxa de velocidade de 300 pulsos por segundo. Seus gráficos eram exibidos em um aparelho de TV. Eles estavam crus. A parte que os usuários mais gostaram foi o e-mail, mas ele não despertou nosso interesse porque, pensamos, o e-mail não tinha nada a ver com jornais.

Outros observadores focaram em interatividade como o principal valor criado pela nova tecnologia. Meu amigo Dan Gillmor nos deu o conceito de “a ex-audiência”. A indústria de notícias, disse ele, é menos como uma conferência e mais como um seminário. Isso me parece correto. E a diferença entre um seminário e uma conferência é que uma conferência é mais bem organizada. Se vocês já tiveram a experiência de organizar a transcrição de um seminário em um produto coerente para ser publicado, sabem do que estou falando.

Organizando informações

Mas esta informação precisa ser organizada para nós? Jeff Jarvis, da Universidade da Cidade de Nova York, não tem tanta certeza. Ele acredita que a velocidade da informação reduz a necessidade de uma composição formal na forma de artigos. Hoje, diz ele, as notícias são mais um processo do que um produto. Em vez de ficar limitados a artigos, os consumidores podem penetrar no “fluxo livre, sem início e sem fim, da corrente digital”. Sob este ponto de vista, a manutenção do fluxo é a principal tarefa do jornalismo, com artigos algumas vezes úteis como um subproduto. Eu gosto da imagem da corrente sem início e sem fim. Mas acho que seus usuários vão precisar de alguma ajuda para encontrar valor nela. Esta ajuda pode acabar se parecendo muito com “artigos”.

Eu suspeito que todos nós concordamos que as tecnologias da era da informação produzem dados mais rápido do que produzem conhecimento. Em vez de substituir o jornalismo, a Internet está criando uma nova necessidade de mercado: de síntese e interpretação do crescente fluxo de fatos.

Em Os jornais podem desaparecer? Como salvar o jornalismo na era da informação, eu comparei a era digital ao desenvolvimento da agricultura. Quando a caça e a colheita eram as principais fontes de alimento, poucos tinham o luxo de ser minucioso quanto a sua qualidade. Mas a agricultura criou tal abundância que uma grande variedade de processamento tornou-se possível. Nos preocupávamos menos com conseguir o bastante para comer e passamos a pensar sobre conteúdo vitamínico, fibra, gosto, textura, todos os tipos de variáveis. E, nos EUA, atingimos um marco em 1983. Neste ano, a porção do produto interno bruto gasto na produção de alimentos, por exemplo, o processamento, começou a exceder a quantidade gasta na agricultura.

O mesmo acontece com a informação. Agora que ela é abundante, nosso interesse se volta ao processamento. Dois tipos são importantes economicamente. Um organiza a informação para a recuperação eficiente pelo usuário final. Eu chamo isso de “facilidade de uso”, e ela é facilitada por artigos bem elaborados, ofertas multimídia, e arquitetura web. O outro processo acontece mais à frente no sistema. Todos os fatos, na “corrente digital sem início e sem fim”, precisam ser integrados em temas e conclusões significativos. Fatos desorganizados não são o bastante.

Precisamos de estrutura para enxergar “a verdade sobre os fatos”.

A verdade sobre os fatos: esta é uma boa frase, mas não é minha, e também não é uma redundância. Vem de um relatório de 1947 da Comissão sobre a Liberdade de Imprensa liderada por Robert M. Hutchins. Com a tecnologia disponibilizando uma quantidade maior de fatos hoje, dizia ele seis décadas atrás, encontrar a verdade sobre eles é mais difícil e mais importante.

Se esta presciência é notável, considere Walter Lippmann. Ele havia enxergado esta mesma necessidade 25 anos antes. Em 1922, ele publicou Opinião Pública, um clássico ainda impresso hoje. No primeiro capítulo, ele alertava que “a exposição direta ao fluxo e refluxo de sensações” não é o bastante. Assim ele expôs sua teoria:

Para o ambiente real é, como um todo, muito grande, muito complexo, e muito fugaz para o conhecimento direto. Não estamos equipados para lidar com tanta sutileza, tanta variedade, tantas trocas e combinações. E ainda que tenhamos que atuar neste ambiente, temos que reconstruí-lo em um modelo mais simples antes que possamos administrá-lo.

Lippmann sugeria o uso do que chamou de “ficções” para manejar dados, e ofereceu, como exemplo, os modelos esquemáticos da ciência. “Um trabalho de ficção pode ter quase qualquer grau de fidelidade”, disse, “e desde que o grau de fidelidade seja levado em consideração, a ficção não é enganosa”.

Walter Lippmann ainda estava vivo na segunda metade do século 20, quando jornalistas começaram a experimentar com duas novas maneiras de tornar a busca pela verdade mais manejável. O jornalismo de precisão emprestou as ferramentas da ciência. O jornalismo literário era baseado em arte. Em seus estágios iniciais, estas duas abordagens pareciam estar em conflito. Meu argumento hoje é que, no século 21, nós devemos considerar a possibilidade de precisarmos dos dois.

O que eles têm em comum é o reconhecimento de que dados brutos precisam de estrutura para que se tornem coerentes. A ciência cria estrutura com o que Lippmann chamou de modelos esquemáticos, que vêm da teoria. A arte cria estrutura através do modo de contar histórias. É possível que encontremos meios de fundir estas duas estratégias e contar histórias sobre dados baseados em uma teoria verificável? Antes que pensemos sobre esta possibilidade, vamos considerar uma pequena história.

O “Novo Jornalismo” encontra o “Jornalismo de Precisão”

Em 1974, ano em que Walter Lippmann morreu, Everette E. Dennis e William L. Rivers publicaram um livro intitulado Other Voices (Outras vozes). Ele classificava o que seu subtítulo chamou de “O Novo Jornalismo na América”. Eles rotularam uma de suas categorias de “a nova não-ficção”. Hoje ela é conhecida como “jornalismo literário” ou “não-ficção criativa”. Em reconhecimento a ter se tornado uma técnica mainstream, a Fundação Nieman, da Universidade Harvard, organizou uma conferência anual com bom públicosobre jornalismo literário de 2001 a 2009. O comparecimento chegou perto de 900 em 2008, antes que a recessão viesse a desencorajar viagens discricionárias. O gênero começou a aparecer nos anos 1960. Suas técnicas de ficção incluem monólogo interno – o que o personagem da matéria estava pensando – e detalhes do desenvolvimento do personagem e da descrição do ambiente. Entre os primeiros praticantes estão Gay Talese, Tom Wolfe e Jimmy Breslin. Alguns romancistas tentaram praticá-lo pelo outro lado, criando o romance de não ficção. Havia A Canção do Carrasco, de Norman Mailer, e A Sangue Frio, de Truman Capote.

Também foi nos anos 60 que alguns de nós começaram a aplicar métodos de pesquisa de ciências sociais – incluindo análises estatísticas e verificação de hipóteses – à prática do jornalismo. O gênero costuma ser chamado de “jornalismo de precisão”, termo cunhado por Dennis. Ele e Rivers enxergaram o conflito. Os jornalistas literários, diziam, “são subjetivos a tal nível que incomodam os jornalistas convencionais e horrorizam os jornalistas de precisão. Em essência, todos os outros novos jornalistas levam o jornalismo para o lado da arte. Os jornalistas de precisão o levam para o lado da ciência”.

Uma das características proeminentes da ciência é que ela é conduzida de tal forma que seus resultados possam ser verificados. Isso significa perguntar uma questão de natureza de uma forma que você não será enganado pela resposta. Eu participei de um dos primeiros exemplos.

No verão de 1967, a Knight Newspapers enviou-me para ajudar o Detroit Free Press e sua equipe sobrecarregada a cobrir um distúrbio por questões raciais na cidade. Eu havia acabado de completar um ano como bolsista da Fundação Nieman, da Universidade Harvard,e estava imerso no método científico, particularmente o praticado por cientistas sociais. As ciências sociais estavam na iminência de uma revolução. Métodos quantitativos, antes um subconjunto exótico, eram possibilitados pela queda rápida no preço da potência da computação e pelo desenvolvimento de linguagens estatísticas de alto nível. Harvard me ensinou a usar uma destas linguagens, chamada DATA-TEXT, escrita em Harvard para o IBM 7090.

Enquanto o tumulto estava em progresso, no Free Press nós cobríamos o evento com entrevistas e observação direta. Mas se você seguir a lógica de Lippmann, verá que as notícias são mais do que sobre os eventos. São também sobre padrões e a estrutura fundamental que produz estes padrões.

Era com a estrutura fundamental que nós estávamos preocupados em nossa cobertura após os conflitos em Detroit. Detroit tinha uma reputação de relações interraciais relativamente boas. O que mudou para causar o tumulto? Precisávamos de algumas hipóteses. Em 1967, havia várias delas. A sabedoria convencional, como expressada por jornalistase cientistas sociais, oferecia algumas:

** A teoria “riff-raff” (ou teoria da ralé) – Dizia que os manifestantes vinham da base da escala sócio-econômica e eram simplesmente incapazes de subir na vida por outros meios. (Vocês devem ter ouvido ecos desta teoria nos debates sobre os recentes distúrbios na Inglaterra)

** A teoria da não-assimilação – Uma porção considerável da população afro-americana de Detroit consistia de migrantes do sul rural. Eles tinham dificuldade na socialização no ambiente urbano do norte, com suas condições de vida diversas, e então recorriam à rebelião.

** A teoria das aspirações de ascensão – Quanto mais se chega perto de um objetivo desejado, a frustração de não atingi-lo aumenta. A privação por comparação é mais dolorosa do que a privação absoluta, e os distúrbios eram uma expressão desta dor.

No Free Press, contratamos consultores da Universidade de Michigan e organizamos uma pesquisa com uma amostra das residências na área dos conflitos, usando entrevistas pessoais. As questões eram designadas a testar aquelas hipóteses.

Descobrimos que os residentes que eram criados no norte eram mais suscetíveis a participar dos tumultos do que seus vizinhos do sul. Três vezes mais, de fato. E lá se foi a teoria da não-assimilação.

Descobrimos que educação e status econômico não eram determinantesde um comportamento turbulento. Isso tornava falsa a teoria “riff-raff”.

Por eliminação, fomos deixados com a teoria das aspirações de ascensão. A relativa privação estava por trás da estrutura que levou ao padrão que levou ao distúrbio, o evento. Se não tivessemos entrado naquele projeto com teorias específicas para testar, nossas histórias teriam sido compilações caóticas de fatos frouxamente relacionados.

O movimento dos direitos civis e o movimento anti-guerra do fim dos anos 60 e dos anos 70 eram tópicos ideais para a aplicação do jornalismo de precisão, e ele desde então se tornou uma ferramenta padrão para repórteres investigativos.

Outro meio de reportar padrão e estrutura é através da narrativa. É aí que os jornalistas literários se sobressaem. Sua não-ficção criativa tem uma voz mais pessoal do que a escrita tradicional de notícias. Alguns acreditam que ela tem o potencial para tornar os jornais mais amistosos a seus leitores.

Por décadas, como um jornalista de precisão eu considerei os jornalistas literários meus inimigos naturais. Não ajudou que os primeiros praticantes por vezes foram pegos inventando coisas. Por exemplo, Gail Sheehy escreveu um artigo para a revista New York em 1973 que descrevia com grandes detalhes as escapadas sexuais e financeiras de uma prostituta em Nova York que foi chamada de “Redpants”. Aí o Wall Street Journal revelou que não havia nenhuma “Redpants”. Sheehy havia usado uma combinação de diversas prostitutas para criar a compressão dramática necessária para dar a sua história o ritmo e a profundidade da ficção.

Em 1980, uma repórter do Washington Post, Janet Cook, escreveu um artigo literário de cortar o coração sobre um viciado em heroína de 13 anos chamado Jimmy. Infelizmente para ela, a matéria ganhou o Prêmio Pulitzer de Reportagem Especial em 1981, e isso levou a questões sobre Jimmy e pedidos de uma sequência. No fim das contas, ele não existia. Cook perdeu o emprego, e o prêmio foi anulado.

A defesa daqueles que usam muito da ficção para produzir as notícias é que eles estão buscando “uma verdade maior”. De fato, a ficção fará isso. Mas o leitor merece saber quando a ficção é o veículo para a suposta verdade.

O jornalismo literário, como o jornalismo de precisão, é muito trabalhoso. Para reportar a rica e criativa estrutura da ficção, o escritor precisa primeiro montar um enorme conjunto de fatos, e a partir daí escolher aqueles que se adequam a uma estrutura narrativa. Jimmy Breslin, meu redator favorito, publicou um artigo na revista New York em 1968 que eu gostava de usar em minhas aulas de escrita jornalística – como um exemplo excelente de escrita – e em minhas aulas de ética como um exemplo de reportagem pobre.

Breslin cobriu uma parte da campanha de Robert Kennedy pela nomeação Democrata para presidente e estava com ele quando o político falou a estudantes no estádio da Universidade Estadual do Kansas. Meses mais tarde, depois de Kennedy ter sido assassinado, Breslin voltou à Universidade como palestrante convidado. Ele andou pelo campus com um grupo de alunos que continuava a falar sobre Kennedy.

Sua narrativa lembrava a paixão daqueles estudantes do meio-oeste e como Kennedy havia estimulado seu ativismo político latente com sua oposição à guerra do Vietnã. Enquanto os ouvia lembrar do discurso, Breslin avistou um prédio de pedra calcária, suas paredes chamuscadas e seu interior devastado pelo fogo.

“O que tinha naquele prédio”, perguntou aos alunos.

“O ROTC”.

ROTC, é claro, é o Reserve Officer Training Corps (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), um programa de quatro anos que permitia que um estudante tivesse treinamento militar ao mesmo tempo em que recebia o título de bacharel. O sentimento anti-guerra nos anos 60 levou algumas universidades, incluindo Harvard, a bani-lo de seus campi.

Então o tema da narrativa de Breslin era que o radicalismo anti-guerra havia chegado à conservadora Kansas no meio do continente, e ele voltou para casa com a história final para a matéria pronta, o que os jornalistas chamam de “the kicker”. Alunos manifestantes haviam queimado o prédio do ROTC.

Mas na verdade eles não queimaram. Eu estudei na Universidade Estadual do Kansas. O ROTC estava naquela época, e continua, do outro lado do campus. O prédio queimado era o Ginásio Nichols. Ele continha um ginásio, uma piscina, e a estação de rádio estudantil. O incendiário era um alunoperturbado emocionalmente cujo descontentamento não tinha nenhuma relação com a guerra no Vietnã.

Não estou acusando Breslin de inventar a parte sobre o ROTC. Talvez ele estivesse desinformado. O ROTC guardava seus rifles no Ginásio Nichols até 1942, quando o Departamento de Ciência Militar ganhou seu próprio prédio. Talvez alguém tenha mencionado isso, e ele chegou à conclusão errada. O problema com o jornalismo literário é que os escritores ficam tentados a evitar a checagem de fatos por medo de que os fatos estraguem uma boa história.

Vocês já devem ter notado que todos os meus exemplos de erros no jornalismo literário são antigos. Talvez seus praticantes estejam melhorando.

“Narrativa baseada em evidências”

Ambos os gêneros, o jornalismo literário e o jornalismo de precisão, são formas especiais que precisam de habilidades especiais. Se fôssemos misturar os dois, como chamaríamos esta mistura? Eu gosto do termo “narrativa baseada em evidências”. Ele sugere uma boa forma de contar histórias com base em evidências verificáveis.

Sim, esta seria uma especialidade esotérica. Mas eu acredito que há um mercado em desenvolvimento para ela. O mercado da informação está nos levando inexoravelmente para uma cada vez maior especialização.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o jornalismo vem evoluindo de um modelo de produção em massa para uma comunicação mais íntima. A mídia tradicional estava fabricando produtos. Eles precisavam de economias de escala para justificar os custos de seus meios de produção– uma máquina de impressão ou equipamentos de transmissão. E assim o jornalismo se tratava de criar algumas mensagens destinadas a alcançar muitas pessoas. Mas com o aumento do número de canais pela tecnologia, a nova economia da informação suporta mais conteúdo especializado – muitas mensagens, cada uma atingindo um número menor de pessoas. Isso significa que, como público, nós temos menos experiências comuns que constroem valores comuns.

Eu costumava chocar meus alunos declarando, “eu lembro [pausa dramática] de quando não havia televisão!”. E de um tempo em que não havia rádio FM. Nas noites de domingo nos EUA quando eu tinha 11 anos de idade, 75% da audiência de rádio ouvia o mesmo programa transmitido nacionalmente na rádio AM: o Programa Jack Benny, 30 minutos de música e comédia. Quando o presidente Franklin D. Roosevelt concorria a seu quarto mandato em 1944, um de seus discursos chegou a 83% daqueles que ouviam rádio. Eram cotas de audiência muito grandes, e sua dimensão as tornava imensamente valiosas para os anunciantes. De fato, o valor de um meio de comunicação para os anunciantes era julgado pelo que os vendedores de anúncios chamavam de CPM, que significa o custo por mil consumidores atingidos.

Este cálculo dava a todos os membros da audiência pesos iguais. A transição para mensagens de mídia mais especializadas tornou possível considerar as características da audiência, e permitiu que os anunciantes voltassem suas mensagens a grupos especializados. O CPM é menos importante hoje como uma medida de valor publicitário. A qualidade da audiência é mais importante que sua quantidade.

Agora transporte esta tendência à especialização aos dias de hoje, e o que você encontra? Twitter e mensagens de texto. Muitas mensagens curtas, cada uma destinada por suas fontes a indivíduos ou grupos pequenos que escolhem segui-las. Esta é a porção mais precisa e especializada do que Jarvis chamou de “corrente sem fim”.

É necessário que um ambiente que premia a especialização não se limite à especialização do assunto. Ele pode também construir uma especialização baseada em metodologia. Ambos jornalismo de precisão e jornalismo literário interessam a uma audiência sofisticada, que aprecia a necessidade de que a informação seja estruturada de um modo que o foco da atenção esteja na verdade.

É por isso que não é um sonho tão extravagante que o jornalismo com base em evidências, incorporando precisão e narrativa, possa preencher a necessidade por interpretação confiável e seleção da verdade relevante do fluxo eterno de dados.

As previsões tecnológicas de maior sucesso, como Ithiel Pool descobriu, foram aquelas que combinaram o estudo de possibilidades técnicas com análise de mercado. Os empreendedores bem sucedidos vão analisar a necessidade de mercado e trabalhar a partir daí, construindo um sistema para chegar a uma necessidade comprovada, e não uma necessidade imaginada. Nós deveríamos ter pensado nisso quando construimos o serviço Viewtron.

Sobrecarga de informação

A necessidade por sistemas que sintetizem e processem dados em conhecimento compartilhado vai, eu prevejo, se tornar óbvia. Dado não processado é indistinguível de ruído. Enquanto o fluxo sem fim de dados cresce, o mesmo ocorre com a demanda por instituições e métodos melhores para processá-los.

Como eles serão formados? Na primavera passada, a agência que regula o fluxo de informação eletrônica nos EUA, a Comissão Federal de Comunicações, divulgou um relatório sobre as necessidades de informação de comunidades em um mundo banda larga. Eu sugeri que as instituições necessárias serão o resultado espontâneo das forças do mercado. A velha e a nova mídia vão aperfeiçoar a efetividade uma da outra, falei.

Multidões podem analisar documentos brutos, e repórteres podem encontrar a fonte no órgão para descrever sua importância ou revelar que documentos foram sonegados. Cidadãos podem fornecer atualizações via Twitter de um acontecimento, e repórteres podem buscar padrões e determinar quais tuítes devem ser interesseiros ou fraudulentos.

Pode ser. Mas eu não acho que será assim tão fácil. Os padrões não serão sempre tão óbvios. Maiores habilidades analíticas e narrativas serão necessárias. Não será com frequência que as duas habilidades, analítica e narrativa, poderão ser combinadas em um repórter, então precisaremos de mais reportagem de equipe e editores capazes de recrutar e coordenar o talento necessário. Em outras palavras, a velha mídia terá que mudar também.

O caso do Detroit Free Press em 1967 foi um prognóstico deste desenvolvimento. O Prêmio Pulitzer foi concedido à equipe do jornal pela totalidade de seu trabalho, a cobertura local, as interpretações narrativas, as investigação das 43 mortes, e a pesquisa. Na época, o comitê do Pulitzer preferia reconhecer esforço individual, mas prêmios de equipe se tornaram mais comuns à medida que organizações de notícias bem administradas passaram a usar uma variedade de habilidades para produzir grandes pautas.

Eu vejo isso acontecendo recentemente em alguns veículos de mídia investigativos sem fins lucrativos que começaram a preencher o vácuo deixado por jornais moribundos. A ProPublica, sediada em Nova York, juntou-se ao Seattle Times em dezembro último para reportar sobre a crise das hipotecas nos EUA. A ProPublica forneceu uma especialista em informática, Jennifer Lefluer, para fazer o levantamento pesado da análise de dados, e o Times forneceu um repórter, Sanjay Bhatt. Eles reuniram uma amostra de probabilidade de cerca de 400 execuções hipotecárias em três áreas metropolitanas, Seattle, Baltimore e Phoenix. Sua matéria escrita em conjunto combinava análise quantitativa com reportagem de interesse humano, e mostrava vividamente como a combinação de padrões frouxos de empréstimos e preços inflados de imóveis havia causado a crise. E demonstrava que se reguladores governamentais tivessem conservado melhor os registros poderiam ter fornecido algum alerta antecipado.

Instituições como a ProPublica têm uma oportunidade imensa. Elas podem se destacar tão claramente do ruído confuso da sobrecarga de informação, seu valor pode ser tão extraordinário, que todos vão querer prestar atenção nelas. Vocês veem um padrão aqui? Mais uma vez, nós talvez possamos ser capazes de enviar poucas mensagens a muitas pessoas, em uma reversão da desmassificação da mídia. Seria possível novamente prestar atenção a interesses comuns.

Eu não sou o primeiro a sugerir isso. W. Russell Neuman, o cientista político americano, levantou a mesma questão em 1991 quando publicou The Future of the Mass Audience (O futuro da audiência de massa). Jornais eram poderosos porque seus gastos com a produção criaram um gargalo que levou a um monopólio natural. A nova mídia, ainda que a produção seja barata, poderia criar um valor incomum ao melhorar a qualidade mais à frente no processo, no fim criativo. É aí que estará o gargalo.

Tal desenvolvimento pode nos salvar de uma maior fragmentação do mercado de informação. E esta fragmentação, como eventos no meu país demonstram, pode ser perigosa.

Psicólogos sociais há tempos se preocupam com o que ficou originalmente conhecido como “síndrome de desvio para o risco”. Um bacharel em 1961 descobriu que decisões tomadas por grupos tendem a levar a ações mais perigosas do que decisões tomadas por indivíduos. Mais recentemente, isso foi chamado de “polarização de grupo”, reconhecendo que a mudança pode levar também para o outro extremo, a inércia pelo medo. O prolongamento da guerra no Vietnã foi atribuído a este fenômeno.

A tecnologia da informação de hoje, como vocês sabem, encoraja a formação de grupos de pensamento igual. Tornou-se mais fácil para membros se encontrarem quando a comunicação mudou de um modelo de um para muitos para um sistema de muitos para muitos. Redes sociais encorajam a polarização ao confirmar e amplificar pontos de vista extremos.

Seria então a tecnologia da informação a causa da atual pane no governo dos EUA? Nós temos base para especulação. Agora que a mídia é “social, global, onipresente e barata”, como diz Clay Shirky, nós não podemos mais pensar no “público” da mesma maneira. Em vez disso, políticos têm que lidar com grupos que focam em questões únicas. Talvez vocês tenham ouvido falar de Grover Norquist, um cidadão americano que teve como missão seguirlegisladores e persuadi-los a assinar um compromisso contra o aumento de impostos. Até o fim de setembro, a maioria da Câmara dos Representantes, 235 de 435, e quase metade do Senado, 41 de 100, haviam assinado o documento.

Vocês veem o que isso faz para a democracia? Por definição, a democracia representativa é um processo deliberativo. Você não pode conduzir uma democracia por referendo, porque um referendo apresenta cada questão isoladamente. As pessoas querem coisas conflitantes. Nós queremos impostos mais baixos e mais serviços. Nós queremos menos regulação, exceto onde a regulação protege nosso caso em especial. Resolver estes conflitos requer deliberação, e é para isso que serve um órgão legislativo. Benjamin Franklin expressou bem esta ideia durante a Convenção Constitucional de 1787.

“Quando uma mesa larga está para ser construída, e as beiras da tábua não encaixam”, disse ele, “o artesão tira um pouco de cada lado e faz um bom encaixe”.

É claro, desde os dias de Franklin, a velocidade e o volume de informação aumentaram por ordem de grandeza. Quando a mídia é “social, global, onipresente e barata”, grupos de interesse único podem focar com grande intensidade em políticos e atar suas mãos antes mesmo de tentativas de aparar as arestas. Seria isso uma aberração temporária ou uma barreira estrutural permanente que mudará o modo como funciona a democracia?

Somente o tempo irá dizer, mas a informação deve ajudar a democracia, não prejudicá-la. Nós precisamos de novas instituições para construir novas formas de mídia que deixarão que a verdade se destaque da confusão barulhenta e exijam atenção porque são confiáveis e compreensíveis. O jornalismo literário combinado ao jornalismo de precisão poderia fazer isso. Vamos começar.

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