Plínio Bortolotti

Boaventura de Sousa Santos: “A sociologia da prepotência”

Meu artigo semanal no O POVO, publicado nesta quinta-feira (31/10/2013)

Black Bloc das Cores, de Hélio Rôla (clique para ampliar)

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A sociologia da prepotência
Plínio Bortolotti

A repórter Janaína Marques foi extremamente educada (como o jornalista deve ser com o seu entrevistado), ao contornar a estupidez do professor português Boaventura de Sousa Santos, ouvido nas Páginas Azuis deste jornal (28/10/2013).

Generosa, a jornalista classificou-o no texto de abertura como “um dos intelectuais mais conceituados” e “um dos sociólogos mais festejados” da atualidade. Para outros, ele é um “ícone” da esquerda. Porém, a repórter registrou que Boaventura “irritou-se com (várias) perguntas” e “disse, algumas vezes, que era hora de terminar a entrevista”.

E o que irritou o eminente professor? Primeiro, pelo jeito, a insistência da repórter em entrevistá-lo, apelo ao qual cedeu docemente contrariado. Depois, durante a entrevista, quando passou a distribuir críticas a governos latino-americanos, a repórter quis saber se existia alguma alternativa. Boaventura interrompe:

… Essa é uma pergunta errada. É uma pergunta conservadora.

(A intimidação intelectual é um recurso autoritário, usado pela direita e pela esquerda, na tentativa de constranger jornalistas e calar dissensos. Lembram José Serra, candidato a presidente pelo PSDB? A qualquer pergunta de que não gostava, ele acusava o jornalista de estar “a serviço do PT”.)

Educadamente, a jornalista insiste; o professor volta à carga.

– (…) Se você fosse filha ou mulher do José Maria (do Tomé, agricultor assassinado em Limoeiro do Norte, depois de denunciar o uso indiscriminado de agrotóxicos na região), não me faria essa pergunta.

Deprimente. O “intelectual” vale-se do argumentum ad hominem (contra a pessoa) para desqualificar a pergunta e negar-se a respondê-la.

A propósito, como bom “sociólogo militante”, Boaventura morou em uma favela brasileira, Jacarezinho, no Rio. Deu o nome de “Pasárgada” à experiência. Das duas uma: ou ele não leu (se leu não entendeu) o poema de Manuel Bandeira; ou viu os seis meses em que morou na favela como mero passeio (do qual, obviamente, ele podia cair fora).

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