Ancoradouro

Gaspar, aquele que veio inspecionar

 

As sete crônicas de Natal – 5

Acredita-se pela tradição que foram três os Reis que visitaram o Menino Jesus, já que a Sagrada Escritura não informa o número, entanto pela quantidade de presentes afere-se este número. É são Beda, o Venerável (673-735), que no seu tratado Excerpta et Colletanea descreve quem seriam estes Reis e a partir destas informações nos uniremos a cada um destes viajantes em sua Jornada.

ícone da Natividade do Senhor

ícone da Natividade do Senhor

Gaspar era o Rei mais jovem dos magos, vinte anos. Era robusto e partiu de uma distante região montanhosa, perto do mar Cáspio. Seu nome significa aquele que vai inspecionar. Seu presente ao Menino Jesus foi o incenso.

No ícone oriental da Natividade do Senhor a montanha é a simbologia do próprio Cristo. Gaspar que sai de uma região montanhosa para encontrar Cristo, portanto, a montanha santa, nos recorda que todos nós viemos de Deus e para ele retornamos. Ainda podemos deduzir que a jornada deste jovem rei consiste em subir a Montanha.

Ainda no ícone da Natividade encontramos ocupando o centro da imagem “uma plataforma onde Maria está ajoelhada próximo à gruta. Nesta Montanha, o Novo Sinai, de onde Deus se revela, Deus é quem está à entrada da gruta e a humanidade, simbolizada por Maria, pode ver face a face Deus sem cobrir o rosto, pois Deus está sob o véu da carne em Jesus Cristo. Deus se fez homem. Deus se fez visível e acessível ao homem.”[1]

Somos chamados a nos unir a este personagem jovial que evoca o desejo de encontrar ao Messias. O presente que levava, na época, era costume oferecer aos sacerdotes. Gaspar assemelha-se ao jovem, certa vez descrito por Emmir, na sua série de artigos Gocces que  buscava pela liberdade interior. Este jovem também devia subir  a montanha.

A nós interessa neste momento o conselho que recebeu o rapaz em sua peregrinação, “Primeiro passo: liberte-se de tudo o que o distrai, de tudo o que ocupa seu coração. Fique atento ao seu interior, onde você leva somente a Deus e a você mesmo.”[2] Subir a montanha implica em lançar fora tudo que se torna empecilho para o êxito da jornada, o peso dos vícios, as amarras de uma consciência relaxada e o incandescente brilho das seduções.

Nós precisamos de Deus, afirmação básica, no entanto, difícil tantas vezes de ser compreendida na profundidade que exige. Subir a Montanha, percurso conhecido de Moisés nos revela a indispensável e contínua relação que devemos ter com o Senhor.

Na peregrinação não nos esqueçamos que levamos um presente ao Messias sacerdote, incenso agradável, do Líbano, o de mais puro odor. Eleva-se aos altos céus e consigo ascende nossa vida e o desejo de ver Deus face a face. Mas também nos ensina sobre a transitoriedade da coisas, o quanto é efêmero e passageiro que está sob o céu. Quanto mais pesados das coisas, dos valores e da mentalidade deste mundo menos conseguiremos alçar o livre vôo dos filhos de Deus.

 Na Montanha santa, ao fim da jornada, encontraremos não mais uma gruta para nos esconder da face de Deus, mas o lado aberto do Senhor para nos abrigar e lá descobrirmos a riqueza da eternidade. Aprenderemos in loco que o tempo esconde o que é eterno, sentença que exprime em suas entrelinhas a responsabilidade que requer nossas ações no tempo presente, estas serão transformadas em eternidade com todas as suas conseqüências.

 Que tal pararmos um pouco, faz parte da jornada, e recordar quais foram nossas ações ao longo deste ano e quais suas repercussões em nossa vida. Ainda pode nos ajudar a prosseguir com mais fôlego avaliar nossa relação com o tempo, criatura e dom de Deus, feito a todos nós. Tem sido o tempo vaso que queima o incenso agradável de todas as nossas ações, atitudes e decisões que deve subir ao trono de Deus?

Gaspar nosso jovem peregrino traz no significado de seu nome, aquele que vai inspecionar algo de semelhante a uma pessoa muito conhecida da espiritualidade Shalom e querida nossa, aquele que precisou inspecionar as marcas das chagas dos cravos nas mãos e no lado de Nosso Senhor para crer, Dídimo, o Tomé.

 Ao chegarmos diante do Menino, O adoremos, não tenhamos medo de antecipar a profissão de fé feita ao Ressuscitado que passou pela cruz, ‘meu Senhor e meu Deus’. O Menino é Deus e já é sacerdote, o reconciliador entre nós e Deus, é Ele que veio salvar o que estava perdido (Lc 19,10), “e uma vez chegado ao seu termo, tornou-se autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem”(Hb 5,9).

 


[1] O ÍCONE DA NATIVIDADE DO SENHOR >>http://www.ecclesia.com.br/ekklisia/biblioteca/iconografia/meditando_natividade.htm<<

[2] GOCCE, MARIA EMMIR NOGUEIRA

>>http://www.comshalom.org/_formacao/exibir.php?form_id=1273 <<

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