Cinema às 8

“O Shaolin do Sertão”: piada até o talo

1648 1
Edmilson Filho e Falcão

Edmilson Filho e Falcão

Em 2012, o cearense Hálder Gomes criou um fenômeno do cinema cearense e apontou uma nova estrela da comédia local. Apesar dos problemas de desenvolvimento, “Cine Holliúdy” trazia um equilíbrio entre a regionalidade e a irreverência no humor. Já o ator Edmilson Filho demonstrava um timing para comédia física, aliada a uma ingenuidade e esperteza dignos de Mazzaropi. “O Shaolin do Sertão”, novo filme da dupla, busca beber da mesma fonte para revisitar o fenômeno do riso.

De cara, a maior produção do filme chama a atenção. A direção de fotografia de Carina Sanginitto impressiona, conseguindo trazer tanto a beleza plástica de um sertão seco, como contrapor a secura com uma paleta de cores mais viva. Ainda que com excessos, a direção de arte constrói parte da personalidade excêntrica do protagonista. Já a edição de som, assinada por Érico Paiva (o “Sapão”) é um primor, ajudando nas gags de comédia ao impor um ritmo oitentista às cenas de ação. Outro acerto é a trilha musical, que passeia entre o tradicionalismo sertanejo e acordes típicos da musicalidade asiática.

Assim como em “Cine Holliúdy”, a trama se dobra ao poder do cinema na construção de personalidades únicas. Tal qual Francisgleydsson, Aluizio Li (Edmilson Filho) é alguém que vive em seus ídolos cinematográficos. Dono de fita VHS, mas sem um videocassete; capaz de golpes vistosos, mas intimidado até por criança. É um herói ingênuo, bobo, simpático e com a língua solta. A verborragia do filme, aliás, impressiona. Recheado de uma fauna extensa de personagens marcantes, “O Shaolin do Sertão” reproduz padrão de fala (e xingamentos) semelhantes a todos os papeis. O menino Piolho (Igor Jansen), o mestre Wil-chon (Falcão) e Aluizio Li tem a mesma tendência recorrente de mandar um “Ai dentu” sempre que possível.

Na trama, o herói precisa conquistar a cidade e o amor de Anésia Shirley (a bela Bruna Hamú) ao vencer um desafio de vale-tudo contra o poderoso Toni Tora Pleura (Fábio Goulart). Passado na Quixadá de 1982, o filme se baseia em disputas de MMA ocorridas no interior do Brasil na década de 1980, anos antes do termo “artes marciais mistas” ser cunhado. Ao mesmo tempo, o longa referencia os filmes de artes marciais de Bruce Lee e séries como “Kung Fu” (1972-75). A principal influência, no entanto, parece ser os filmes dos Trapalhões.

Fafy Siqueira é destaque do longa

Fafy Siqueira (à esquerda) é destaque do longa

Nos poucos mais de 90 minutos de projeção, Hálder recheia o filme de piadas até o talo. Infelizmente, a maioria soa repetitiva e estendida a um ponto em que perde a graça. O excesso de “graça” atrapalha o desenvolvimento dos personagens, que apresentam uma personalidade mambembe – mutável de acordo com a necessidade cênica. Soa pouco verossímil. Acaba que o forte da comédia é a coreagrafia das cenas de ação – que ainda peca pelos excessos em gags (cenas de efeito cômico). Perde-se o número de referências a dedada no cu ou chute no “boga”, com o perdão da expressão.

A principal força do filme parece ser o elenco de apoio. Se Piolho, braço-direito de Aluizio, se impõe formidavelmente a cada cena, Jesus (Haroldo Guimarães) é dono da melhor cena de humor do longa. Em poucos segundos de tela, o confiante fanho faz rir com naturalidade. Falcão como um mestre chinês de kung fu shaolin do sertão é outro acerto. Há ainda uma genial participação especial de Yuri Yamamoto, que funciona bem para quem conhece o histórico local do ator cearense. Outra estrela inesperada é João Inácio Jr., em outra gag feita especialmente para os cearenses. Já Fafy Siqueira, que atua como a mãe de Aluizio, é das melhores coisas do filme. O porte físico de Fábio Goulart é também certeiro.

Paralelamente, esse mesmo elenco de apoio é vítima de alguns dos piores momentos do filme. O ótimo Denis Lacerda mostra bem seu timing, mas é desperdiçado em uma coleção clichês sobre comportamento homossexual. Fica como se todo homem gay quisesse se relacionar com qualquer homem heterossexual. Já Karla Karenina faz até rir na primeira cena em que aparece brindando com uma lata de leite condensado. Só que a piada morre ali, quando fica claro que toda a profundidade da personagem se resume ao fato de ser gorda. Os dois mereciam mais.

Em suma, “O Shaolin do Sertão” mira no popularesco, no humor inesperado, no infantil e no regionalismo. De certa forma, até acerta. Diante de tantos tiros disparados a cada cena, alguns acabam, fatalmente, acertando o alvo. Aos poucos, porém, a fórmula da irreverência e do humor do cearês parece se esgotar. Afinal, se o filme só aposta na comédia inesperada, isso fica previsível. Um toque de drama e profundidade não emborca caldo nenhum.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 4/8.

O filme entra em cartaz em Fortaleza na quinta-feira, dia 13 de outubro.

Ficha Técnica
O Shaolin do Sertão (BRA, 2016). Comédia/Ação. De Hálder Gomes. 91 minutos. Com Edmilson Filho, Falcão, Dedé Santana e Fábio Goulart.

Recomendado para você

1 comentário

\

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 × 3 =