Cinema às 8

“Passageiros”: carisma para driblar tropeços

Miga, sua louca, foge dessa fofura que é cilada

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Jennifer Lawrence e Chris Pratt. Não foi o acaso que uniu os dois atores na produção de “Passageiros”, longa do norueguês Morten Tyldum (de “O Jogo da Imitação”/2014). Não fosse o carisma da dupla de protagonistas, a ficção científica seria um odiável jogo de amor abusivo. Com eles, é possível se construir uma forçada empatia entre um agressor e uma vítima.

Pode soar duro, mas grande parte da trama gira em torno de um dos atos mais egoístas que alguém já cogitou cometer. Após acordar de um sono criogênico 90 anos antes da data marcada, o engenheiro Jim Preston (Chris Pratt) vive o dilema entre condenar uma moça bonita a uma morte ao lado dele ou viver sua realidade solitária até final. Não preciso antecipar suas ações (mas talvez soe spoiler): ele a acorda, eles se apaixonam, ela descobre a verdade, passa a odiá-lo, eles se unem para ultrapassar uma crise, se reaproximam, blá blá blá, clichês hollywoodianos.

Aviso de fan-service de nudez masculina bem-vinda

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O filme gira completamente em torno dos dois personagens. Ele, um engenheiro frustrado em busca de uma nova vida em uma colônia da Terra a 120 anos de viagem do nosso planeta. Ela, Aurora Lane (Jennifer Lawrence) uma jornalista/escritora bem sucedida, que abre mão da convivência junto a quem ama para buscar “a história que nunca foi contada”. Ela, rica, herdeira, em uma profissão criativa. Ele, pobre, prático, trabalha com as mãos.

Lawrence e Pratt talvez sejam, hoje, os dois mais carismáticos atores de Hollywood. Daqueles que inspiram simpatia mesmo quando o personagem é meio babaca – que o dia a brilhante abertura de “Guardiões da Galáxia”, em que Peter Quill (Pratt) é perfeitamente definido como machista, sensível, amável, patético e irresistível. E era essa a proposta para Jim. “Passageiros” trabalha bem o dilema de alguém que, por uma falha mecânica, fica preso a um destino solitário. A nave/transatlântico viajaria mais 90 anos antes de mais alguém acordar do sono criogênico. Jim, então, recorre a bebida, exercícios, jogos e a “amizade” com o androide barman Arthur (Michael Sheen).

Só que, claro, homem branco heterossexual tem que se ver no direito. Não pode sofrer uma opressão (do destino) sozinho. Tem que arranjar uma mulher (loura, bonita) para sofrer consigo. Inteligentemente, o filme tenta impor os valores intelectuais dela como parte da “escolha” de Jim em acordá-la. E é difícil ter raiva do personagem. 1. É o Chris Pratt. 2. A situação deve ser de fato desesperadora. Mas condenar um inocente a um destino cruel e obrigá-la a conviver apenas com seu agressor pelo resto da vida é um nível de abuso novo. Seria genial se fosse tratado como um suspense psicológico. Mas é romance água com açúcar. Se o filme focasse em Aurora e se iniciasse após a moça “acordar”, poderia ser uma obra de tensão considerável e roteiro original.

O bartender-robô Arthur (Michael Sheen) rouba a cena

O bartender-robô Arthur (Michael Sheen) rouba a cena

Para além da questão social, o filme tem méritos inesperados. O design de produção, assinada por Guy Hendrix Dyas, é sempre impressionante e funcional, algo essencial em uma ficção científica. Pena que os conceitos científicos do roteiro de Jon Spaihts sejam tão rasos, sempre com inversões lógicas para servir bem ao dramatismo. Em uma cena em específico, a nave onde os protagonistas se encontram passa próximo a uma estrela que parece pequena demais e demasiadamente próxima mesmo para a tecnologia do futuro. E pior, a nave explica tudo nos mínimos detalhes quando os protagonistas deveriam estar em pleno sono congelado.

Cientificismos e questionamentos sociais de fora, “Passageiros” funciona. É envolvente. Consegue mostrar bem os dilemas tanto da vítima quanto do algoz (apesar de não tratar Jim como vilão). As sequências de ação, os jogos com a câmera, trazem o bom lado do fascínio por viagens interplanetárias. Mas a noção de solidão no espaço aberto, aliado ao medo da morte soam derivativas, quando comparada ao universo interior enfrentado por Sandra Bullock no infinitamente melhor “Gravidade” (2013), de Alfonso Cuarón. O que fica, então, é a presença de Pratt e Lawrence, que não se desgasta com uma obra tão mediana.

Cotação: nota 4/8.

Ficha técnica
Passageiros
(Passengers, 2016, EUA), de Morten Tyldum. Ficção Científica. 116 minutos. 14 anos. Com Chris Pratt e Jennifer Lawrence

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