Cinema às 8

“De Volta ao Jogo”: estética do pesar

Após o clique, John (Keanu Reeves) matou uns 200 capangas

Após o clique, John (Keanu Reeves) matou uns 200 capangas

Em um gênero povoado por um sem-número de “super agentes, sem sentimentos, mas com um cano fumegante”, é fácil passar direto por “De Volta ao Jogo” (2014). O filme de Chad Stahelski, parte do catálogo da Netflix, lançou recentemente uma sequência que vem ganhando elogios e que justifica uma revisita ao surpreendente longa original. Trazendo em si uma base complexa para o protagonista e cenas de ação esteticamente primorosas para mostrar que ainda é possível sair do lugar-comum dentro do saturado gênero de ação.

Na trama, Keanu Reeves é John Wick, um ex-assassino da máfia que abandonou tudo após se apaixonar. Após a morte da mulher, ele encontra consolo no amor por seu carro e por um cão, Daisy, derradeiro e surpreendente presente da falecida esposa. Um dia, o filhote do líder de sua antiga máfia vê o Mustang de Wick e tenta comprá-lo. Após a negativa, ele invade a casa do assassino, rouba o veículo e mata o cão. E assim começa a jornada de vingança de mais temível assassino que a máfia russa já viu.

O melhor Escolhido que você respeita

O melhor Escolhido que você respeita

Um vilão que chega a matar um cachorro é um clichê fácil, mas o principal mérito do longa é que, em nenhum momento, a personalidade de Wick é amansada. Ele nunca é herói. Ele não tem objetivos gloriosos. Ele é, no máximo, um anti-herói extremamente violento e com mania de distribuir tiros na cabeça dos capangas da máfia. O ponto mais fascinante da história, porém, é a figura do hotel Continental e da economia dos assassinos. Tal local é uma Suíça de assassinos, onde eles se encontram atrás de médicos, ordenam uma limpeza de mortos em cenas de crimes e são expressamente proibidos de negociar crimes. É uma espécie de máfia dentro de todas as máfias, um organismo vivo, independente, poderoso e (semi) imparcial dentro de uma estrutura cheia de traidores. É algo tão inteligente que ajuda a dosar a velocidade do filme, que de outra forma penderia para a ininterrupta ação “sem cérebro”.

Outro aspecto surpreendente de “De Volta ao Jogo” é a direção de cenas de ação, calcanhar de Aquiles de megaproduções de super-heróis da atualidade (Joss Whedon, estou olhando para você). Tal qual Nicolas Winding Refn em “Drive” (2011), o novato Chad Stahelski aposta na cena clubber, com suas músicas e luzes cegantes, para reforçar as sequências de ação. Cada vez que uma luz apaga, um disparo acende e um corpo cai. É um ritmo acelerado, no estilo George Miller, mas ritmado e bem coreografado. Ao mesmo tempo, a coordenação do elenco de apoio é tanta que a câmera passeia em meio a ação.

Muita ação, nenhuma donzela em perigo

Muita ação, nenhuma donzela em perigo

Um fato curioso é o pareamento entre “De Volta ao Jogo” e (Aviso de spoiler de outro filme) o road movie australiano “The Rover – A Caçada”, de David Michôd. A diferença cai no encadeamento das informações. Stahelski abre de cara a motivação do protagonista, enquanto Michôd aproveita um momento de vulnerabilidade do público para revelar a acontecimento que, de fato, desencadeou uma jornada de violência e vingança. É curioso o fato de os dois filmes terem sido lançados em 2014 e terem abordagens consideravelmente diferentes. Um é um road movie pós-apocalíptico, enquanto o outro é um filme de anti-herói de ação. A certeza é que ambos têm qualidade imensas, ainda que diferentes.

“De Volta ao Jogo”, a história de John Wick, parece mais uma. Temos Jack Reacher (e milhões de filmes de Tom Cruise), Brian Mills (de “Busca Implacável”, além de milhares de filmes de Liam Neeson) e até outros filmes com Keanu Reeves. Mas “De Volta ao Jogo” é um dos casos raros em que a complexidade do protagonista, a verve do roteiro e o arrebatamento estético dão um soco conjunto nos nossos estômagos.

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica
De Volta ao Jogo
(John Wick, 2014, EUA), de Chad Stahelski. Ação. 18 anos. 101 minutos. Com Keanu Reeves, Alfie Allen e Willem DeFoe.

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