Cinema às 8

“Manchester à Beira Mar”: vazio palpável

Lee Chandler (Casey Affleck) e Patrick (Lucas Hedge)

Lee Chandler (Casey Affleck) vive em Boston, alguns quilômetros longe da família. Traumatizado, ele se constrói como uma figura estoica, antipática, que trabalha como zelador de quatro prédios. Até que ele recebe uma ligação e precisa se reencontrar com o passado. Em linhas gerais, “Manchester à Beira Mar”, de Kenneth Lonergan, tem todos os ingredientes para uma trama sobre trauma e redenção. Mas investe em um caminho mais original e sofrido: o da reconciliação.

Na ligação, Lee descobre que o irmão, Joe (Kyle Chandler) sofreu um novo ataque do coração. Ao chegar no hospital, ele descobre que o parente faleceu e ele precisa cuidar de todos os detalhes burocráticos, do velório e ainda contar a notícia para Patrick (Lucas Hedges), seu sobrinho. Desde o primeiro contato, nota-se um distanciamento entre Lee e tudo que ocorre na pequena cidade de Manchester. Ele é famoso por um trauma e cenas de flashback reforçam um passado feliz, quando o zelador era casado e tinha três filhos. Subentende-se desde o primeiro ato que uma tragédia o afastou de tudo e de todos.

Randi (Michelle Williams) e Lee

Intimista e transtornado, Casey Affleck demonstra todo o vazio existente em seu personagem. Ele sofre e transborda em atos aleatórios de violência, puxando brigas que ele não tem como vencer. A primeira sequência do filme mostrava uma leveza e proximidade entre Lee e Patrick na infância, mas o tio, hoje, se recusa ao afeto. É como se ele fosse indigno. Como se o fardo deixado pelo trauma do passado fosse pesado demais para que Lee pudesse virar um pai substituto para Patrick.

Há, em tudo, um caminho de redenção para Lee. Aviso de spoiler: ele se culpa pela perda dos três filhos e tem em Patrick uma nova chance. É a oportunidade que Joe deixou para o irmão em sofrimento. Fim do spoiler. Só que o peso é imensurável. E é no elenco de apoio que a dimensão disso é revelada. O diálogo de Lee com sua ex-esposa, Randi (Michelle Williams) é cortante, o ápice formado por um vazio que se faz palpável pela dor demonstrada pelos dois atores — em especial na comparação entre os dois, ela externalizando, ele internalizando. A comparação de Lee, em reabilitação de um trauma, com Elise (Gretchen Mol), mãe de Patrick e alcoólatra em recuperação, é rica visual e tematicamente. Eles se odeiam não só pelo histórico sofrido, mas porque um reflete o limite do outro.

Joe Chandler (Kyle Chandler) e Lee

“Manchester à Beira Mar” podia flertar com o melodrama, cair no lugar-comum da redenção ou impor notas melosas em uma trama que não precisa de reforços. O todo, porém, é sempre sóbrio. A trilha, quase sempre orquestrada, e a fotografia, pendendo para um azul marinho, pedem distanciamento. Há, em tudo aquilo, um pedido de reconciliação de um homem com o passado, com uma cidade e, acima disso, consigo mesmo.

Cotação: nota 7/8

Ficha técnica
Manchester à Beira Mar
(Manchester by the Sea, EUA, 2016), de Kenneth Lonergan. Drama. 137 minutos.

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