Cinema às 8

“Punho de Ferro” é golpe baixo nos espectadores

Aqui temos Danny Rand mostrando o estilo chinês de combate com espadas para alunos de Kendô, uma arte marcial japonesa.

O texto contém spoilers da temporada, incluindo de seu episódio final.

Com planos ambiciosos de formar uma das principais equipes da Marvel no mundo das séries, a Netflix surpreendeu a todos quando, em 2015, lançou a primeira temporada de “Demolidor”. Com um tom sério pouco visto em produções semelhantes, como “Arrow” e “Flash”, a série foi sucesso instantâneo, recebendo uma segunda temporada no ano seguinte e antecipando o lançamento das outras histórias dos futuros companheiros de Matt Murdock, os heróis Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. Juntos, eles compõem a equipe dos “Defensores”, cuja série própria está marcada para estrear no segundos semestre de 2017.  

Enquanto “Jessica Jones” trouxe uma protagonista vítima de abuso e abriu diálogo sobre esse assunto, “Luke Cage”, ainda que com ritmo lento e arrastado, conseguiu abordar temas como racismo e violência policial com negros nos Estados Unidos, “Punho de Ferro” chega sem dialogar com tema algum, pois sua história já é batida, pois um jovem rico que vira herói é padrão desde o início do gênero. Os primeiros momentos que anteciparam “Punho de Ferro”, no entanto, não foram dos mais tranquilos. Após meses de especulação sobre qual ator ficaria com o manto do herói, muitos acreditavam que a série seria cancelada, dada as inúmeras desculpas divulgadas sobre a demora pela escolha do ator. A dúvida chegou ao fim com o anúncio de Finn Jones, o Loras Tyrell de “Game of Thrones”. 

 

Aqui temos Rand em uma das 4 ou 5 vezes em que usa seu poder durante a série.

Na trama da Netflix, Danny Rand sofre um acidente de avião junto de seus pais aos 10 anos. Único sobrevivente do desastre, o jovem é levado por monges até K’un-Lun, uma cidade mística situada em outra dimensão. Por 15 anos, Rand treina para se tornar um grande mestre de Kung Fu, o Punho de Ferro, e então retornar à Terra para combater o Tentáculo, organização criminosa que já mostrou suas intenções em Demolidor.

Herdeiro de uma fortuna bilionária, Rand irá, então, lutar contra o mundo corporativo para reaver o que era seu de direito. Se não parece uma trama coerente com o mundo das artes marciais, é porque não é mesmo. Muito mais focada nos irmãos Ward e Joy Meachum (Tom Pelphrey e Jessica Stroup, respectivamente), amigos de infância de Danny Rand, a primeira metade da temporada parece esquecer quem é seu protagonista, que quase nunca tem a oportunidade de se desenvolver enquanto personagem, ou mostrar seu lado artista marcial.

Por mais que o ritmo seja melhor do que visto em “Luke Cage”, a falta de foco e coerência da trama logo prejudicam “Punho de Ferro”. Colocando Rand quase como um coadjuvante, é perceptível que o showrunner Scott Buck não soube como aproveitar os 13 episódios que tinha disponível. Não há foco no desenvolvimento da história. Personagens relevantes só são apresentados nos últimos momentos da temporada, enquanto os primeiros a aparecer perdem a relevância a cada cena.

Já nessa cena temos Danny em mais uma luta sem graça

O principal exemplo é Harold Meachum (David Wenham), pai dos “amigos” de Rand. Por 12 episódios, a relevância do personagem é nula, pois serve apenas de muleta para uma fraca decadência do filho Ward e de nada releva para o desenvolvimento de Rand. Somente no último capítulo é que vemos o real propósito do personagem, em uma reviravolta cansada e previsível desde o primeiro episódio.

Chegamos, então, a Finn Jones. Considerando que o roteiro dado ao ator não colabora em momento algum para a construção de um personagem carismático, sua falta de talento se torna o pior aspecto da série. O jovem é incapaz de passar emoções de forma convincente, falhando em até mesmo ser engraçado nos momentos em que sua fala pede, pois nem mesmo uma entonação de comédia consegue realizar.

Quanto às cenas de luta, até possuem coreografias relativamente críveis, mas extremamente medíocres. Não há criatividade nelas. Em momento algum o espectador é convencido de que Danny Rand é de fato extraordinário, com excessão de quando usa seu punho mágico. Em 13 horas, a única cena de luta que vale a pena ser lembrada é a de Punho de Ferro contra um lutador mestre no estilo do bêbado, um dos estilos mais marcantes do Kung Fu. E o responsável pelo sucesso da cena não é, claro, Finn Jones, e sim Lewis Tan, artista marcial de fato competente. Uma curiosidade: Tan fez testes para interpretar Danny Rand. Infelizmente, os fãs ficarão apenas especulando sobre como poderia ter sido a série se tivesse um ator como Lewis no papel de protagonista.

Coleen Wing, uma das poucas personagens de fato interessantes de toda a série

Falhando também em antecipar o lançamento de “Defensores”, “Punho de Ferro” é uma série medíocre como seu protagonista. É impossível criar empatia por Rand, sendo sempre ofuscado por seus parceiros de cena, como a ótima Jessica Henwick, que interpreta seu interesse amoroso, Colleen Wing. Por mais que o gancho final para uma eventual próxima temporada seja interessante, não há como criar boas expectativas após um primeiro ano tão fraco. Resta aguardar que os quatro heróis juntos consigam reverter o gosto ruim deixado por “Punho de Ferro” e haja alguma redenção para o personagem.

Todos os episódios estão disponíveis na Netflix

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