Cinema às 8

“Paterson”: aquele riso melancólico

Jim Jarmusch talvez seja o único diretor do mundo que, após escalar o ator Adam Driver para o papel principal de um filme, faz com que nos perguntemos se a ironia no fato de o protagonista ser um motorista (“driver” é motorista em inglês) foi pensada desde o primeiro instante. Na maioria dos casos, existe um limiar bem visível entre a melancolia e o humor. No caso do cinema de Jarmusch, e em “Paterson” em particular, essa fronteira é tão borrada quanto a moral de um político.

Não fosse a atuação de Adam Driver, talvez até acreditássemos que uma torta de cheddar com couve-de-bruxelas é algo comestível

“Paterson” é, ao mesmo tempo, o nome do personagem de Adam Driver, o título da linha de ônibus que o protagonista dirige e o nome da cidade onde o filme se passa. E, de certa forma, é uma biografia de cada uma dessas partes. Com um talento moldado em obras-primas como a dramédia “Estranhos no Paraíso” (1984) e o “filme existencialista de vampiros” “Amantes Eternos” (2013), Jarmusch imprime o seu senso de ironia próprio em personagens e situações perfeitamente banais. No centro da trama, Paterson, um motorista de ônibus da linha Paterson, na cidade de Paterson, que nos intervalos escreve poesias imaginistas.

A história se estende por uma semana da vida de Paterson que derrama arroubos apaixonados pela esposa Laura (Golshifteh Farahani) sob versos metafloridos sobre caixas de fósforos. Mais do que a ironia temática, Jarmusch traveste a própria fotografia em centro de conflito, jogando a clichê imagem de uma cachoeira para os momentos de introspecção poética do protagonista. E, por mais injusto que a ação soe, a ação autodestrutiva traz uma nova camada para a prosa do filme. Naturalmente, assumiríamos que a arte de um personagem central de um filme é boa. Somando-se a montagem ao conteúdo… incomum… da poesia e Jarmusch instala uma dúvida válida sobre se Paterson é melhor poeta ou motorista de ônibus.

Adam Driver é Paterson, o motorista poeta

É esse o ponto diferencial entre “Paterson” e “Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum” (2013), de Ethan e Joel Coen, espécie de filme-irmão da nova obra de Jarmusch. No longa dos Coen, o talento incontestável de Llewyn Davis (Oscar Isaac) é protagonista de uma espécie de frustração. A banalidade da vida, que esconde a qualidade artística de um e de outro são pontos porosos, bem como o senso de humor dos diretores, mas, os irmãos Coen se focam na arte, enquanto Jarmusch opta, conscientemente, por se esvair no banal.

Paralelamente, “Paterson” é sobre uma cidade relativamente pequena em Nova Jersey, nos EUA. Com pouco menos de 150 mil habitantes, o município traz em si um sentimento bruto de necessidade de reconhecimento. No bar que Paterson visita todas as noites, o bartender Doc (Barry Shabaka Henley) pendura menções à cidade nas paredes. Nos ônibus, a prisão injusta do boxeador canadense Rubin “Hurricane” Carter em 1966, polêmica ocorrida em Paterson e que rendeu o filme “Hurricane – O Furacão” (1999). E, ainda assim, Paterson, o poeta, guarda seu caderninho secreto com poemas sobre a esposa, caixas de fósforo e banalidades bonitas. Se olharmos na cidade e no homem como gêmeos, o senso de ironia se abre com um riso melancólico bem ao estilo Jarmusch.

“Paterson” não é, necessariamente, um filme a ser compreendido. É um filme que solta o riso e que, ao mesmo tempo, tira o público de um lugar de mero espectador. A riqueza dos personagens, desde o bom mocismo constrangido de Paterson – divinamente atuado pro Driver -, até as paixões desenfreadas de Laura. Jarmusch incita a querermos adentrar mais na rotina da cidade: Romeu/Everett (William Jackson Harper) e Julieta/Marie (Chasten Harmon); o buldogue inglês mais sacana da face da Terra; a maior população de gêmeos por metro quadrado do cinema mundial. É tudo tão fascinante quanto banal.

Cotação: nota 7/8

Ficha técnica
Paterson (EUA, 2016), de Jim Jarmusch. Drama/Comédia.  118 minutos.

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