Cinema às 8

“Vermelho Russo” e os dilemas de representação

Marta (Martha Nowill) e Manu (Maria Manoella) na praça Vermelha, em Moscou

De um lado, as amigas Marta (Martha Nowill) e Manu (Maria Manoella). Do outro, as personagens Helena e Sofia, da peça “Tio Vânia”, drama clássico de Anton Tchékov e famoso na direção de Constantin Stanislavski. Entre os dois duetos, um mundo que estreita a cada ensaio das atrizes. “Vermelho Russo”, segundo longa-metragem do diretor, roteirista e ator Charly Braun, aposta na autoficção para borrar os limites entre o real e o representativo. O resultado é um misto de drama e comédia equilibrada com um toque de questionamento sobre as artes.

Ao lado de um colega diretor argentino, uma atriz portuguesa e outra latina, as brasileiras Martha e Manoella fazem uma oficina do sistema Stanislavski de atuação em plena Moscou – ainda que balbuciem quase nada em russo. Misto de documentário com obra ficcional, “Vermelho Russo” parte do cerne conceitual da arte da representação, segundo os conceitos do famoso diretor russo. Para ele, o realismo psicológico era chave para uma atuação convincente, em vista de que os atores deveriam trazer vivências de emoções autênticas para a cena. Ou seja, mais do que interpretar, eles deviam resgatar as próprias histórias pessoais para imbuir o material de realismo.

Aos poucos, a distância entre as duas aumenta

“Vermelho Russo” é, em suma, uma extrapolação desse jogo entre personagens e atores. Ao mesmo tempo em que o limite entre documentário e ficção é borrado, a relação entre as duas protagonistas acaba afetada pelas vivências de suas personagens. Mergulhadas no processo de montagem da “Tio Vânia”, Marta e Manu ficam cada vez mais indissociáveis das personagens clássicas de Tchékov. Já a noção de autoficção também é borrada numa noção de filme ficcional baseado em um relato real de viagem de uma das atrizes (Martha). É um filme de processo, de mergulho, mas também há um distanciamento atingido posteriormente.

Apesar da conceituação imbrincada, o ritmo de “Vermelho Russo” é dos mais agradáveis. De cara, o senso de humor calcado na noção de constrangimento e falta de comunicação, remete ao “Encontros e Desencontros” (2003), de Sofia Coppola, no qual dois norte-americanos se perdem e se encontram em pleno Japão. A referência, aliás, é até assumida no roteiro, quando uma das personagens se engana e chama o país de Japão. Há ainda algo que remete ao semidocumental “O Olmo e a Gaivota”, de Petra Costa e Lea Glob, e o documentário “Moscou”, de Eduardo Coutinho – não coincidentemente, ambas partem de textos de Tchékov, “A Gaivota” e “Três Irmãs”, respectivamente.

Manu e Marta no palco, ensaiando “Tio Vânia”

A química entre Martha Nowill e Maria Manoella é também essencial para essa leveza. É, também, um filme sobre culturas, que quebra uma visão sisuda e fria dos russos, mas reitera o despojamento típico do brasileiro. Esse humor acaba essencial para que a dramaticidade da parte final do longa não engula o processo e a conceituação. Há um conflito de ego entre as atrizes, que surge da vaidade pessoal, da vaidade profissional e do próprio mergulho laboral, mas que o ritmo da obra não se quebra pelo tato cômico de Charly Braun.

A noção de autoficção é ainda ressaltada no personagem Tatu (Esteban Feune de Colombi), diretor argentino que participa do mesmo processo das meninas. Claramente um avatar do diretor do filme, ele calca a parte do documentário como alguém que registra a mudanças que as protagonistas enfrentam. Eles, aliás, todos dividem os dias em uma espécie de mistura de hotel com retiro de artistas do cinema russo. É como se o distante e frio país se dobrasse em ensinamentos a gerações de todo o mundo, o que é mostrado de forma carinhosa, terna, mesmo que sem uma língua compartilhada entre os personagens. É uma opção de design de produção que traz uma riqueza e adiciona ainda mais na já citada leveza de “Vermelho Russo”. Nos toques de humor, inteligência e dramaticidade, Charly Braun oferece uma obra que propõe muita teoria, mas não se perde em conceituação barata. A dedicação principal é entreter.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica
Vermelho Russo
(BRA/POR/RUS, 2016), de Charly Braun. Comédia/Drama. 90 minutos.

Recomendado para você