Discografia

Ben Harper íntimo e pessoal

Confesso que conheço bem pouco sobre o trabalho de Ben Harper, mas esse pouco sempre foi muito bem recebido. Meu primeiro contato com o americano foi através do disco Live at Apollo, feito em parceria com The Blind Boys Of Alabama. Se o grupo gospel rouba a cena com sua presença, Ben se mostra respeitoso e soube muito bem aproveitar seu espaço. E foi aí que ele ganhou minha simpatia. Eis que anos depois ele arrebata as rádios brasileiras com um grande dueto ao lado de Vanessa da Mata em Good Luck/ Boa Sorte. Pronto, era o que faltava. Este ano entro em contato, pela primeira vez, com um disco inteiro do rapaz. O que eu já conhecia sobre suas influências de soul, rock psicodélico e clássico, gospel se confirmou na primeira audição de Give till it’s gone (Virgin/ EMI). Tocado e composto ao lado dos Relentless7 (Jason Mozersky – Guitarra; Jesse Ingalls – Baixo; Jordan Richardson – Bateria) este 14° trabalho do mentor intelectual do Jack Johnson é um retrato do que se passou em sua vida nos últimos tempos. Gestado ainda sob a sombra da sua separação da atriz Laura Dern (Jurassic Park), o disco traz uma série de recados fortes e doídos se contrapondo a rocks quadrados, que remetem a uma aura Beatle. De fato, essa aura existe e está personificada em Ringo Starr, que toca bateria na funkeada e lisérgica Spilling faith, que parece ter mais que os seus três minutos e meio por conta do loooooongo improviso de encerramento. Para aproveitar ainda mais a presença do narigudo mais bem-sucedido da música pop, Spilling faith emenda numa viagem instrumental batizada de Get there from here. Aí são mais cinco minutos de riffs de guitarra, teclados martelados e uma pulsação constante de bateria. O fantasma beatle também assombra na panfletária Rock’n roll is free, feita sob medida para abrir shows e levantar o público, tal qual uma Jet ou Only mama knows, de Paul McCartney. Essa “coisa” do rock de arena talvez venha do divino Neil Young, de quem Harper teve a honra de abrir um show recentemente. Mas, como suas influências são vastas, acontece de ele passar de uma loucura instrumental, para uma batidinha insossa em Pray that our love sees the dawn que acaba escondendo um apelo de dor pelo amor que se foi (“Silêncio é o martelo da traição sobre o caixão do amor para o último prego”). Se é de ouvir música para a ex, melhor ficar com as duas primeiras faixas de Give till it’s gone. O recado já vem expresso no título: Don’t give up me now (Não desista de mim agora) e I will not be broken (Eu não vou ser destruído). Se segura, Laura Dern. Como não poderia faltar, Feel love é uma balada radiofônica ao violão falando sobre amor e escuridão. Bonita, mas sugiro começar por Clearly severely, que junta, peso, urgência e sentimento numa bela performance da banda. Aliás, a melhor entre as 11 faixas do disco.

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