Discografia

Nação Recife

De passagem por Fortaleza na semana passada, o cantor e compositor Otto conversou por email com o blog Discografia. O motivo da visita do recifense foi a comemoração dos 10 anos da Farra na Casa Alheia, que ganhou de presente um show dele com a Nação Zumbi, na barraca Biruta. Pra quem está acostumado às danças estranhas e ao jeito elétrico de Otto, pode ter estranhado o músico mais contido no palco. Por outro lado, como é de costume, a Nação deu um show de classe, peso e, principalmente, guitarra. Sem jogar muitos confetes, a Nação Zumbi é a melhor banda brasileira da atualidade. Juntos com Otto, eles mostraram o quanto o Manguebeat é presente e atual na música brasileira. Não por acaso, este foi o principal tema da entrevista a seguir. Confiram:

P.S.: Também agendamos uma entrevista com Dengue, baixista da Nação, para a quarta-feira. Infelizmente, o músico pedeu o celular e ficamos sem contatos. É a vida. Pelo menos ele já achou o aparelho…

DISCOGRAFIA – Você fez parte das duas principais bandas do mangue beat, Nação Zumbi e Mundo Livre SA. Como era esse tempo do início do movimento? Vocês imaginavam que aqueles encontros iam se tornar algo tão sólido dentro da nossa música?

Otto – Sim, por que tinha uma riqueza musical muito grande e realmente virou um movimento. Então, sempre soube que aconteceria alguma coisa com isso.

DISCOGRAFIA – O que você lembra das primeiras apresentações de vocês? Como os shows eram montados? Foi fácil encontrar espaço para mostrar o novo som?

Otto – As primeiras apresentações foram emocionantes, inesquecíveis. Todos os amigos juntos, fazendo um som que a gente acreditava. Em alguns lugares do Brasil a gente conseguia estrutura e em outras não, como acontece até hoje. Me lembro a primeira vez que as duas bandas foram para São Paulo. Fomos de ônibus, demoramos 3 dias para chegar e nos apresentamos no Aeroanta. Valeu a pena!

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DISCOGRAFIA – Antes de fazer parte do mangue beat, você fez outros trabalhos como tocar no metrô de Paris e acompanhar a Jovelina Pérola Negra. Queria que você relembrasse essa época. Creio que tenha passado muito aperto.

Otto – Cara acho que muito disso virou lenda. Estes tempos de Jovelina era um tempo que não me lembro mesmo. Um dia surgiu na minha vida. Lembro de uma época escutar uns pagodes em campo grande. Metrô, sim!!!! E em Paris. Eu era convidado de uns irmãos peruanos que me chamavam sempre pra tocar. Tinha um amigo brasileiro, mas toquei e conheci grandes amigos e músicos no Le Coral, um bar que tinha música brasileira e blues no segundo andar. Época boa, mas não volta mais.

DISCOGRAFIA – Não dá pra falar em Mangue beat sem lembrar o nome do Chico Science. Como vocês se conheceram? Como ele era fora dos palcos?

Otto – Conheci em o Chico em Recife numa época maravilhosa, onde não tínhamos a chatices de hoje. Era inocente, diferente. Recife borbulhava. Chico era um mentor criador, rápido, vivíssimo, elegante, sacador do futuro, bom gosto. Style,muito style. Tinha muita sapiência e humildade… Um cara especial… Engraçado. Um super artista.

DISCOGRAFIA – O mangue beat foi o último movimento musical brasileiro e, de tão forte, ainda hoje rende frutos. O que ele teve de especial?

Otto – Recife era uma cidade que tinha o movimento musical intenso. Existiam muitas bandas e sem espaço para se apresentar na cidade. Com isso as maiores bandas resolveram se juntar e criaram o movimento. O Manguebeat influenciou muitas bandas de Pernambuco e do Brasil, sendo o principal motor para Recife voltar a ser um centro musical, e permanecer com esse título até hoje.

DISCOGRAFIA – Seu último trabalho teve um peso e uma sonoridade diferente, se comparado aos seus outros trabalhos e muitas das músicas remetem à sua separação. A intenção era essa mesma, a do desabafo?

Otto – Foram cinco anos ao todo para fazer esse álbum, um processo bem sofrido. Meu processo de composição busca compreender o ser humano. E a obra de Kafka se encaixa perfeitamente nessa busca. Mas não quis trazer para o público um conceito mastigado. A intenção era desdobrar essa temática e estabelecer um diálogo entre as idéias. O importante foi que eu rasguei meu peito, abri meus sentimentos para quem quiser ouvir.

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DISCOGRAFIA – Uma música, inclusive, fez parte da trilha de uma novela global, mas com a letra modificada. Imagino que muitos fãs tenham estranhado a retirada do “fudia”. O que você ouviu dos fãs e como você vê isso.

Otto – Pra mim não tem diferença, fodia, fugia. Isso entrou na letra por uma questão mais de humor, nunca foi algo para chocar. Eu falo palavrão o dia todo. Minha filha ouve direto. Se ela falar um palavrão, nem posso dar um tapa na boca dela. rs

DISCOGRAFIA – Qual o futuro da música brasileira?

Otto – Espero que seja bom, de ‘verde e amarelo’!

DISCOGRAFIA – Já vão dois anos desde que você lançou seu último trabalho. Quando sai o novo disco? Como ele será?

Otto – O nome do álbum será The Moon 1111 será lançado 11 de novembro de 2011. Vai ser uma coisa afro-progressiva, bem espacial, influenciada por Pink Floyd e Fela Kuti. Imagine uma tribo africana na lua, essa será a cara dele. Tem uma certa inspiração de (François) Truffaut (cineasta francês) e de coisas cabalísticas.

DISCOGRAFIA – O que você tem ouvido ultimamente?

Otto – Ultimamente ando escutando Nina Simone, jazz, Fela Kuti. Estou concentrando músicas para meu próximo disco. E acho fundamental os clássicos, os fora de série.

DISCOGRAFIA – Você sempre está fazendo show em Fortaleza. Fora das apresentações, o que gosta de fazer por aqui?

Otto – Fortaleza é uma cidade rica, cheia de história, pessoas bonitas e praias belíssimas. É sempre bom voltar, e conhecer um pouco mais desta terra cheia de coisas boas.

DISCOGRAFIA – É possível lembrar qual foi o seu melhor show em Fortaleza?

Otto – Cada vez que volto para Fortaleza parece que é meu primeiro show, cada show é diferente do outro. Todos foram muito bons, foram únicos!