
Eis que agora me chega à mãos o CD Praia Lírica, que deu origem ao show. Os tons baixos estão todos ali novamente, mas agora ganham outro sentido. Encontrando uma boa região para as interpretações, Mona Gadelha parece sussurrar pérolas pelas caixas de som. A delicada Flor da paisagem (Robertinho do Recife/ Fausto Nilo) fica ainda mais doce com a cantora travando um dueto solitário. Além de Fausto, o disco traz outros compositores indispensáveis para quem quer retratar nomes da música cearense dos anos 70, como Belchior e Fagner. Do primeiro, ela resgata a esquecida Sensual, lançada por Ney Matogrosso no disco Feitiço (1978). Um sacada ótima pra fugir de um repertório mais revisitado do compositor. Também fugindo da obviedade, ela traz La condessa, tirada do disco Maraponga (1978), de Ricardo Bezerra, e Lupiscínica, lançada por Ednardo em 1979 no mesmo disco de onde Mona tirou a ótima A manga rosa. Mesmo em momentos mais óbvios, como Paralelas, parece haver uma justificativa para aquela canção estar ali. Retrato marrom, sucesso de Rodger Rogério e Fausto Nilo na voz escancarada de Ney Matogrosso é um dos poucos momentos em que a sobriedade do tributo parece passar do tom. Única intervenção fora do piano de Fernando e da voz de Mona é um sampler econômico e desnecessário no clássico maior da música cearense, Terral. Ao fim de Longarinas, última faixa do disco, a sensação que fica é que o palco do TJA não era o ideal para um trabalho que exigia proximidade com o público. Ainda assim, é certo que todo o trabalho é preenchido com muita emoção e sinceridade. Por isso, sugiro esperar o show ganhar mais corpo e estrada.