Discografia

Marina De La Riva enche UFC de calor e malemolência

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O primeiro dia da Festival de Cultura da Universidade Federal do Ceará (no caso, ontem) deixou claro o que vem por aí. Casa cheia, a Concha Acústica teve a honra de receber as presenças de Marcos Lessa, novo nome da música cearense, Tarankón, espécie de enciclopédia viva da música latina, e Marina De La Riva, cubana/carioca/mineira fiel ao estilo que defende. Infelizmente, forças misteriosas me impediram de assistir os dois primeiros shows. Mas, que bom, cheguei a tempo de ver um espetáculo incomum, embora louvável, da cultura brasileira. O que dizer de uma cantora brasileira que se lança com um disco caro, sofisticadíssimo, recheado de belas canções latinas e que frequenta um circuito seleto de casas de shows? Claro, um fracasso total de público. É aí que o jogo vira. Cheia de charme, presença e beleza, ela pisou no palco montado nos belos jardins da UFC para ganhar do público o título de cidadã fortalezense. Se morno, parado ou cansativo, ninguém percebeu. O que se viu mesmo foi um público encantado com a voz e o gingado da morena de olhar sedutor cantando em espanhol fluente (herança do pai cubano) o filét do repertório latino. Mesmo nos momentos em que pousou na MPB, vamos combinar, Ta-Hi, canção que projetou Carmen Miranda em 1930, não é lá um sucesso populista. Que importa, foi uma catarse. Todo mundo cantando junto, assim como em Bloco do prazer, do nosso conterrâneo Fausto Nilo. Sonho meu, da divina Ivone Lara, foi outro momento de maior aproximação com o público cearense, que vem gostando cada vez mais de um bom samba. O fato é que, quando a música é boa e o artista sabe trocar intimidades com o público, os muros da sofisticação caem e tudo vira uma grande festa. Agora imagine ela abrir espaço pra uma música que ela mesma não conhecia a letra, só pra deixar o público cantar. Pois foi o caso de Xote das meninasMarina de La Riva foi uma maestrina que, sem perder o nariz empinado do ar de diva, soube se ajoelhar (literalmente) diante do público que passou a amá-la mais ainda desde ontem.

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A carioca Marina De La Riva estreou em disco em 2007 com elogiado disco homônimo. Misturando canções brasileiras e cubanas, ela transitou entre o bolero, o jazz e a bossa nova dando frescor e jovialidade a canções como Sonho meu e Drume negrito. Por telefone, ela conversou com o DISCOGRAFIA sobre cantar pela primeira vez em Fortaleza num evento que celebra a latinidad.

DISCOGRAFIA – O que está preparando para essa estreia em Fortaleza?

Marina De La Riva – Estou contente por que já estou mordida pelo disco novo. Já pretendo apresentar três novas em primeira mão. A verdade é que eu já to louca pra mostrar essas músicas. Ainda tenho um projeto aí em Fortaleza, provavelmente para este ano, que ainda não posso revelar

DISCOGRAFIA – Você é uma carioca filha de cubano com mineira. Qual é o resultado dessa mistura? Como isso fica na música?

Marina – Brinco que carioca por acidente. Mas, se isso me dá algum suingue, tudo bem.  Na música, o jeito mais fácil é ser transparente e essa sou eu. Meu pai falava “muchacha” e minha mãe falava “uai”. Quando eu afirmo essa bandeira latino americana e morando numa cidade como São Paulo, eu percebo que morando no campo eu pude ter muita influência da família. Me sinto moldada pela família. Na minha casa, a cultura cubana era tão real quando a brasileira. Quando eu digo isso, não tem invenção nem negação.

DISCOGRAFIA – A influência da música estadunidense no Brasil é bem maior do que a que vem de países fronteiriços. O que você acha disso?

Marina – Falta informação. Todo mundo fala que o Brasil trem uma música maravilhosa, mas a gente não perde quando passa a conhecer a música que se faz na América Latina. Agora, quando a gente se afasta da América, perde um pouco da força do grupo. Mas é por algum motivo muito idôneo. Tenho amigos que falam melhor o inglês que o espanhol. Meu filho não fala espanhol. Isso me corta ao coração. Só conhecendo a língua é que se entende a cultura de um povo.

DISCOGRAFIA – Você vai cantar num evento universitário na mesma noite que o Tarancón, uma referência na música latina. Quais foram suas referências como cantora?

Marina – São muito amplas. Na verdade eu tenho muitos musicistas como referência. Chet Baker, que nem era latino nem mulher, mas tem uma conversa que eu gosta. Tem a Maria de Los Angeles Santana e o Ernesto Lecuona. Tem o percussionista Chano Pozo. São pessoas que ouvi a vida inteira e fundamentam o meu trabalho. No Brasil tem Bethania, Maysa, Tom Jobim, João Gilberto. Engraçado que meu pai ouvia bossa em cuba e bolero no Brasil. Tudo vai alimentando nossa estética.

DISCOGRAFIA – Você vem de uma família muito musical. O que vocês gostavam de cantar em casa?

Marina – Meu pai sempre cantou ópera. Ele era mais erudito, mas sempre apresentou a cultura do país dele. Minha mãe gostava de música, mas ele tinha a paixão. A música era um elemento na nossa vida. Em cuba, a música é uma paixão assumida, não importa a classe social. Quem não sabe dançar é um “limón”.

DISCOGRAFIA – Seu primeiro disco misturava músicas latinas, incluindo as brasileiras. Qual era sua expectativa com esse trabalho?

Marina – No meu disco tem um texto que diz quem eu sou. Lá tem uma frase que diz “com isso eu vou tirar o que eu tenho no meu peito”. Era isso que eu precisava. Claro que tenho amor, que quero que o trabalho tenha asas. Mas meu temperamento era de criação, não tinha expectativa.

DISCOGRAFIA – Agora você está preparando seu segundo trabalho de estúdio. O que pode adiantar?

Marina – Também é uma fotografia da minha verdade. De 2007 a 2011, eu conheci muita gente. Ele traz um pouco das pessoas que tocam comigo, das viagens que fiz. O disco está 98% pronto, mas ainda está sem nome e sem previsão de lançamento. Tem uma participação que quero muito, mas que não estou conseguindo agenda. Talvez isso retarde o lançamento.

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