Por Camila Holanda (@camilasholanda)

Depois de seis anos sem novidades, os fãs de Maria da Graça Costa Penna Burgos podem estranhar o disco quando ouvirem pela primeira vez. Diferente de Baby, Vapor barato e de tantas outras músicas que ficaram marcadas pela voz de Gal. A ousadia do novo trabalho assemelha-se muito ao sentimento de Vaca profana, com a letra forte, enigmática e arranjos agressivos, porém, afáveis.
Gal e Caetano sempre flertaram com o contemporâneo, exploraram o novo. A parceria começou em 1967, na gravação do disco Domingo, e tem se mantido, atravessando os mais de 44 anos de história e as quase 100 composições gravadas em parceria.
Autotune autoerótico é um resumo poético do trabalho feito no disco. Na letra, Caetano comenta as novas ferramentas tecnológicas utilizadas para manipular sons e vozes. Nela, Gal expressa sua voz da forma que estamos acostumados a ouvir: feroz e macia.
Tudo dói é a expressão maior da melancolia que está presente em outras músicas do disco. “Viver é um desastre que sucede a alguns/Nada temos sobre os não nenhuns/Que nunca viriam”. Madre deus e Mansidão são as únicas composições não inéditas, que antecedem a criação do projeto. A primeira foi composta para o balé bale Onqotô, do grupo Corpo, interpretada por Zé Miguel Wisnik. Já a segunda, Jane Duboc gravou.
O disco culmina em Segunda, clara alusão a Domingo, primeiro disco de Gal e Caetano. É a única faixa do CD que dispensa a pegada eletrônica, sendo a mais analógica. Moreno Veloso é quem fez todos os arranjos: prato, violão e violoncelo. A força do disco e a estranheza que causa à primeira ouvida são marcas fortes da dupla. Quem espera letras românticas e violas irá decepcionar-se. A melhor forma de ouvir é abrir-se para o desconhecido e desbravar versos e melodias.