Discografia

O léxico gaiato de Moreira da Silva

Já cantada em verso e prosa por grandes nomes da música brasileira, a clássica malandragem carioca foi generosa em produzir casos e personagens tragicômicos. O apostador inveterado que perdeu o pouco que tinha nas cartas, o marido apaixonado que não deixa de fazer suas conquistas fora de casa, o brigão que não larga a navalha e tantos outros. De tão rica que era esta fauna marginal, já estava na hora de aparecer um malandro diferente para botar ordem no coreto.

Foi então que em pleno dia da mentira, 1º de abril de 1902, Antônio Moreira da Silva nasceu na Rua Carlos Vasconcelos, no bairro carioca da Tijuca. Órfão de pai aos dois anos de idade, ele precisou trabalhar cedo para ajudar nas contas de casa. Escola só dos nove aos 11 anos, e logo passou a dar duro em várias profissões – de funcionário público a apontador do bicho. Mas foi nas rodas de samba e boemia que ele descobriu sua verdadeira vocação.

Observando e absorvendo tudo o que se passava nas redondezas, Moreira levou para os discos um pedaço do que via pelas ruas. Inclusive o jeito de falar cheio de gírias do povo. Para o sambista, comida é “gordurame”, navalha é “solinje”, briga é “sururu” e “chave de ring” um golpe fatal desferido por um chinês faixa-preta temeroso de levar um calote. Nem sua nega escapa e ele chega a comentar que ela é “mais forte que o Banco do Brasil”. E tudo isso muito bem encaixado num canto falado, cheio de improvisos, que ficou conhecido como samba de breque.

Com dezenas de discos e compactos lançados em quase 80 anos de carreira, um resumo dessa ópera voltou recentemente às lojas nos boxes O Último Malandro e O Tal Malandro (Discobertas). Para marcar os 110 anos de nascimento do compositor, cada caixa reúne quatro discos originais lançados pela extinta gravadora Odeon, entre 1958 e 1966. Remasterizados e encartados com as capas originais, cada disco traz ainda muitas faixas bônus tiradas de compactos raros. Entre as faixas, composições próprias e de outros especialistas em contar histórias, como Noel Rosa, Wilson Batista, Billy Blanco e Mário Lago.

De paletó branco, sapato bicolor, chapéu, bigodinho aparado e orgulhoso de ser um malandro bem cotado, Moreira da Silva usava e abusava do seu talento pra fazer rir. Mesmo que fosse diante dos problemas. Em Cidade lagoa, por exemplo, ele conta que, numa enchente, comprou uma canoa pra passear com sua amada pelas ruas cariocas. “Problema vitalício e renitente. Toda a cidade é uma enorme cachoeira e da Praça da Bandeira vou de lancha a Catumbi”. Já é Compre esse disco, o artista faz um apelo choroso para seus fãs. “A minha gororoba só depende de você”, implora. Quanto o pobre diabo que inventou de mexer com sua nega em Na subida do morro, este se arrependeu de ter nascido. “Peguei o vargolino pelo abdome, desci pelo duodeno, vesícula biliar e fiz-lhe uma tubagem. Ele caiu, bum!, todo ensanguentado”, conta o Kid Morengueira.

Mas pra quem confunde o ator com o personagem, a malandragem de Moreira ficava reservada à sua obra. Nunca foi de beber nem fumar e tinha por hábito manter suas contas sempre em dia. No amor, mesmo que ele cantasse que já teve 1296 mulheres (numa parceria com o ator/humorista Zé Trindade), foi um homem bem casado (apesar de não dispensar uma “sobrinha” quando viajava a trabalho). E assim, em 6 de junho de 2000, ele faleceu aos 98 anos. Nessa época ele já morava em frente ao Cemitério do Catumbi “para dar menos trabalho aos que forem me levar para a última morada”. Seu sonho era entrar para o Guiness, como o artista com maior tempo de carreira. Mas era isso mesmo que ele pragava em mais um dos seus sambas. “Quem nasceu pra ser cachorro, tem que morrer ladrando. Eu nasci pra ser cantor, vou morrer cantando”.

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