Discografia

MÚSICA EM CORES: Gilberto Gil (1968)

O que faz um clássico? Uma mistura de boas músicas e bons músicos? Um repertório que aponta para o futuro ou que resgata o melhor de um passado? De fato, não existem fórmulas para o clássico (entendendo aqui “clássico” como “fundamental”). Só se sabe que eles existem e, de tempos em tempos, um novo aparece por aí. Mas, e quando uma pessoa lança dois clássicos num ano só? O que se pode pensar?! Muito provavelmente, ali estará um mestre. E menos não pode ser dito de Gilberto Gil.

Baiano de fala lenta, pensamento rápido e conteúdo complexo, ele é, segundo a própria avaliação, uma máquina de ritmo. E foi botando lenha nessa máquina que, em 1968, ele protagonizou o fundamental Tropicália ou Panis et Circensis – álbum que tornou-se marco de uma geração de cantores e compositores dispostos a usar o espaço dos festivais para questionar a cultura brasileira, seus métodos, cânones e até os próprios festivais – e ainda lançou um disco próprio seguindo a estética daquele movimento que nascia. Embora sejam trabalhos de propostas completamente diferentes, este acaba sendo filho daquele.

Aproveitando os palcos dos grandes festivais de música, um ano antes Gilberto Gil e Caetano Veloso lançaram as bases do que viria a ser o Tropicalismo, movimento artístico que propunha uma abertura total da cultura brasileira para as mais variadas influências. Uma verdadeira geleia geral. E, para sacramentar essas ideias tão marcantes, eles lançaram em 1968 um disco manifesto que contou com a participação de Gal Costa, Tom Zé, Mutantes e outros nomes. O tal Tropicália ou Panis et Circensis.

Ainda com essas ideias na cabeça, Gil convocou mais uma vez os Mutantes para mais um trabalho juntos. O baiano havia conhecido o trio por intermédio do maestro Rogério Duprat, que sugeriu aqueles jovens roqueiros paulistanos para acompanhar Gil em Domingo no Parque, executada no III Festival da Música Popular Brasileira. A parceria deu tão certo que eles voltaram a trocar figurinhas para o álbum iria suceder Louvação, álbum de estreia de Gil. Apenas um ano separa os dois primeiros discos daquele compositor ainda desconhecido, mas é certo que ele queria deixar claro que estava aberto a muitas possibilidades.

Na capa deste segundo disco nem o nome de Gilberto Gil veio. Apenas uma foto cercada de desenhos que faziam referência ao então marco contracultural Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, referência máxima da época. Meio rock, meio samba, meio tudo, o disco apelidado na época de “Frevo rasgado” trazia a cinematográfica Domingo no Parque, que contava sobre um triângulo amoroso que termina em crime. No palco do 3º Festival de Música Popular Brasileira, um ano antes, com os Mutantes e a orquestra de Duprat, o sorriso e o violão cheio de festa de Gilberto Gil eram um contraponto ao fim triste que o compositor reservou para seus protagonistas João e José. E olha que eles só queriam um domingo no parque…

Mas o disco Gilberto Gil tem mais. Muito mais. E por isso é um clássico. Pega a voga cabeludo, por exemplo, tem gosto de Jorge Ben (sem Jor). Com um pé no rock de Jimi Hendrix e outro em Capiba, ele inicia com um Frevo rasgado. Com cara de inocente, Procissão, outro clássico, falava da religião como o ópio do povo, olhava para Karl Marx e seguia adiante em mais uma letra que poderia ser dirigida por Glauber Rocha. Há ainda espaço para o amor sublime de A coisa mais linda que existe. É que cabem muitos gilbertos em Gil. Um Gil Marley, um Gil Gonzaga, um Gil Dylan. Uma geleia geral.

 

Faixas de Gilberto Gil (1968):

1. Frevo Rasgado (Gilberto Gil/ Breno Ferreira) 1:53
2. Coragem Pra Suportar (Gilberto Gil) 2:55
3. Domingou (Gilberto Gil/ Torquato Neto) 2:55
4. Marginália II (Gilberto Gil/ Torquato Neto) 2:39
5. Pega a Voga, Cabeludo (Juan Arcon/ Gilberto Gil) 4:44
6. Êle Falava Nisso Todo Dia (Gilberto Gil) 2:33
7. Procissão (Gilberto Gil) 2:55
8. Luzia Luluza (Gilberto Gil) 4:03
9. Pé da Roseira (Gilberto Gil) 3:03
10. Domingo no Parque (Gilberto Gil) 3:46

Gilberto Gil (1968) por Carlus Campos

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