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Celebration Day mostra a atualidade da obra do Led Zeppelin

Houve um tempo em que o rock era levado a sério como um gênero que combinava energia, vanguardismo e vontade de chutar o balde. Era uma época em que nomes como Jimi Hendrix (1942 – 1970), Janis Joplin (1943 – 1970), Beatles e The Doors davam as cartas com uma fusão de rock, blues e black music, além de adiantarem tendências e exagerarem em muitas doses. Vivendo suas vidas com urgência, como se já soubessem que morreriam cedo, eles todos, em muito pouco tempo, imortalizaram suas carreiras e passaram a ser objeto de adoração pelo mundo inteiro.

Outra vítima dessa loucura setentista foi o baterista John Bonham, encontrado morto na manhã de 25 de setembro de 1980. Asfixiado com o próprio vômito, o acidente aconteceu depois dele consumir cerca de 40 doses de vodka. O apetite voraz do músico selou definitivamente a história de um dos gigantes do rock de todos os tempos, a banda Led Zeppelin. O quarteto virtuoso, completado por Jimmy Page (guitarra), Robert Plant (voz) e John Paul Jones (baixo), viu que nunca poderia continuar de outra forma e, ali, partiu cada um para seu caminho.

O abismo deixado na cena musical foi tamanho, que os fãs nunca deixaram de aguardar um reencontro dos sobreviventes. Foram 27 anos de espera, até que, em 10 de dezembro de 2007, os três deuses do rock voltaram a dividir um palco, o do O2 Arena em Londres, para tocar aquele repertório de clássicos. Para quem duvida da adoração e do endeusamento dedicado ao Zeppelin, foram 20 milhões de inscritos em busca dos parcos 18 mil ingressos postos à venda.

O reencontro da banda, agora lançado no pacote de CD e DVD Celebration Day, foi para homenagear o empresário Ahmet Ertegun, dono da gravadora Atlantic Records, falecido um ano antes. Responsável por trabalhos do Velvet Underground, Rush e MC5, foi a Atlantic quem deu liberdade para que o Zeppelin gravasse seu primeiro álbum, em 1969, que trazia pepitas douradas como Good times bad times, Dazed and confused e Babe I’m gonna leave you. Era o rastilho que precisava para dar início a uma história de cerca de 300 milhões de discos vendidos.

As razões para números tão grandiosos não se perderam ao longo dessas quase três décadas que os Zeppelins ficaram afastados. Com todos passando dos 60 anos, a fúria, o peso e a energia que os três provocam juntos ainda é capaz de arrancar lágrimas de muito marmanjo. Para preencher a ausência John Bonhan, eles convocaram seu filho Jason Bonhan, que hoje integra o supergrupo Black Country Communion, ao lado de Glenn Hughes, Joe Bonamassa e Derek Sherinian. Defendendo o legado de seu pai com muita honra, Jason recebe constantes sinais de aprovação ao longo do show.

É fato que a voz de Robert Plant não permite mais aqueles agudos de outrora. No entanto, mais do que pirotecnia, seu instrumento ainda é o mais perfeito na hora de entoar hinos lisérgicos como Stairway to heaven ou Whole lotta love. Ao seu lado, Jimmy Page, com cabelos mais brancos que os de Saruman, continua sendo um dos melhores guitarristas do mundo, com dedilhado certeiro e improvisações vigorosas. Na cozinha, John Paul Jones segura o ritmo com a mesma classe de 40 anos atrás e ainda assume o teclado em na “steviewonderiana” Trampled under foot. Encerrando as duas horas de apresentação com a hedonista Rock and roll, os quatro senhores se despedem já deixando claro que não pensam em turnê juntos. O mais refratário em relação a um novo encontro do Led Zeppelin, Robert Plant sequer encomprida conversa quando lhe questionam sobre o assunto. Em grande parte, isso se deve ao fato dele preferir seguir em frente com seu elogiado trabalho solo. Mas, claro, nada impede deles voltarem de vez em quando para mostrar quem é que manda no rock.

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