Discografia

A trilha solitária de Guto Goffi

Quando Cazuza saiu do Barão Vermelho para iniciar carreira solo, a banda se viu órfã do seu vocalista e letrista. O agora quarteto teve, então, que se desdobrar para preencher a lacuna. Foi aí que o baterista Guto Goffi começou a se arriscar nas primeiras composições. Algumas foram gravadas pelo Barão, outras ficaram guardadas esperando o dia em que veriam a luz do sol. Esse dia só chegou no fim de 2012, quando o músico lançou seu primeiro disco solo.

Elaborado ao longo dos últimos seis anos, Alimentar foi pensado, inicialmente, como um disco duplo com 22 músicas. Por conta dos custos da produção e em busca de uma seleção mais enxuta “pra não ficar chato” (diz o próprio), o pacote ficou dividido em duas partes: 10 faixas foram para o disco e as outras 12 para o site oficial de Guto. Curiosamente, é ele quem assume o microfone em todas elas.

“Ele nasceu para ser um disco de compositor e eu iria chamar cantores para participar. Depois pensei nos programas de entrevistas e resolvi cantar. Foi aí que vi o tamanho do monstro que eu resolvi criar”, brinca o músico com seu carioquês típico. Dono de um registro rouco e ainda de pouco recursos, Gutto até foi estudar canto para dar conta da empreitada. Tão estranho quanto o ovo estrelado que adorna a capa, o som de Alimentar (Independente) acabou se revelando um trabalho mais de cantor do que necessariamente de baterista.

Para quem espera um disco recheado de baquetas velozes, se surpreende logo nas primeiras notas da valsinha Despertar seu coração, que vem antes da valsa/mambo Doce Guanabara, ambas com letra de João de Aquino, primo de Baden Powell (1937 – 2000). “É pra mostrar que nós temos uma influencia da música brasileira e que nós influenciamos a MPB. Achei legal a coisa de misturar”, diz ele que assume ter voz “mais para MPB do que para o rock”.

No entanto, nem tudo é assim tão MPB em Alimentar. Sobra do Balada MTV (1999), Zé Carioca é um samba rock cheio de metais e balanço, seguida por O amor não se destrói assim, balada de guitarras pesadas, divida com Rodrigo Netto, falecido guitarrista dos Detonautas. Por falar na banda, Tico Santa Cruz comparece em Simples, um destaque do disco. Para seu debut, Guto também convidou a formação original no Barão para tocar em Olho no olho e Os Britos, que encerram o disco em clima beatlemaníaco com Pra tudo acontecer. Antes, recheada por trompa, harpa e cordas, Guto assina sozinho uma homenagem ao amigo Ezequiel Neves, falecido em 2010, chamada Oração. Sem grandes pretensões, Alimentar encerra deixando evidentes as limitações de Guto Goffi como cantor, porém não esconde a sinceridade e a vontade que ele quis imprimir logo na estreia. Que venham outros.