Discografia

Fagner lança novo disco, com produção de Michael Sullivan

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FAGNER - IExiste um lado bom e outro arriscado do rótulo “artista consagrado”, dito de tantos cantores e compositores brasileiros, com peso naqueles revelados nas décadas de 1960 e 70. Sim, é bastante cômodo saber que sua história lhe rende certa tranquilidade e que, aconteça o que acontecer, você já chegou lá e não deve mais nada a ninguém. Por outro lado, tantas certezas podem trazer o comodismo e a sensação de que não é preciso mais surpreender o público. Assim sendo, o que é melhor: seguir no que deu certo ou buscar novos caminhos?

É no meio desta encruzilhada que se encontra o cearense Raimundo Fagner. Um ano depois de comemorar 40 anos do disco de estreia, o ainda surpreendente Manera frufru manera, o compositor olha para a frente e lança um novo disco de inéditas, depois de cinco anos de jejum. Sucessor de Uma canção no rádio, Pássaros urbanos traz 11 novas faixas, divididas entre parcerias com Clodo, Fausto Nilo e Zeca Baleiro, e interpretações para Jaime Além (maestro que acompanhou Maria Bethânia por 25 anos), Carlos Barroso e Belchior.

88843059242 Digipack.inddA produção do 27° disco de inéditas de Fagner – excetuando compactos e projetos coletivos – foi entregue a Michael Sullivan, responsável por 10 entre 10 sucessos de AM e FM dos anos 1980. Com talento para fisgar ouvidos menos exigentes, este pernambucano criou hits chicletes para gente como Sandra de Sá (Retratos e canções), Fafá de Belém (Meu dilema) e Rosana (Nem um toque). Gravado entre o Rio de janeiro, Salvador e Fortaleza, Pássaros Urbanos reúne ainda alguns dos melhores instrumentistas cearenses, como Adelson Viana, Cristiano Pinho, Hoto Jr. e Miquéias dos Santos.

Pela primeira vez nesses de 40 anos, Fagner abriu mão de posar para a capa de um disco. No lugar do seu rosto, o singelo desenho de um pássaro matando a sede numa taça. O autor da ilustração (econômica nos detalhes, mas cheia de significados) é Fausto Nilo, parceiro frequente, que precisou de poucas linhas para criar uma capa emocionante. Adepto das canções assobiáveis, o desenho de Fausto é tão simples quanto suas letras e se adequa ao trabalho gráfico do disco, que conta ainda com imagens de Fagner bem à vontade tocando violão e sorrindo de leve para a câmera.

Abrir mão da tradicional “foto da capa” sugere um novo rumo, um novo começo para aquele que ainda é o nome cearense de maior expressão nacional. Algo como se o menino passarinho tivesse acordado com vontade de voar por outras paragens. No entanto, como um Roberto Carlos sem coroa, Fagner prefere repetir velhos vícios e se adequa ao ritmo das trilhas de novelas que embalam casais apaixonados. São 41 minutos de canções, sem altos ou baixos, que vão perdendo a força aos poucos.

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Está tudo ali. As camas de teclados simulando orquestras, os solos repetitivos de saxofone, vocais insossos e arranjos plastificados onde nada sobressai. A exceção fica para o violão de Cainã Cavalcante que se impõe em Se o amor vier. Já a voz de Raimundo Fagner mantém sua beleza agreste, crua e sem falsos sotaques, embora evite rasgos emocionais (que, às vezes, fazem bem). Em grande parte, Pássaros urbanos e seu clima oitentista podem ser explicado pelo seu produtor. Quase tudo soa como Deslizes, sucesso avassalador de 1987 composto por Sullivan e seu, até então, inseparável parceiro Paulo Massadas.

Num resumo simples, Fagner carece do mesmo que boa parte dos artistas consagrados carece: ousadia. Se levasse uma mão de Marcelo Jeneci (alguém que sabe jogar pra plateia sem perder o rebolado), as boas letras de Pássaros urbanos (sim, elas estão ali sob os teclados) iriam ter sua beleza realçada. Ou, melhor ainda, se entornasse uma garrafa de Fernando Catatau, o bardo cearense voltaria a respirar ares contemporâneos. O que ele teria a perder? Em tempos de gravação independente (como deve ser este Pássaros urbanos) e vendas inexpressivas, melhor seria focar no talento, algo que lhe sobra, olhar para o futuro e deixar os deslizes de lado.

2 Comentários

  • Rebeca disse:

    Discordo de sua opinião. A crítica ao CD publicada no Diário do Nordeste reconhece o Fagner ao qual nós conhecemos e desejamos ouvir ao dizer que: “A espera é recompensada por um Fagner em plena potência poética, visceral, regado a paixões arrebatadoras e desilusões. Mergulha num cancioneiro de amor rasgado, que marca alguns dos bons compositores de sua geração.” Não considero que a ousadia de Fagner deva beber na fonte de novos e bons músicos que você cita, mas ele ousa em se manter autêntico e ainda assim surpreender aos fãs que esperavam sim ouvir os seus “cantos de amor rasgados”. Viva a paixão e suas desilusões!

  • nathalia disse:

    Pois eu ouvi o cd ontem e achei deverasmente clichê.

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