Discografia

Pequeno perfil de um cidadão comum

* Texto escrito para a revista O POVO Cenário Nº 4

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Em 23 de agosto de 2009, o programa Fantástico levou ao ar uma reportagem que surpreendeu os fãs da boa MPB. As notícias tratavam do cantor e compositor cearense Belchior, que teria sumido de seu apartamento em São Paulo deixando dívidas, propriedades e uma sequência de histórias mal contadas. Uma semana depois, o mesmo programa iria até San Gregorio de Polanco, pequena vila no interior do Uruguai, onde haviam localizado o artista para uma breve entrevista.

Acompanhado da esposa Edna, o artista, sorridente e com fala tranquila, procurou esclarecer dúvidas sobre os últimos acontecimentos, mas se esquivou das perguntas que julgava de cunho pessoal. De lá pra cá, seu nome continuou a correr pelos noticiários e a se envolver em mais polêmicas. Dívidas, perseguições, ameaças, depressão foram algumas das possíveis explicações dadas desde então.

Belchior em entrevista para o programa Fantástico

Belchior em entrevista para o programa Fantástico

Caçado como uma ameaça à sociedade, aos poucos o nome de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi se afastando das páginas de cultura. O que é uma injustiça. Revelado em meio a uma prolífica geração de músicos cearenses na virada das décadas de 1960 e 70, o sobralense compôs grandes canções que viraram sucessos com Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, Oswaldo Montenegro e Zé Ramalho.

Os quatro nomes acima, inclusive, foram responsáveis por diferentes leituras de uma mesma canção: Mucuripe. Peça que inaugura a parceria com o conterrâneo Fagner, a toada de cores cearenses foi lançada em 1972 por Elis Regina (e rebobinada décadas depois pela filha Maria Rita). Fagner e Belchior se conheceram em 1968, durante o IV Festival de Música Popular do Ceará, quando o primeiro apresentou Nada sou e o segundo Espacial. Ambas ficaram entre as finalistas.

“Nossa parceria ficou muito no que fizemos aqui no Ceará”, lembra Raimundo Fagner, que ainda dividiu com Belchior o samba Noves fora e a dramática Moto 1. “Era muito boa a nossa parceria. Rolava uma química legal. Lamento nós não termos feito mais músicas”, completa o músico que diz também não ter sustentado uma amizade com o antigo parceiro. “Não rolou a amizade que imaginaria que aconteceria. Houve algumas coisas pelo caminho e depois não rolou aquela coisa de frequentar a casa do outro, saber o que tá havendo. Mas o que vale mesmo é a música”.

Ainda assim, não é difícil para Fagner reconhecer o valor de Belchior para música brasileira, principalmente na que é feita no Ceará. “Ele tem uma obra espetacular, que desconcentra um pouco essa coisa do Pessoal do Ceará. O Pessoal foi um pouco o que está naquele disco (Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem, que reúne os trabalhos de Ednardo, Rodger e Teti). A gente conseguiu, com as carreiras individuais, fazer muitas outras coisas”, comenta ele, que ainda deseja tempos melhores ao conterrâneo. “Gostaria que ele aparecesse e que fosse com um trabalho bom. Que esse sumiço dele estimule sua veia criativa”.

Hoje com 66 anos, Belchior conta uma das passagens mais ricas entre os compositores da música brasileira. Como poeta, escreveu a própria história e as próprias intimidades nas entrelinhas de Apenas um rapaz latino americano ou Alucinação. Essa última inclusive lhe batizou o disco lançado em 1976. Recentemente apontado como o disco mais importante da música cearense, em eleição promovida pelo Jornal O POVO, Alucinação apresenta um trovador urbano, urgente e sensível às transformações e ao tempo. “O dinheiro é cruel e um vento forte levou os amigos para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos, e nossa esperança de jovens não aconteceu”, desabafa o bardo em Não leve flores.

“Belchior, apenas um rapaz latino americano, transbordante e triunfante. Realmente, um disco campeão e emblemático. Descortinando o Ceará para o mundo numa projeção alucinada e inevitável. Repertório primoroso, definitivo e inabalável. Bel faz aí sua assinatura na  Musica Popular Brasileira”, derrete-se a amiga e cantora Amelinha. “Eu estive no lançamento em São Paulo e foi simplesmente deslumbrante e alucinante. Inesquecível. Tudo que falo é baseado no que vi e ouvi”, completa.

Além das influências dos ídolos setentistas (é de John Lennon a frase “a felicidade é uma arma quente”), a palavra de Belchior ganhou mais força na sua voz forte, anasalada e emocionada. Intérprete ideal para os próprios sentimentos, ele dosa todos os temperos em composições como Aguapé (em dueto com Fagner) ou À palo seco. Em 1996, quando lançou Vício elegante, deixou a caneta de lado para investir no lado cantor. De Chico Buarque a Adriana Calcanhotto, Belchior selecionou 13 canções e deu cores próprias a elas.

Por falar em cores, em 2003, foi a vez do cearense mergulhar no projeto As Várias Caras de Drummond. A homenagem, promovida pela revista Caras, era embalada num pacote luxuoso que acompanhava dois discos de poemas musicados e 31 gravuras feitas por Belchior, retratando o poeta mineiro. Embora tenha morrido em 1987, o próprio Drummond teve tempo de ver seus retratos e aprová-los. “Meu abraço cordial, meu agradecimento pela oferta dos seus ‘riscos e rabiscos’, tão cheios de graça e sensibilidade”, deixou escrito.

Esse, no entanto, foi um dos últimos projetos de Belchior de que se tem notícia. Dois anos depois, o compositor daria início a uma turnê comemorativa de 30 anos de carreira que passaria por alguns estados brasileiros. Depois disso, sua vida seria tomada pelo turbilhão de notícias que deixaria dúvidas sobre sua saúde, seu comportamento e sua situação financeira. Deixaria também a certeza de que, depois de tudo resolvido, os fãs continuam à espera de novas canções.

Discoteca básica para iniciantes:
alucinac3a7c3a3o> Alucinação (1976)
Logo no segundo disco, Belchior atingiu o ápice da criatividade. Apontado como o disco mais importante da música cearense, segundo eleição promovida pelo Jornal O POVO, Alucinação emplacou, no mínimo, sete sucessos para o compositor. Entre eles, Como os nossos pais e À palo seco.

era_uma_vez> Era uma vez o homem e o seu tempo (1979)
Puxado pelo sucesso de Medo de avião, esse disco manteve o cearense entre os grandes nomes da música brasileira. Além desta, o disco traz parcerias com Toquinho, Gilberto Gil e uma homenagem ao beatle John Lennon.

belchior-lp-melodrama-encarte-1987-14156-MLB63291348_9023-O> Melodrama (1987)
Mantendo a boa veia compositora, esse disco traz uma das grandes pérolas do cancioneiro de Belchior. De primeira grandeza é como uma canção de amigo escrita de forma dramática e latente. Como se não bastasse, Melodrama conta ainda com Jornal blues e Em resposta a carta de fã.

13785-MLB3002099728_082012-O> Um concerto bárbaro (1995)
Bem antes do formato acústico virar moda entre os artistas, Belchior passou a limpo seu cancioneiro acompanhado de violões, gaita e violino. Entre os destaques, Todo sujo de batom, Galos, noites e quintais e Os profissionais.

audio_0132> Vício elegante (1996)
Dono de uma voz peculiar e inconfundível, Belchior dedica um disco inteiro ao seu lado de intérprete. A única exceção fica para a faixa título, escrita por ele em parceria com o pianista Ricardo Bacelar. Fora esta, Aliás (Djavan), Paixão (Kledir) e Garoto de aluguel (Zé Ramalho), entre outras, ganham nova leitura.

pessoal-do-ceara-W320> Pessoal do Ceará (2002)
Projeto revisionista da gravadora Continental, esse disco reuniu Amelinha, Ednardo e Belchior em torno de clássicos da música cearense. Os três, que depois viriam a se encontrar num especial da Rede Globo, cantam Como nosso pais, Pavão mysteriozo e Artigo 26.

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