Discografia

Renovando a batucada

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capaUm pensa e o outro fala. Um cruza e o outro marca o gol. Um dá a nota e ou outro segue cantando. A sincronia de Hamilton de Holanda e Diogo Nogueira é o ponto alto em Bossa negra (Universal). Ninguém dá rasteira ou tira os holofotes de ninguém. Ao lado desses bambas, Thiago da Serrinha e André Vasconcellos, respectivamente, na percussão e no baixo, seguram tudo na cozinha, brilhando igual a quem está na frente do palco.

Bem recebido pela crítica, Bossa negra já tem sido apontado como o início de um novo gênero musical. Se não chegar a tanto, é, sem dúvidas, o melhor disco brasileiro lançado em 2014 (até agora, pelo menos). De João Gilberto a Arlindo Cruz, passando por Caymmi, Caetano e Clara Nunes, a batucada de Diogo e Hamilton é o samba em seu estado puro. A seguir, conheça todas as faixas desse disco que combina pretensão e despretensão com maestria.

1. Bossa negra – a faixa de abertura funciona como uma carta de intenções. “Toca o tambor, meu bandolim. Com esse canto na avenida, é bossa negra até o fim”, afirma o samba enredo.

2. – a parceria de Hamilton de Holanda com o percussionista Thiago da Serrinha é um samba de ritmo quebrado, cheio de armadilhas vocais. Diogo passa por cima com divisões magistrais.

3. Desde que o samba é samba – último clássico da obra de Caetano Veloso, o samba ganha aqui ares mais baianos, que remetem aos blocos afro. A percussão de Thiago é quem manda.

14Bossa Negra_Rafae¦é Silva14. Bicho da terra – uma das inéditas de Bossa Negra, feita por Hamilton, Diogo, Bruno Barreto e Wallace Perez. O canto evoca a Clara Nunes e sua ligação sobrenatural com a natureza.

5. Brasil de hoje – Samba exaltação que não deixa de apontar feridas. “Muita história e pouca memória, aqui tanto faz ser herói ou vilão”, diz a letra que conta com o reforço de um coral infantil para representar a esperança.

6. Salamandra – Parceria inédita de João Nogueira com o poeta P.C. Pinheiro. Batucada típica da dupla, que aqui ganha um registro à altura. Um belíssimo resgate que se destaca no repertório.

7. O que é o amor – a composição de Arlindo Cruz, Maurição e Fred Camacho foi lançada com sucesso por Maria Rita. Aqui, o samba apaixonado ganha leitura mais seca e improvisos. Mais um ponto para a percussão de Thiago da Serrinha.

8. Mais um dia – com um emaranhado de cordas, bandolim e baixo se encontram num samba acelerado feito a 10 mãos. “O jogo de cintura, a solução sim, por mais um pão”, canta Diogo em notas abertas.

9. Doce flor – o canto contido e doce de Diogo Nogueira remete à bossa nova. O instrumental aponta outros caminhos na batucada. Momento mais introspectivo desta Bossa negra.

10. Risque – clássico de Ary Barroso que já ganhou as vozes de Linda Batista e Nelson Gonçalves. Numa releitura convencional, Diogo e Hamilton apenas sublinham os versos trágicos com beleza.

11. Mineira/ Samba de arerê – homenagem dupla a Clara Nunes e Betha Carvalho. O sobe e desce do bandolim é hipnótico. Clara, João e Beth devem ficar orgulhosos.

12. Mundo melhor – em parceria com Pixinguinha, Vinicius de Moraes da seu recado para quem não dá valor ao amor. Vale a menção aos mestres, mas é a mais fraca de Bossa negra.

12. Até a volta – canto oração inspirado nas canções praieiras de Dorival Caymmi. Composta por Diogo, Hamilton e Marcos Portinari, a toada encerra o disco dizendo que “volta quando puder”.

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