
Talvez seja esse filtro pop em comum que faz de Gilberto Gil & Gal Costa Live in London um registro de valor incalculável. Captada em 26 de novembro de 1971, no centro estudantil da City University de Londres, a gravação estava inédita até sair recentemente em CD duplo pela Discobertas. O material foi encontrado em 1998, quando Marcelo Fróes, dono do selo, estava garimpando material para uma caixa de raridades de Gil. Entre os achados, estava o show realizado durante o inverno inglês e que contou com uma plateia formada por muitos exilados da Ditadura Militar brasileira.
Quando se encontraram para o show do centro estudantil, Gil e Gal vivam o auge da fase bicho grilo, percebido tanto nas cabeleiras quanto no repertório blues-rock. Ela vinha do explosivo disco/show Fatal – A todo vapor, uma eletroacústica costura de sons novos e antigos. E ele já havia lançado um álbum em inglês, que trazia a festiva Crazy pop rock, e começava a gravar um segundo, que acabou sendo abandonado (e perdido nos arquivos da gravadora) com a notícia de que o retorno para o Brasil estava liberado.
O encontro londrino aconteceu quase dois meses antes desse retorno. Nas 19 músicas que apresentaram naquela noite, o clima que transparece é de absoluta comunhão. Acompanhados por Bruce Henry (baixo), Tutty Moreno (bateria) e Chiquinho Azevedo (percussão), eles esticam cada música até o ponto mais tenso em longos improvisos e viagens sonoras. Para se ter noção da viagem, apenas três faixas têm menos de cinco minutos. “Vocês estão vendo esse clima assim de informalidade. É porque a gente está informal”, explica Gil, com sua verve característica, antes de puxar Dê um rolê.
Gilberto Gil & Gal Costa Live in London capta um momento único da trajetória de dois dos maiores tesouros nacionais. Feita como uma despedida do Brasil, Aquele abraço agora ganha ares de felicitação pelo retorno do compositor que, aliás, começou a esboçar este samba numa visita a Dona Mariah, mãe de Gal. Ambos já admitiram que não lembram de nada daquela noite no centro estudantil. Que bom que ficaram as canções para contar a história.