Discografia

O país das cantoras

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# Matéria publicada no caderno Dom, deste domingo (15), com parte da celebração de 70 anos de Elis Regina

Muitos motivos fizeram Elis Regina ser reconhecida como uma das maiores cantoras brasileiras da história. A voz, de timbre muito particular, transitava bem entre momentos de extrema entrega e outros mais contidos. Combinado a isso, ela tinha nas mãos alguns dos principais compositores brasileiros, todos ansiosos para ver o que ela faria com suas canções. Para fechar essa conta, a estrela que completaria 70 anos na próxima terça-feira (17) se cercava dos melhores músicos e arranjadores de sua época, todos dispostos a descobrir novos caminhos para aquela voz toda.

Dona de uma rara inteligência musical, Elis se habituou a observar muito bem onde iria colocar seu instrumento de trabalho. Por isso, passados 33 anos de sua morte, a Pimentinha ainda é fonte de inspiração para muitas jovens cantoras que despontam no cenário nacional. Muitos cantores também se dizem influenciados pela interpretação forte, intensa e passional da artista que deu novas texturas para Como nossos pais, do cearense Belchior. Aliás, essa é uma das preferidas daqueles que querem mostrar artilharia vocal imitando os maneirismos de Elis.

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O fato é que, mesmo com Elis sendo citada como referência por quase todos os novos artistas, muita coisa mudou no perfil das cantoras brasileiras desde que ela subiu ao palco do 1° Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior para cantar Arrastão. Nos anos 1960 e 70, quando a maior vitrine musical eram os festivais, era papel do intérprete dar vida a canções feitas por compositores cuja voz não se adequava a determinados padrões. Foi nessa época que se eternizaram Gal Costa, Maria Bethânia, Simone, Cláudya, Elba Ramalho e muitas outras divas brasileiras.

Décadas depois, esse papel foi diminuindo ao passo que cresceu a turma das “cantautoras”. Com as facilidades promovidas pela tecnologia para gravar e divulgar discos, todo mundo que compôs um punhado de canções criou coragem de exibi-las ao público usando o próprio gogó. Mesmo as que não têm os dotes vocais das intérpretes “puro sangue”, tornou-se comum as autoras darem voz à própria produção. Para alguns, caso da mato-grossense Vanessa da Mata, a desafinação virou até marca registrada.

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Outras se saíram melhor e ficaram reconhecidas tanto pelas boas interpretações como pela produção autoral. Marisa Monte, por exemplo, tornou-se um dos nomes mais fortes entre as mulheres da MPB combinando seu conhecimento lírico com o repertório eclético. Ecletismo, inclusive, virou a palavra da moda entre artistas que misturavam muitos estilos e arrebanharam uma massa de fãs pelo Brasil. É o caso da mineira Ana Carolina, que abriu uma verdadeira franquia da “cantautoras” de voz grave e composições apaixonadas.

Para o cantor e compositor Thiago Pethit, a mudança de “país das cantoras” para “país das cantautoras” se explica pelo mercado. “É mais viável por que existe um valor em cima do compositor. Por outro lado, é também uma revolução no papel da mulher. Antes, elas ficavam nesse lugar meio musa, mas não (eram vistas como) inteligentes para compor. E os homens podiam ser feios, embora gênios”, comenta. Para o paulistano, um bom exemplo dessa mudança de cenário é sua conterrânea Céu. “Ela combina as duas coisas. É uma grande compositora e uma deusa”, elogia.

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Para o cantor e compositor Marcos Lessa, a grande diferença entre as novas vozes nacionais e Elis está na capacidade de reinventar as canções ao seu modo. “A Elis, quando pegava uma música, os compositores ficavam ansiosos. A original do Aprendendo a jogar (Guilherme Arantes), por exemplo, é bem bestinha, mas, com ela é outra coisa. Hoje, os compositores consagram tanto as próprias canções, que os interpretes fazem igual ao compositor”. A cantora e regente Aparecida Silvino concorda e lamenta a falta de personalidade nas cantoras brasileiras surgidas nos últimos anos. “De lá pra cá, todo mundo é normal. Essa mania de politicamente correto está sacrificando muito coisa. É todo mundo muito igualzinho. Eu gosto de quem tem o que dizer”, lamenta.

Para o maestro Erwin Schrader, a força da interpretação de Elis Regina é algo raro entre as intérpretes mais jovens. “A forma como ela recebia a música era muito forte e isso a gente não vê em muitas cantoras hoje em dia. Ela entrava no universo da música e sentia a interpretação. Hoje, existe uma preocupação maior com a afinação”, explica. Para o cearense, uma série de outros elementos interfere nessa discussão, como as mudanças do mercado e dos meios de comunicação. Por isso, comparar a geração de Elis com a atual chega a ser injusto. “Elis é herdeira de uma geração do rádio, que não tinha a imagem de apoio. Hoje tem muita maquiagem e muitos cantores já sabem os clichês para fazer de conta que estão se entregando”, critica.