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Entre risos e lágrimas, espetáculo faz boa caricatura de Rita Lee

manu7498Depois de uma leva de documentários que lotaram muitas salas de cinema, agora é o teatro que vem descortinando a história de variados personagens da música nacional. Simonal, Elis Regina, Cazuza e outros mártires arrebanharam plateias, principalmente, no Sudeste – o tamanho dessas produções combinado com a dificuldade de conseguir apoio dificultam esses espetáculos de circularem. Ainda assim, Fortaleza vem pisando nesse chão devagarinho e, sempre que pode, recebe bem alguns desses musicais.

Foi o que aconteceu no último fim de semana, quando aportou no Teatro RioMar a peça Rita Lee mora ao lado, baseada na “biografia alucinada” escrita pelo jornalista Henrique Bartsch. Abençoada pela própria biografada, que a definiu como “um tratado arqueológico da minha vidinha vulgar”, a história gira em torno de Bárbara Farniente, uma garota meio maluca amaldiçoada pela figura da roqueira paulistana. A praga foi rogada quando sua mãe, Diva Farniente, se apaixonou pelo pai da compositora e passou a usar a filha para perseguir todos os seus passos. Colégio, bandas, rock, namorados, tudo o que Rita fazia era sombreado por Bárbara.

rita1A mistura de realidade e ficção é o melhor tempero do livro e da peça Rita Lee mora ao lado. Mel Lisboa leva bem a sério o papel principal, assumindo os trejeitos ora acelerados, ora mântricos da homenageada. O esforço ainda rendeu à atriz um regime, que chama a atenção logo nas primeiras cenas. Ela também teve aulas de canto e violão, para poder interpretar, ao vivo, clássicos como Doce vampiro e Panis et circences. Num balanço geral, lembrando que não se está falando de uma cantora de fato, a ex-Anita surpreende no microfone e até encara corajosamente um solo em Ovelha negra.

Na verdade, é muito fácil perceber quem é cantor e quem ator em Rita Lee mora ao lado. Além da personagem título, vários outros artistas “participam” da peça e a veracidade de cada um varia entre boas sacadas e caricaturas folclóricas. No primeiro tópico estão Tim Maia, com seu vozeirão pronto pra briga, e João Gilberto, com sua fama de passar horas pendurado ao telefone. Já Gilberto Gil é reduzido a um emaranhado de argumentos hippie filosóficos que resume a Tropicália a um capricho de baiano para baiano. E Hebe Camargo, apesar do exagero da performance, garante uma das cenas mais engraçadas do espetáculo.

Além dos risos, Rita Lee mora ao lado também leva o público às lágrimas em momentos bem pontuais. A fase mais pesada de drogas da roqueira é embalada por Hey Joe, que, apesar do clichê deslocado temporalmente, ganha aplausos pela força da interpretação. Também emocionante é quando o elenco traça o roteiro de perdas que Rita sofreu ao longo dos seus mais de 50 anos de música. Chacrinha (1917 – 1988), Cazuza (1958 – 1990), Elis Regina (1945 – 1982) e Cássia Eller (1962 – 2001) são evocados para afirmar a ex-Mutante como uma sobrevivente da geração flower power. A cena ganha ainda mais força com Mel Lisboa cantando a belíssima Coisas da vida.

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Ao falar de perdas, Rita Lee mora ao lado também homenageia Henrique Bartsch, vítima de uma parada cardíaca em 2011, quando tinha 60 anos. Depois é hora de juntar os cacos e seguir em frente levando lembranças e saudades. É aí que o elenco se reúne no palco para carnavalizar a despedida com Saúde e Lança perfume. Ao fim de duas horas ininterruptas, o público (que não lotou o teatro, mas também não fez feio) tem acesso a um panorama completo da vida e obra de Rita. Mesmo que seja contada de forma anedótica por uma personagem fictícia, estão ali histórias reais com Mutantes, Tutti Frutti e Roberto de Carvalho. Só é chato o texto forçar a barra para incluir trocadilhos com nomes de músicas e trechos de letras. Ainda assim, como se fosse cinema, as trocas de elementos cênicos e a movimentação dos atores faz com que o público não note o tempo passar, cante junto e se divirta bastante durante a peça.

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