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Roger Waters derruba muros e traumas no filme The Wall

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Em 24 de julho de 2005, o técnico em eletrônica mineiro Jean Charles de Menezes foi confundido com um terrorista árabe e morto a tiros dentro do metrô de Londres. O assassinato, reconhecido como um erro pela polícia britânica, teve repercussão mundial e, no Brasil, foi como se a asa de um dos aviões de Osama Bin Laden caíssem sobre o Palácio da Alvorada, em Brasília. Isso por que o incidente veio no rastro de medo que se espalhou no planeta desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O que torna o brasileiro de 27 anos mais uma das vítimas da guerra, do preconceito, da intolerância e do terrorismo.

Dez anos depois, é a Jean Charles que Roger Waters dedica o filme The Wall, que teve única apresentação nos cinemas do mundo ontem, 29 de setembro. Mais do que um show sobre um dos álbuns icônicos do Pink Floyd, o musical é um trabalho complexo que fala sobre as muitas vítimas dos mais variados conflitos, muitos deles lembrados com nome, foto, datas e locais de nascimento e morte. Entre os personagens citados, estão o fotógrafo Robert Capa (morto em trabalho ao pisar numa mina terrestre na Indochina), o seringueiro Chico Mendes (assassinado por fazendeiros em Xapuri), o compositor Victor Jara (torturado e morto durante pelo governo Pinochet) e o comissário da ONU Sérgio Vieira de Melo (vítima de um atentado em Bagdá).

O próprio Waters se coloca entre essas vítimas, lembrando que perdeu o pai (aos cinco meses) e o avô nas grandes guerras. Essas perdas é que motivaram o baixista e letrista do Pink Floyd a lançar o álbum The Wall, em 1979. Mais um trabalho conceitual na obra do quarteto inglês, o disco mudou a história dos shows de rock quando ganhou os palcos em 1982. Grandioso, teatral e dilacerante, a ópera-rock ainda rendeu um filme lançado em 1982, com direção de Alan Parker (Coração satânico), e um espetáculo realizado em Berlim, para marcar a queda do muro que dividiu o país durante a guerra fria. Em 2010, Waters retomou o conceito original do trabalho e entrou numa turnê de proporções gigantescas que passou pelo Brasil em 2012.

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Essa turnê é a trilha por onde segue o filme The Wall. Acompanhado de sua banda, o músico de 72 anos comanda um mega-espetáculo que tem como ponto alto a construção de um imenso muro onde são projetadas as loucuras e os sonhos do protagonista. A história fala sobre um astro de rock chamado Pink que se isola entre muros pessoais para fugir da mãe superprotetora, da escola castradora e do trauma da perda do pai. O próprio Waters chegou a admitir ser o verdadeiro Pink. Tanto que, paralelo às imagens ao vivo, o filme segue o artista numa viagem pessoal para visitar o túmulo do avô e um cemitério militar onde adormece a memória do pai, cujo corpo nunca foi encontrado.

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O impacto dos cenários europeus com a encenação do show de Waters é explosivo. A música é tão sólida que quase pode ser fatiada como um bolo. Para os fãs mais ardorosos, o Pink Floyd original faz falta. Quem admira a banda com menos paixão se deixa envolver pela força de faixas como Another brick the wall, Comfortably numb, Mother e Bring the boys back home. Solos afiados de guitarra atravessam a voz rouca do protagonista, levando a plateia às lágrimas em muitos momentos. O misto de teatro, cinema, show e documentário faz de The Wall uma peça única entre os filmes musicais. Sabendo do caráter divino que sua antiga banda lhe conferiu, Roger Waters leva a experiência do palco ao ponto mais alto. Fora de cena, ele se reconcilia com o passado e divide o momento os fãs.

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