Discografia

Gilberto Gil conversa mais um pouco

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Tenho Gilberto Gil na conta de uma entidade, de uma dessas figuras que chega para mudar o rumo das coisas. Dono de um ritmo incontrolável, algo que ele transporta como poucos para o violão, esse baiano costura todas as tradições da música popular de ascendência africana a cada acorde que toca. E como se não bastasse tanto violão, ele ainda se aventura na guitarra sempre que pode. Como um fã confesso, aproveitei a conversa por telefone desta semana para ouvir mais algumas informações que divido com você, leitor, abaixo.

Sobre um novo disco de inéditas. O último foi Fé na festa, de 2010
Não me dediquei, não me sentei para compor. Esporadicamente faço alguma coisa, para alguém.

Depois de 50 anos de carreira, a expectativa do público pela obra de vocês tornou-se bem grande. E como fica isso para você? Existe uma preocupação de responder a uma expectativa na hora de apresentar um novo trabalho?
Eu talvez hoje seja o menos exigente dos meus fãs. Por que estou muito próximo da obra toda, mais que a maioria das pessoas. Estou satisfeito com o que já fiz. Minha expectativa é de continuar fazendo.

Violão é a base da sua música desde o início da sua história. No entanto, nos anos 1980, você teve uma aproximação maior com o pop e adotou a guitarra, instrumento que parece ter ficado de lado nos seus últimos trabalhos. Como você se relaciona com esses instrumentos e com essa linguagem pop hoje em dia?
Toquei guitarra semana passada em Natal. Fui com a banda elétrica e passei as canções pop com a guitarra, matei as saudades. O último show que tinha feito nesse formato tinha sido no verão do ano passado. A guitarra já estava empoeirada.

No ano passado, o selo Discobertas lançou um disco inédito com um show que você fez com a Gal em Londres, durante sua época de exilado. Qual a sensação mais forte que você tem dessa época?
Eu achei interessante, mas ao mesmo tempo distante de uma coisa mais formatada que dominou meu trabalho. Depois do (disco) Expresso 2222 (1972), e dos “Re” (Refavela, RefavelaRealce), Banda Um (1982), Raça Humana (1984), todos esses discos me distanciaram muito daquele momento mais solto, com improvisações. Ali é uma viagem muito errática, quase que só fragmentos. De lá pra cá não tem feito quase nunca coisas desse tipo. Ficou como curiosidade, mas ficou difícil de me reconhecer. E Gal uma maravilha, né?

Que artistas ou discos você tem ouvido ultimamente?
Eu não tenho uma coleção, uma preferência. Escuto alguns artistas novos. Escuto Arnaldo Antunes, Marisa monte, Mart’nália. É muito variado. Não tenho escutado muito rock, nada desse campo anglo saxão. Escuto muito sem disciplina, muito espontaneamente.

Para alguém que já exerceu cargo público, foi exilado, teve canções censuradas, sofreu patrulha ideológica, como você vê o Brasil de hoje? 
Eu vejo com preocupação natural de quem tem que se defrontar com situações que demonstram crise, dificuldade e constrangimentos, mas eu vejo que é assim. A vida é assim e a gente tem que enfrentar as coisas todas. E não é uma questão só brasileira, é da civilização atual, esse recrudescimento. São dificuldades de distribuição de renda, exclusão social, refugiados, imigrantes, problemas da sociedade americana. É o mundo inteiro assim e a parte que nos toca aqui no Brasil é essa. Temos que lidar com nosso quinhão de problema. A vida é um trabalho.

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