Discografia

Dos Navegantes eleva a obra de Edu Lobo com instrumental luxuoso

As andanças de vida e arte de Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise vêm de muitos anos e atravessaram os mais variados cenários. O primeiro, 73 anos, um dos mais importantes compositores brasileiros, cruzou a bossa nova, passou pelos festivais, mexeu com rap, música nordestina, erudito e tornou-se um movimento musical por si. Romero, 61 anos, é violonista de dedos ágeis, sem afetação. Radicado nos Estados Unidos há mais de 30 anos, já colocou seu talento a serviço de estrelas como Leny Andrade, Diana Krall, Dianne Reeves, Herbie Mann, Ivan Lins, Paquito D’Rivera e outros. Por fim, Mauro, 67 anos, é um dos mais atuantes instrumentistas de sopro do País. Gravando incansavelmente, em discos próprios ou de outros, ele vem, desde os anos 1980, construindo uma trajetória sólida que mistura influencias do jazz e do clássico, sem perder a carioquice da cidade que o trouxe ao mundo.

Juntos, esses três homens se encontram em Dos Navegantes. O projeto foi nascendo aos poucos, em 2016, quando Senise gravou um tributo instrumental em homenagem a Gilberto Gil. Por acaso, Romero estava no Brasil e colocou seu violão em algumas faixas. O reencontro deu vontade de fazer outro disco, em duo (Todo sentimento, 2016), para o qual chamaram Edu para cantar em algumas faixas. Aquela formação instrumental enxuta e delicada da gravação encantou o compositor de Ponteio e Casa Forte. Daí a fazer um disco inteiro, a três, bastava o convite.

Dos Navegantes, lançado pela Biscoito Fino, agrupa 10 composições mais obscuras de Edu Lobo, mais a inédita Noturno – guiada ainda pelo piano de Cristovão Bastos. Ao lado desta, parcerias com Cacaso (Toada), Ronaldo Bastos (Cidade nova), Gianfrancesco Guarnieri (A morte de Zambi) e Chico Buarque (Valsa Brasileira). “Os arranjos foram quase todos feitos a partir dos arranjos originais que Edu já tinha, normalmente para orquestra ou banda. Como esse é um trabalho muito instrumental, acrescentamos solos ou alguma introdução a mais, e tudo feito em conjunto. Dávamos ideias e Edu via se funcionava para as diferentes situações. Assim fomos construindo juntos os arranjos para essa formação”, conta Romero Lubambo, por email.

Com a presença ainda de Bruno Aguilar (baixo) e Mingo Araújo (percussão em Gingado Dobrado), Dos Navegantes é um trabalho que não tem medo de ser sofisticado. Cada faixa é tratada com o cuidado de ourivesaria, sem perder a espontaneidade. Edu Lobo, como um crooner da própria obra, desfila a voz pequena afinada e cativante sobre uma passarela de sons confortáveis, sinuosos e profundos. Na Ilha de Lia, No barco de Rosa fica ainda mais sedutora navegando nas cordas de Lubambo, enquanto Considerando arranca lágrimas com o sax sofrido de Mauro Senise.

Dos Navegantes confirma a estrada particular por onde caminha a música de Edu Lobo. Do réquiem politizado A Morte de Zambi, pavimentada por tons graves, à paixão urbana de Cidade Nova, transitando pela magia poética de O Circo Místico, cada faixa mostra um caminho por onde passa a música do carioca. “Eu não sou feliz se me deixo criar raiz”, confirma o autor na faixa que dá nome ao projeto. E foi ele mesmo quem deu início à seleção de repertório, depois finalizada com o grupo. “As que eram unânimes já estavam. Nas diferenças, falávamos sobre detalhes de ritmo, tonalidade e da facilidade ou não de representar a composição com os instrumentos que iríamos usar”, explica Romero, que viu o disco nascer no dia do seu aniversário. Admiradores entre si, os três navegantes agora esperam atravessar as tormentas de um País que não facilita a circulação e seguir com os shows, inclusive aportando no exterior. A agenda ainda não está fechada, mas eles sabem que viver, navegar e fazer música junto é preciso.

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