
Juntos, esses três homens se encontram em Dos Navegantes. O projeto foi nascendo aos poucos, em 2016, quando Senise gravou um tributo instrumental em homenagem a Gilberto Gil. Por acaso, Romero estava no Brasil e colocou seu violão em algumas faixas. O
Dos Navegantes, lançado pela Biscoito Fino, agrupa 10 composições mais obscuras de Edu Lobo, mais a inédita Noturno – guiada ainda pelo piano de Cristovão Bastos. Ao lado desta, parcerias com Cacaso (Toada), Ronaldo Bastos (Cidade nova), Gianfrancesco Guarnieri (A morte de Zambi) e Chico Buarque (Valsa Brasileira). “Os arranjos foram quase todos feitos a partir dos arranjos originais que Edu já tinha, normalmente para orquestra ou banda. Como esse é um trabalho muito instrumental, acrescentamos solos ou alguma introdução a mais, e tudo feito em conjunto. Dávamos ideias e Edu via se funcionava para as diferentes situações. Assim fomos construindo juntos os arranjos para essa formação”, conta Romero Lubambo, por email.
Com a presença ainda de Bruno Aguilar (baixo) e Mingo Araújo (percussão em Gingado Dobrado), Dos Navegantes é um trabalho que não tem medo de ser sofisticado. Cada faixa é tratada com o cuidado de ourivesaria, sem perder a espontaneidade. Edu Lobo, como um crooner da própria obra, desfila a voz pequena afinada e cativante sobre uma passarela de sons confortáveis, sinuosos e profundos. Na Ilha de Lia, No barco de Rosa fica ainda mais sedutora navegando nas cordas de Lubambo, enquanto Considerando arranca lágrimas com o sax sofrido de Mauro Senise.
Dos Navegantes confirma a estrada particular por onde caminha a música de Edu Lobo. Do réquiem politizado A Morte de Zambi, pavimentada por tons graves, à paixão urbana de Cidade Nova, transitando pela magia poética de O Circo Místico, cada faixa mostra um caminho por onde passa a música do carioca. “Eu não sou feliz se me deixo criar raiz”, confirma o autor na faixa que dá nome ao projeto. E foi ele mesmo quem deu início à seleção de repertório, depois finalizada com o grupo. “As que eram unânimes já estavam. Nas diferenças, falávamos sobre detalhes de ritmo, tonalidade e da facilidade ou não de representar a composição com os instrumentos que iríamos usar”, explica Romero, que viu o disco nascer no dia do seu aniversário. Admiradores entre si, os três navegantes agora esperam atravessar as tormentas de um País que não facilita a circulação e seguir com os shows, inclusive aportando no exterior. A agenda ainda não está fechada, mas eles sabem que viver, navegar e fazer música junto é preciso.