Discografia

Fernanda Takai se une a Marcos Valle e Roberto Menescal em homenagem a Tom Jobim

Weber de Pádua/ Divulgação

Vinicius de Moraes já havia dado a deixa: “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”. E, sendo ele um dos letristas mais importantes da bossa nova, coube a esse estilo musical promover os mais variados encontros. Nos últimos anos, Marcos Valle encontrou com a jazzista Stacey Kent num projeto e com Dori Caymmi e Edu Lobo em outro. Roberto Menescal, que sempre encontra todo mundo, só este ano, encontrou o Quarteto do Rio (uma reencarnação dos Cariocas) e os Beatles (em ritmo de bossa) e vem em busca de encontrar o cearense Marcos Lessa em outro projeto. Até Fernanda Takai, filha do rock dos anos 1990, encontrou sua carreira solo a partir de um ícone da bossa nova.

Incansável, Menescal viu um novo encontro surgindo quando recebeu Takai e Valle no palco do CCBB de Brasília, em setembro do ano passado. Ali, em cena, durante o show em que comemorava 80 anos de vida, o autor de O Barquinho sentenciou os três a trabalharem uma parceria. E o nome do projeto também nasceu na hora: O Tom da Takai, que levou nove meses para nascer. O título do álbum lançado no início do mês passado não é por acaso. Abrigado nos 60 anos da bossa nova, o disco reúne canções raras do repertório de Tom Jobim interpretadas com a voz do Pato Fu cercada pelo violão de Menescal e pelo piano de Marcos Valle.

Tudo é luxuoso no disco que poderia ter sido lançado no fim dos anos 1950 pela gravadora Elenco. Sim, por que, diferente de Onde Brilhem os Olhos Seus, que jogava um banho pop contemporâneo sobre a obra de Nara Leão (1942 – 1989), O Tom da Takai é um autêntico disco de bossa nova, com raras fugidas. Isso por que, assim como Nara foi muito (mas muito mesmo) além da bossa, Takai (que tem a afinação e a elegância de uma Sylvia Telles) vem de outros universos musicais e soube usar isso no estilo que ela já paquera há muitos anos.

Pra sorte de Fernanda Takai, Marcos Valle e Roberto Menescal também já passearam por muitos sons, sem nunca perderem de vista a bossa que os viu nascer. Assim, a obra de Tom Jobim se mantém na tradição, mas sem aquele cheiro de coisa velha. Um bom exemplo é Só Saudade, belíssima parceria de Tom e Newton Mendonça, já gravada por Pery Ribeiro e Wilson Simonal. Afinada com uma precisão incrível, mas sem audácia, Takai sublinha as intenções da canção sem afetação. Essa mesma certeza de estar em terreno seguro aparece em Bonita, escolhida para abrir o tributo. Além de tocarem e se dividirem na produção, Roberto Menescal e Marcos Valle também dão canja. O primeiro faz uma dobradinha com Takai na deliciosa Ai Quem me Dera (Tom/ Marino Pinto) e o segundo comparece em Discussão (que não é exatamente rara e vem colada a Aula de Matemática, outra parceria com Marino, lançada por Sylvia Telles em 1958) e na instrumental The Red Blouse.

É bem verdade que O Tom da Takai não chega a surpreender, apesar dos nomes envolvidos. Mesmo buscando um “ineditismo” no repertório, o DNA de Tom é preservado para que tudo pareça familiar. Assim sendo, o tributo soa respeitoso sem abrir mão da beleza sedutora e atemporal da obra do maestro falecido em 1994. Tentando fugir a essa regra está Estrada do Sol, já gravada por Takai no tributo a Nara Leão. Se aquela versão mantinha o clima “Gene Kelly” da letra, esta nova ganha um balanço latino estranho, mas não comprometedor. E Eu preciso de Você, que virou uma marchinha de carnaval, vocais dobrados e encerra o disco como a melhor faixa. Fora isso, O Tom da Takai é um encontro de amigos em torno de um cancioneiro precioso. Uma conversa íntima sobre um compositor inesquecível. Um chope em Copacabana, em dia de sol, de frente para o mar.

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O Tom de Fátima Guedes
Em 2006, Fátima Guedes também deu voz ao cancioneiro menos popular de Tom Jobim. No disco Outros Tons, a carioca confirma ser uma intérprete magistral ao abordar a “pré-história da moderna música brasileira”, como descrito no texto de apresentação do disco. No repertório, a primeira parceria com Newton Mendonça (Incerteza) e outras da época que Tom deixava o samba-canção para encontrar a bossa nova: Pensando em Você, Pelos Caminhos da Vida e outras. O encarte do CD traz detalhes históricos sobre cada faixa. Disponível no Spotify.

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