Discografia

Mahmundi fala sobre o novo disco, experiência no Porto Iracema das Artes e aprendizados

Edvaldo Santos/ Divulgação

Por João Gabriel Tréz (joaogabriel@opovo.com.br)

Entre novos caminhos, inseguranças e vontades, os dias da cantora, compositora  produtora carioca Mahmundi estavam mais cinzas do que de costume. Depois de lançar um primeiro disco de forma independente em 2016, ela conseguiu um contrato com a gravadora Universal Music Brasil e o “sonho antigo de ‘ser uma artista’ aconteceu”, como ela escreveu em texto publicado no Instagram. No entanto, conflitos pessoais e sociais atravessaram esse caminho e mexeram com a artista. O resultado dessa mistura agridoce está em Para Dias Ruins, que abre espaço para positividade, mudança e amor.

“O disco é sobre como você se posiciona em dias ruins. É meio clichê, mas é necessário. Tem muita gente que não tá ligada na política ou nos discursos, mas tá passando por dias difíceis, mais cinzas”, afirma a artista, em entrevista por telefone ao O POVO. No texto do Instagram, Mahmundi listou alguns dos “dilemas” com os quais se deparou: problemas no namoro, violência, vida, morte, política, questões financeiras. “Com Para Dias Ruins, eu quis trazer uma reflexão de como subverter isso, ter mais fé. Era um momento em que eu queria tratar sobre como reagir. Coragem, força e alegria de viver são coisas que você pega no mundo interno, não no externo”, ensina. “Meu processo criativo passou por uma retomada quando eu saí da minha zona escura e falei que não ia deixar isso me abater, que eu não queria fazer um disco triste, mas sim um que subvertesse naturalmente tudo isso”, resume.

Essa subversão da tristeza está presente no trabalho através das letras, que abrem espaço para o afeto. Com nove faixas, Para Dias Ruins se debruça em canções majoritariamente sobre amor romântico. “Eu estava disposta a deixar o disco num diálogo mais popular, aberto, e quis trazer escritas populares no sentido da identificação. São histórias que aconteceram comigo, com os outros compositores, todas reais e focadas nessa coisa de que o amor é que subverte esses dias ruins”, explica. Com versos como “Alegria, de repente/ Porque vou te ver amanhã/ Coisa mais bonita não se sente/ Acordar ao teu lado” (Alegria) ou “Esse amor/ Que não prende e não tem medo/ Só pode ser viver/ Esse viver/ Que deixa viver” (As Voltas), Mahmundi canta diferentes tipos e fases de relacionamentos. “Essas histórias são de várias formas de casais. O amor é uma linguagem universal. Precisamos deixar isso explícito e não focar só no romance clássico, porque ele não abrange todo mundo”, defende.

Além do afeto nas composições, outro ponto crucial para a artista foi o momento de trocas e aprendizados pelo qual passou e vem passando. Com a mudança para uma grande gravadora, Mahmundi usou a experiência para aprender. “Eu precisava colar com uma galera assim, mulheres mais velhas, mais experientes. Eu estava mais no lugar do aprendizado, do desenvolvimento”, afirma. “Tenho entrado em contato com vários compositores, o que me faz ver outras possibilidades, outros Brasis, saindo da bolha de achar que só as nossas coisas são maneiras”, contrapõe.

“Isso traz maturidade. Eu realmente quero ser uma produtora musical, trabalhando com afinco e servindo meus amigos e amigas. O disco foi um momento de estudar, de estar junto no processo da produção musical e me aventurar. Isso ajuda a gente que tá no começo da carreira, que veio de um lugar periférico. Eu aprendi tudo muito sozinha. Fazer essa pesquisa e aprimorar esses conhecimentos foi fundamental, pude ver que sou capaz, me deu coragem”, celebra.

Nesse contexto de aprendizado, surgiu na vida de Mahmundi uma relação profissional, formativa e afetuosa com Fortaleza: a artista é tutora no Laboratório de Música do Porto Iracema das Artes do projeto Arquelano: ainda sou um ponto, de Benjamin Arquelano, Emília Schramm e Théo Fonseca Torres. “Quando eu recebi o convite, estava passando por esse período complicado no Rio, na vida pessoal, e vir a Fortaleza, encontrar o pessoal, foi muito especial. Encontrei também muitas mulheres falando de som, a cidade, o carinho, o projeto em si… Me senti sendo útil ali, e é legal quando você consegue se permitir estar próximo ao outro”, afirma. “O trabalho é muito legal, o Arquelano é um menino muito especial, o pessoal é muito ligado, plural. Eu tô muito feliz por encontrar pessoas que gostam do que fazem, que têm seus sonhos, passam por dificuldades, mas mantém o projeto vivo”. Para dias ruins, esperança.

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