
Foto: Ricardo Borges/ Divulgação
Por Camila Holanda
Moraes Moreira fez do gostar pela literatura de cordel um ofício. Apesar de ser uma influência antiga, o cantor, compositor e músico passou a incorporar o gênero em seu trabalho musical e literário apenas ultimamente. Nos palcos, ao celebrar os anos de convivência e a parceria dos Novos Baianos, narrou e narra a história do grupo antológico, recitando versos que encantam o público.
O compositor também chegou a escrever o livro A História dos Novos Baianos e Outros Versos, em formato de cordel. Recentemente, o trabalho foi relançado e, logo depois, veio à tona o novo disco Ser Tão, em que Moraes, aos 71 anos de idade, reafirma sua afinidade pelo gênero e mostra como se renova após mais de cinco décadas de profissão.
No último 19 de setembro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu a literatura de cordel como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. “Poetas, declamadores, editores, ilustradores, desenhistas, artistas plásticos, xilogravadores, e folheteiros, como são conhecidos os vendedores de livros, já podem comemorar, pois agora a Literatura de Cordel é Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro”, anunciou o órgão. Uma demanda antiga se torna realidade, reconhecendo e resguardando o trabalho de centenas de brasileiros.
Apesar de ter começado no Norte e no Nordeste do País, contextualiza o Iphan em nota, o cordel hoje é disseminado por todo o Brasil, principalmente, por causa do processo de migração de populações. E Moraes explica um pouco dessa história em seu novo disco, na música Origem: “Cordel chegou, foi pra feira, mais tarde, pra academia”, narra, mostrando que a cultura popular outrora fadada à informalidade se consolida com o passar do tempo. O fortalecimento do estilo se arvora em importantes fatores, como a criação de uma Academia Brasileira da Literatura de Cordel (nos anos 1980), o reconhecimento pelo Iphan como patrimônio, os diversos eventos que se disseminam pelo País, além da resposta do mercado editorial, que tem publicado cada vez mais obras deste universo. O cordel deixa a pecha de ser considerado uma “arte menor”.
Nesta passagem de cantor para cantador, amadurecida em Ser Tão, o trovador Moraes Moreira defende o estilo, sem deixar de lado os ritmos que o tornaram ícone da música brasileira. No disco, além de assumir essa nova vertente – ora cantada, ora falada -, Moraes se entrelaça com outros estilos musicais, como o frevo, que aparece na última faixa do disco, intitulada Alvorada dos Setenta. Em O Nordestino do Século, o baiano narra a vida de Luiz Gonzaga e fala da importância do Rei do Baião como um “oráculo’, tudo isto ao som da sanfona de Rafael Meninão. A balada Amor e Arte é a que mais tem cara de hit no disco, sendo uma canção mais redonda, como o grande público de Moraes está acostumado. “Da minha e da sua parte/O todo se manifesta/Fazemos amor e arte/Nosso viver é uma festa”, canta o baiano, com a característica voz anasalada, acentuada com o passar do tempo.
https://www.youtube.com/watch?v=3U6Abj8iO4g
Em A História dos Novos Baianos, Moraes conta que, durante a passagem pelo grupo, dedicou-se exclusivamente à musicalidade, sendo cantor,compositor e instrumentista. A maior parte das letras musicadas por Moraes era assinada por Luiz Galvão. Mas isto não impediu que o músico desenvolvesse um trabalho em poesia. Pelo contrário. Desde a infância, de seu modo, o novo baiano sempre foi afeito aos versos, sabendo de cor poemas de Casemiro de Abreu, Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Castro Alves e outros. O gostar foi ampliado na juventude, por influência do irmão poeta. E, agora, o cordel deixa de ser um flerte na trajetória de Moraes, que já conta mais de 50 anos. Ele assume os versos como caminho fundamental de seu itinerário.
Ser-tão
1a. Sambadô (Moraes Moreira)
1b. Deixa o Pé no Chão (Moraes Moreira)
2. De cantor pra cantador (Moraes Moreira)
3. Origens (Moraes Moreira)
4. I am the captain of my soul (Moraes Moreira)
5. Amor e arte (Moraes Moreira)
6. Evolução (Moraes Moreira)
7. O Nordestino do Século (Moraes Moreira)
8. Nas paradas (Armandinho/Moraes Moreira)
9. Alvorada dos Setenta (Moraes Moreira)
Moraes Moreira – Ser Tão
9 faixas
Discobertas
Preço médio: R$ 21,90