Discografia

Titãs refazem Acústico MTV em formato intimista hoje no Teatro RioMar

Foto: Silmara Ciuffa/ Divulgação

Fazer um passeio pela discografia dos Titãs até 1997 é se deparar com uma série mudanças de rotas e ideias, ora bem executadas, ora nem tanto. Do som pop inocente, típico dos anos 1980, com um toque de romantismo aqui e acolá, eles encararam o “estado violência” num disco virulento e agressivo. Daí passaram por uma fase mais cáustica, que poderia misturar o coco de Mauro e Quitéria com o funk-rock industrial de Comida e Corações e Mentes. No meio desse caminho, ainda teve espaço para experimentações sonoras e poéticas como Clitóris, Nome aos Bois, Um caroço na Cabeça e O Camelo e o Dromedário.

Assim sendo, não deveria ser uma surpresa se o então octeto paulista anunciasse uma participação no programa Acústico MTV. Mas o fato é que surpreendeu. Transportar o repertório acumulado em 13 anos para um ambiente de cordas e sopros, com direito à harpa de Cristina Braga, arranjos de Jacques Morelembaum e percussão de Marcos Suzano fez o público lançar um novo olhar para o octeto que engatou numa bem sucedida turnê nacional – que contou com boa parte desse arsenal sonoro. Vinte anos depois, o público cobrou dos Titãs uma celebração daquele que foi o álbum mais vendido deles (e da série Acústico MTV).

Hoje resumidos a Branco Mello, Tony Bellotto e Sérgio Britto, os Titãs resolveram atender o público e montaram um formato bem intimista pra celebrar o aniversário do seu projeto mais opulento. “Somos só nós três, uma guitarra acústica, um piano, um baixo. A gente relembra muitas das canções do Acústico e outras que vieram depois, como Epitáfio, Enquanto houver sol, Isso, que eu to cantando”, resume Bellotto, por telefone. “Já que a ideia era um show em formato despojado, a gente conversa muito, conta histórias das músicas. É uma coisa muito rara, muito diferente, que a gente nunca tinha feito”, continua.

O projeto do canal de TV a cabo já fazia sucesso no exterior e começava a ganhar espaço no Brasil. Lá fora, gente como Stevie Ray Vaughan, 10.000 Maniacs, Tony Bennett, Aerosmith e Elton John já haviam participado do Unplugged que, até então, era só um programa de TV. Um ou outro ganhou registro em CD, LP e VHS, começando pelo de Paul McCartney. Por aqui, o projeto foi ganhando popularidade até acertar no formato. O Barão Vermelho estrou o projeto, mas não lançou em disco. João Bosco lançou em disco, mas não usou a marca do programa, limitando-se a chama-lo só de Acústico. E Gilberto Gil tomou emprestado a marca estrangeira para batizar seu Unplugged, lançado em CD e, bem depois, DVD. E tanto lá como cá, a ideia era que tudo soasse o mais despojado possível, sem muita produção.

Ao toparem participar no programa, os Titãs acabaram por criar um formato que virou a marca do projeto no Brasil. Dali em diante, era regra ter muitos convidados, músicos de apoio, orquestra, e registrar tudo em CD e DVD. “Nosso Acústico MTV foi um marco muito grande pro fãs, pros ouvintes e pra gente também. Não só pelo sucesso que o disco fez, mas por que a gente conseguiu ouvir a música da gente de outra maneira. Geralmente, a gente mal ouvia as letras. Quando a gente botou naquela roupagem acústica, a gente viu que as músicas poderiam ser curtidas daquele jeito e a gente pode ouvir melhor as letras”, avalia Bellotto.

O guitarrista lembra bem da insegurança que rondava o projeto, junto com a vontade de fazer algo diferente. “Já naquela época a gente vinha sendo cobrado de fazer um acústico. E a gente dizia ‘ah, mas a gente não é uma banda acústica, a gente não se adéqua. Então decidimos: vamos fazer um coisa diferente, inusitada. Lembro que quando a gente optou pela orquestra, pensamos em instrumentos diferentes. O que me marcou muito foi a ousadia, foi ver como aquilo deu certo. Foi uma confirmação que vinha desde o Cabeça Dinossauro, de que nossos melhores resultados são quando a gente ousa”.

E uma das passagens mais curiosas está na seleção de convidados do show que foi registrado no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, nos dias 6 e 7 de março de 1997. Seis anos depois de sair para se dedicar à carreira solo, Arnaldo Antunes voltava para cantar com os companheiros. Rita Lee e Roberto de Carvalho, não puderam estar presentes no dia do show, mas registraram sua participação – uma versão folk deliciosa de Televisão – em estúdio. Convidada para cantar Miséria, Maria Bethânia deu pra trás quando ouviu os músicos dizerem numa entrevista que a escolheram porque queriam uma “cantora romântica” no show. Marina Lima engasgou quando teve dizer a palavra “pança” ao recitar Cabeça Dinossauro. Para Tony Bellotto, uma presença que superou as expectativas foi Jimmy Cliff. O jamaicano dividiu os vocais de Querem Meu Sangue, versão de The Harder Day Come feita por Nando Reis para o disco de estreia dos Titãs. “A presença do Jimmy Cliff foi uma coisa inacreditável. Depois do Bob Marley, é o cara que mais ajudou a divulgar o reggae pelo mundo. Aí você imaginar estar tocando e aquele cara ali do lado”, emociona-se.

Um convidado que declinou de participar do Acústico MTV, mas acabou se aproximando da história da banda por outros caminhos foi Roberto Carlos. Após o estouro nacional do disco, os Titãs buscaram formas de se manter no auge e lançaram Volume Dois, outro disco de pegada acústica, mas feito em estúdio e sem a chancela da MTV. Um dos grandes sucessos daquele álbum foi É preciso Saber Viver (com direito a vocais do Fat Family), composição de Roberto com seu parceiro Erasmo Carlos lançada no disco do Rei de 1974. “Era uma música que estava meio esquecida. Com a gravação da gente, ela virou um hit de novo e até hoje ele toca nos shows”, comemora Tony Belloto que, três anos depois, foi convidado para participar do Acústico MTV de Roberto Carlos. Os Titãs voltariam a se aproximar de Roberto outras duas vezes: a primeira do disco As 10 Mais (com Querem Acabar Comigo) e no MTV Ao Vivo. “A gente queria muito gravar eu Quero Que Vá Tudo Pro Inferno. Como eu tenho uma proximidade com o Roberto, a banda me designou pra ligar pra ele e pedir pra liberar a música. Eu dizia que muito provável que ele não vá liberar, mas a gente montou uma estratégia. Eu não ia ligar pra ele e falar a palavra inferno. Então eu liguei e disse ‘Roberto, a gente quer gravar sua música ‘eu quero que você me aqueça nesse inverno’. E ele disse: ‘peraí, bicho. Eu vou até sentar’”, ri o músico que, já prevendo o não, foi para a segunda opção da banda que era O Portão.

Para Tony Belloto, as diferenças entre o Acústico de 1997 e agora são evidentes. De lá pra cá, eles perderam Marcelo Fromer, falecido num acidente de trânsito em 2001, além de Nando Reis, Paulo Miklos e Charles Gavin, que partiram para a carreira solo. “Essa foi uma questão. Quando a gente começou a pensar nessa celebração, pensamos em várias possibilidades. Fazer com orquestra, alguma coisa mais parecida com aquilo. A banda era mais numerosa, pra repetir aquilo que era tão grande, tão gigantesco, era inviável. Então pegamos a essência, o que está por trás. Sem orquestra, sem convidados. E, mesmo sem tanta gente, a gente tenta fazer os arranjos como foram concebidos. Acho que ficou rico porque ficou diferente, ficou mais uma coisa na nossa obra. É uma coisa nova dentro de tudo o que a gente já fez”.

Hoje próximos dos 60 anos, Branco, Sérgio e Tony sabem que a energia precisa ser melhor aproveitada em cada projeto. Com 37 anos de carreira e muitas mudanças, os Titãs seguem buscando formas de sentir prazer no que fazem. Atualmente, pra se ter uma ideia, eles viajam com três projetos: uma turnê de sucessos (Enquanto Houver Sol), uma ópera rock (12 Flores Amarelas) e a de comemoração do Acústico MTV. “Eu gosto muito de várias das nossas fases. O sucesso do Acústico foi tão grande que a gente quis prolongar um pouco mais. Mas as coisa andam e a gente faz muito o que tem vontade de fazer. Isso é muito legal da gente. Eu vejo agora que essas fases, cada uma tem um sentido. Tudo Ao Mesmo Tempo Agora foi um disco radical, o show deu prejuízo pros contratantes, mas foi importante”, conta Tony acrescentando que um show apenas com três músicos no palco exige maturidade. “A gente tem uma imagem consolidada, de uma banda de rock, transgressora. Mas a gente está completando 37 anos de carreira e tem uma maturidade pra tocar as músicas na essência. É um jeito de você curtir e pensar a música de outra maneira”, encerra.

Titãs Acústico
Quando: hoje, 7, às 20 horas
Onde: Teatro RioMar Fortaleza (rua Lauro Nogueira, 1500 – Papicu)
Quanto: de R$ 70 a R$200. À venda no site Uhuu e no local
Telefone: 3066 2000

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