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“Espero que não seja tarde para a Cultura”, torce Thiago Mattar, diretor do documentário “O Barato de Iacanga”

Cena do filme “O barato de Iacanga”, disponível no Netflix

Já no catálogo da Netflix, o documentário O Barato de Iacanga é uma excelente dica pra quem gosta de música. O filme narra a história heroica e mambembe do festival de Águas Claras, evento criado por acaso por um grupo de amadores, mas que tornou-se história como o nosso próprio Woodstock. Dirigido cuidadosamente por Thiago Mattar, o filme traz imagens da plateia e do palco, ambos livres, leves e soltos, tudo tirado de arquivos preciosos. Para se ter uma ideia, as quatro edições do festival (1975, 1981, 1983 e 1984) reuniram gente do brilho de Erasmo Carlos, Egberto Gismonti, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil e João Gilberto. Sim, o papa da bossa esteve no meio daqueles malucos que andavam nus consumindo todo tipo de alargador de pensamento. E pelo sorriso do rosto, João, que estava voltando a fazer shows no Brasil, gostou da experiência.

Confira um bate-papo exclusivo do DISCOGRAFIA com o diretor Thiago Mattar:

DISCOGRAFIA – Como surgiu essa vontade de mergulhar na história do Festival das Águas Claras?
Thiago Mattar – Cara, surgiu há mais de dez anos, quando, numa conversa despretensiosa com meu pai, ele me contou dessas aventuras malucas em Iacanga. Ele morava na cidade quando criança e foi nos dois primeiros festivais. Lembrava pouco. Mas conhecia e me colocou em contato com o Leivinha quando eu tinha 20 anos. Quando conheci o lendário fundador do festival pessoalmente e ele me contou a história, não acreditei. Eu nunca tinha ouvido falar naquilo! Como não havia nada sobre aquilo? Virou minha missão dali em diante contar aquela história. Eu me mudei do interior de São Paulo e comecei uma busca insana por arquivos, relatos e personagens, o que acabou me levando a conhecer dezenas de artistas e produtores que me ajudaram a transformar o sonho em realidade. O caminho foi longo até a produtora paulistana bigBonsai e o documentarista Marcelo Machado. Sem eles o filme não teria saído e tido esse retorno tão incrível do público.

DISCOGRAFIA – Queria que você contasse como foi o processo de pesquisa de imagens e reunião de entrevistas. Por onde começou? O que foi fácil e o que deu mais trabalho?
Thiago Mattar – Nada é fácil quando a gente trabalha com algo que aconteceu há tantos anos. Agora mesmo o primeiro festival completou 45 anos! É muito tempo. A memória das pessoas já estava apagando. As fitas e os filmes então… nem se fala. Havia muito pouco com o que trabalhar. E a qualidade não era das melhores. Acredito que junto com a equipe fizemos o melhor com o que tínhamos em mãos. Comecei a pesquisa de modo independente, ainda moleque, durante a faculdade – eu estudei jornalismo – e a coisa foi ficando mais profissa de uns cinco anos pra cá; e melhor ainda quando entrou a produtora e tivemos finalmente financiamento via Canal Curta! e Fundo Setorial do Audiovisual, que possibilitaram a realização do filme. Mas antes disso, eu entrevistava artistas em quartos de hotel, na casa dos amigos – dos deles, claro. Chamava gente que eu conhecia e que podia emprestar câmera e topava ir comigo gravar. Muita coisa que você assiste é do meu arquivo pessoal até! De tanto tempo que eu vim juntando material, parece coisa que eu peguei de uma emissora de TV. Algumas coisas são mesmo. Deixo pro público descobrir.

DISCOGRAFIA – Sendo um festival que envolveu bandas iniciantes e gigantes como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e João Gilberto, como foi o trabalho de pós-produção e liberação de imagens?
Thiago Mattar – O trabalho mais minucioso foi de tentar recuperar muita coisa do arquivo. Tentar trazer o melhor som de cada um dos shows e dos registros de bastidores do festival. Teve muita coisa que tivemos que buscar de fontes diferentes. Por exemplo: unir a imagem de uma VHS com o som de uma fita k7 que tinha o áudio daquele show. Ou unir o som da mesa com a câmera de alguém que filmou com o equipamento que não tinha captação de som. Enfim, foi como brincar de montar um quebra-cabeças. A liberação das imagens foi negociada com as televisões e com os artistas e familiares, como manda o protocolo aqui no Brasil. Não podíamos usar nada sem autorização ou o filme não seria lançado ou comercializado. Foi um trabalho bastante intenso de negociar com uma centena de pessoas. Super cansativo e levou boa parte do nosso orçamento. As produtoras Bruna Rodrigues, Camila Nunes e Deborah Osborn foram extremamente competentes nesse trabalho e me pouparam de bastante estresse.

DISCOGRAFIA – Claro que o depoimento do Leivinha é fundamental para o filme, uma vez que trata-se do cabeça do evento. Fora ele, qual depoimento te surpreendeu mais?
Thiago Mattar – Mais do que os depoimentos, fiquei muito surpreso com os documentos secretos que encontramos e que revelavam muito sobre o impacto político que o festival tinha causado na realidade brasileira daquele período. Após tantos anos pesquisando, foi de dois anos pra cá que isso começou a aparecer pra mim durante a pesquisa nos arquivos do antigo DOPS, que hoje estão guardados no Acervo Público do Estado de São Paulo e finalmente digitalizados e disponíveis para consulta. Todo mundo fichado no DOPS. Relatórios e mais relatórios sobre a família do Leivinha e os produtores do Festival de Águas Claras. Essa galera assustava os milicos de verdade. O que esse bando de malucos está tentando fazer? Hahaha

DISCOGRAFIA – Das histórias que você ouviu, qual te impressionou mais e por que?
Thiago Mattar – Até hoje, foi a jornada desse cara, a do Leivinha, que sempre me impressionou mais. E foi a história que ele me contou há mais de dez anos que eu quis transpor para a tela.

DISCOGRAFIA – O Festival teve um primeiro momento mais mambembe, feito por gente inexperiente (como foi o próprio Woodstock), e um segundo mais ousado, com direito a transmissão pela TV inclusive. Ter crescido sem uma estrutura mais profissional foi determinante para ele não ter uma história mais longa?
Thiago Mattar – Não sei responder essa pergunta. Acredito que a ingenuidade e o espírito de “faça você mesmo” – verdadeira herança hippie – realmente guiaram a coisa toda. A grana contaminou um pouco esse espírito. Imagina o que é aprender fazendo e segurar a onda por três edições? Na quarta, o Leivinha, a família e alguns dos produtores originais tiveram ajuda, mas a ajuda de uma galera que não tinha nada a ver com aquele espírito. Empresários só sintonizados no barato da grana. Economizaram onde não deviam e fizeram na época errada. Uma somatória de fatores que causou o fim.

DISCOGRAFIA – Como foi exibir o documentário em Iacanga? Como foi a reação do público?
Thiago Mattar – Foi completamente mágico. Surreal. Imagina uma sessão ao ar livre com a galera sentada na grama e outra galera nas arquibancadas do estádio cantando Não Chores Mais junto com o Gil. Foi bem louco. Talvez tenha sido a cerveja. Mas eu me emocionei.

DISCOGRAFIA – Você consegue imaginar um festival como esse, com um elenco dessa qualidade, nos dias de hoje no Brasil? Se fosse haver uma edição 2020 do Festival das Águas Claras, que artistas não deveriam faltar, na sua opinião?
Thiago Mattar – 2020?? Muito perto!! Mas é o ano que o festival faz 45. Seria tão bonito. Eu era mais cético quando essa pergunta de um novo festival aparecia pra mim antes do filme ser lançado. Hoje, quer saber, eu até imagino sim. Acredito que a marca do Festival de Águas Claras está mais forte. Muita gente torce por isso… Quem sabe um dia os produtores originais não se juntam com uma galera boa para uma quinta edição? Eu estarei lá. Só tomar cuidado porque a galera hoje em dia é bem mais gourmet. Curte festival com conforto. Essa de acampar e passar perrengue na lama praticamente sem comida, banheiro ou banho por três dias pode não soar muito romântico para muita gente. Nos anos 1970 tava tudo certo! Se voltar agora, essas preocupações estarão em pauta. Para Águas Claras V não virar o nosso Fyre Festival. Sugerir bandas é fácil. Fora do mainstream tem muita coisa boa…. O Edgar, a Josyara, André Abujamra, Don L, Giovani Cidreira, Karina Buhr, Jonnata Doll & Os Garotos Solventes… Mas nem vou viajar. É o Leivinha quem vai escolher o line-up. E, se depender dele, vai ter tudo quanto é estilo, música instrumental, muito mais loucura. De manhã, à tarde e à noite.

DISCOGRAFIA – Particularmente, foi muito emocionante ver o filme retratar um Brasil que dá um jeito de dar certo, um tempo que já não existe mais, mais ingênuo, mais aberto às misturas. Que lições você tirou com esse filme? As histórias que você ouviu te ensinaram alguma coisa?
Thiago Mattar – Que se você acredita que vai fazer uma coisa, não tem nada que te impeça de fazer. E só comprovou pra mim que os anos 1970 e 80 foram f$&@ pra car$&)@“!!.

DISCOGRAFIA – O Brasil é muito ruim em contar sua própria história. Poucos são os registros de eventos culturais, mesmo sendo um da magnitude do Rock In Rio. Que legado o Festival das Águas Claras deixou para o Brasil?
Thiago Mattar – Concordo em parte. Vou primeiro falar do legado. Você falou do Rock in Rio. Se esse evento existe é porque uma galera se reuniu dez anos antes nessa fazenda no interior de São Paulo enfrentando a mais hostil realidade pra fazer o nosso primeiro festival ao ar livre de grandes proporções! E levou gente pro meio do nada! Sem GPS, sem nada! O Rock In Rio deve tudo ao Festival de Águas Claras. E o legado que ficou foi o da coragem. Ficou a lenda. Sobre os registros: o Rock in Rio tem registro pra diabo. Por mérito da TV Globo. Os caras tem tudo. O RIR sempre teve muita grana desde o nascimento. Cresceu de uma super parceria comercial entre o Medina e a Globo. O baita marketing envolvido em construir o nome através das décadas é todo mérito da Globo. E a preservação do acervo também! Está tudo lá. Agora, pergunta lá dentro do Festival de Águas Claras em Iacanga. Não tinham praticamente nada nos arquivos. Sim, quando não há grana envolvida, simplesmente não há interesse cultural em se preservar memória no País. É triste. Desesperador. Veja a Cinemateca Brasileira, por exemplo, que deveria estar fazendo um trabalho de digitalização e restauração em 4K de tantas obras clássicas do nosso cinema nacional. Isso soa muito europeu aqui. É bem mais capaz do Scorsese fazer isso por nós lá fora, aproveitando cópias europeias – e espantosamente mais bem preservadas – dos nossos próprios filmes. Estamos bem longe dessa realidade. Bem longe. Estamos mais perto das traças e do fogo. Infelizmente. Espero que num futuro próximo, após a repetição de tantos erros do passado, a gente finalmente entenda aqui no Brasil que não há nada mais importante do que preservar a nossa memória. Espero que não seja tarde para a Cultura. Que quem vota nesse país não esqueça dela.

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