Discografia

Aos 57 anos, morre o contrabaixista cearense Jerônimo Neto

5 2

Matéria escrita pelo jornalista e produtor cultural Dalwton Moura

O baixista cearense Jerônimo Neto morreu aos 57 anos (Foto Lucas Benedecti/ Divulgação)

A música brasileira perdeu nesta segunda-feira, 20/4, o talento do contrabaixista cearense Jerônimo Neto. Um dos mais queridos e respeitados nomes entre os colegas músicos de Fortaleza, Jerônimo se despediu, aos 57 anos, em Fortaleza, após lutar contra o câncer, em uma batalha em que amigos músicos se somaram ao apoio e à coragem de familiares como a mãe, Nely Vianna, a esposa, Diane Carvalho, e as filhas Gabriela Maria, Caroline Maria e Ana Beatriz.

Com grande versatilidade, marcante bom-humor, humildade, estudo, prática e obstinação, Jerônimo Neto, que tocava contrabaixos acústico e elétrico, foi um dos grandes artistas de Fortaleza no jazz, na música erudita, na música popular, na música regional, entre outras expressões. Era conhecido pelos espectadores de TV desde sua participação no programa Estúdio A, com Raimundo Arrais e Ayla Maria, na TVC, no começo dos anos 1990, e mais tarde na TV Diário.

Graduado em Música pela Universidade Estadual do Ceará, com especialização em contrabaixo, atualmente integrava a Orquestra Filarmônica do Ceará, regida pelo maestro Gladson Carvalho, a Big Band Unifor, regida pelo maestro Robson Lima, e a Orquestra Sinfônica da Uece, regida pelo maestro Alfredo Barros. Também marcou época na Orquestra de Sanfonas do Ceará, grupo com o qual gravou um DVD no foyer do Theatro José de Alencar, e na Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho.

Jerônimo também era professor de contrabaixo, fazendo do instrumento uma paixão à qual dedicou praticamente toda a vida e contribuindo para a formação de várias gerações de músicos. Além de ministrar aula particulares, lecionou no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Além das tantas atividades musicais, era servidor da Prefeitura de Fortaleza, da área administrativa do Instituto de Previdência do Município (IPM).

Além de ser aplaudido em vários festivais, como o Jazz & Blues, Fortaleza Instrumental, Cover Bass, Jerônimo também dividiu palcos e estúdios com inúmeros músicos cearenses. Mais recentemente, com artistas como o compositor e multi-instrumentista Luciano Franco, o pianista Edson Távora, a cantora Anna Canário, entre vários outros. Em fevereiro de 2019, esses e outros colegas, como Edinho Vilas Boas, Pedro Façanha, Robson Gomes, Paulinho Santos, promoveram shows beneficentes, em prol do tratamento de Jerônimo, em espaços como o Fuxico Beer e a barraca América do Sol.

Jerônimo: música, bom-humor, felicidade

“Que a imagem do meu pai seja passada com muita alegria, com muita felicidade, com muito orgulho do homem que ele foi, do profissional que ele foi, do músico grande, maravilhoso que durante a minha vida todinha ele foi”, disse nesta noite a filha, Gabriela Carvalho.

“Jerônimo é um amigo de quase 40 anos de convivência, muito querido. Fizemos muitos trabalhos juntos. Gravamos, fizemos muitas viagens. Uma pessoa calma, sempre disponível aos amigos, sempre com a amizade em primeiro lugar. É uma perda muito grande para a nossa tão sofrida música cearense. Nosso amigo Jerônimo vai deixar muita saudade e uma lacuna muito, muito grande”, ressalta o maestro Luciano Franco, um dos que mais vezes dividiram palcos e estúdios com Jerônimo Neto.

Perdemos hoje em Fortaleza um dos maiores músicos do Nordeste, Jerônimo Neto, contrabaixista que tocou praticamente com todos os artistas de Fortaleza, tocou em várias orquestras, teve um trabalho muito importante na formação de novos músicos, na parte didática. Vai fazer muita falta ao meio musical cearense”, ressaltou o colega contrabaixista Adriano Giffoni, cearense radicado no Rio de Janeiro.

“Além de um grande músico, era um cara muito gente boa. Sempre bem-humorado”, registra o cantor e compositor Gilmar Nunes. “Jerônimo foi o nosso herói! Baixista de primeira linha! Acompanhou os artistas cearenses mais consagrados e as várias orquestras, entre elas a Sanfonas do Ceará”, lembrou o compositor e coordenador da orquestra, Cumpade Barbosa.

“Fiz muitos shows com Jerônimo, no começo da minha carreira. Estamos muito tristes com essa notícia”, acrescenta o cantor e compositor Isaac Cândido. “Um grande baixista, que marcou época na nossa música. Lamentável! Perdemos em tão pouco tempo três grandes músicos na nossa cena. Grande Jerônimo!”, destacou o flautista e compositor Fernando Abreu, lembrando também as recentes partidas do clarinetista Giltácio Santos e de Chico do Cavaco.

“Ficamos com a lembrança de seu talento, amizade e simpatia”, diz o violonista e professor Rogério Lima. “Um grande baixista! Muita, muita tristeza essa despedida”, ressalta a cantora Idilva Germano. “Que nosso querido amigo descanse em paz”, disse o colega contrabaixista Claudio Miranda. “Vai deixar muitas, muitas saudades”, destacou o baterista Paulinho Santos.

De Ron Carter a Marcus Miller, de Abe Laboriel a John Patitucci

O pianista Edson Távora Filho e a cantora Anna Canário, dois dos músicos que também trabalharam com Jerônimo por muitos anos, também destacam que, além de um grande instrumentista, perdemos “um cara do bem”.

“Ele era a alegria dos graves! Alegre, animado, gostava de fazer um som legal, caprichava na qualidade de som. Perfeccionista, gostava de bons instrumentos. Levava tudo numa boa, com um clima sempre muito bom entre a gente tocando”, recorda Edson Távora. “Era um admirador de grandes baixistas, como Ron Carter, Marcus Miller, Abe Laboriel, John Patitucci, músicos da melhor qualidade, que influenciaram muito a linha do Jerônimo. Gostava de pianistas também, como Chick Corea, Herbie Hancock, Bill Evans”, detalha Edson, citando ainda a dedicação do amigo a tentar reorganizar a Ordem dos Músicos do Brasil, no Ceará, e a formar novas gerações de músicos .

“Uma coisa que sempre acontecia nos nossos trabalhos é que ele brincava fazendo, no final do show, uma paródia de grandes artistas, falando ‘Tchau, Fortaleza’, como se a gente estivesse em um grande palco, mesmo que estivéssemos em um palco mais simples. Era muito engraçado”, conta Edson. “Pra mim, uma perda muito grande, deste parceiro musical meu e da Anna, com quem a gente teve ótimos momentos no palco, sempre procurando fazer música de boa qualidade e levar alegria às pessoas. Era isso que o Jerônimo fazia”.