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Coluna Mimi Rocha: Tocando de ouvido

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O termo “autodidata” define a pessoa que tem a capacidade de aprender algo sem ter um professor ou mestre lhe ensinando ou ministrando aulas. Levando isso pra música, é como chamamos o músico que “toca de ouvido”.

Boa parte dos músicos que conhecemos e ou gostamos, de certa forma começou assim sua caminhada nessa arte, alguns atingindo um patamar técnico respeitável que solidificou a sua carreira, enquanto outros, se valendo da facilidade inicial, estudaram e conseguiram entender teoricamente o que já sabiam.

Aqui na terrinha eu tenho uma admiração grande por alguns desses mestres, em especial os de cordas. Zivaldo Maia, Carlinhos Patriolino, Tarcísio Sardinha e Ribamar Freire representam bem essa turma que não tinha o YouTube ou downloads de PDFs pra facilitar o aprendizado.

Zivaldo, nascido, em Jaguaruana se iniciou no cavaquinho aos sete anos e já identificava acordes errados em músicas que gostava ouvindo músicos mais velhos tocar, e nas transmissões das rádios do Rio de Janeiro em programas de choro.

Carlinhos veio de uma família musical (o pai Carlos era compositor), aos seis anos aprendeu o Ré maior (acorde no violão) enquanto também aprendia flauta doce e cavaquinho logo em seguida.

Ribamar também vinha de muita escuta musical em casa, onde o pai (técnico em rádio) tinha um gosto apurado – assim como os outros – para o choro e música brasileira. E o menino de nove anos já dedilhava o cavaquinho, chegando a ganhar prêmio em programa de rádio.

Sardinha começou cedo com violão, passando depois para o cavaco, guitarra e bandolim, e aos 13 anos já estava nos palcos, se tornando já um fenômeno, aos 15, como solista de cavaquinho.

Já vimos que a cena de rodas de choro foi unanimidade entre os quatro. Patriolino, então com 11 anos, era levado pelo pai todos os domingos a uma roda de choro e tocava sempre um choro novo com os “coroas” já experientes. Num desses dias, um dos músicos lhe sugeriu afinar o cavaco como bandolim (E/A/D/G) que lhe facilitaria a execução, nascia aí o grande bandolinista que hoje admiramos.

Ribamar, já no começo da adolescência e tocando violão em serestas, foi convidado para tocar guitarra no conjunto Embalo 5, no repertório, rock, iê iê iê e sucessos da época.

Tarcísio começou também a diversificar tocando guitarra em bandas de bailes e acompanhando cantores, deixando o cabelo crescer e indo de rock, pop etc…

Zivaldo após uma passagem por Aracati e, depois do cavaco indo pra bandolim e até banjo, finalmente chega ao violão (instrumento que, segundo ele, não precisaria de mais nada ou ninguém) e começou a impressionar quem o ouvia e via tocar. Muito influenciado pelo que vinha ouvindo dos mestres Dino 7 cordas, Meira (violão de 6 cordas) já era requisitado como solista e acompanhante na capital Fortaleza.

Em comum entre os quatro destaco o ouvido excepcional, conhecimento extraordinário de repertório, capacidade de se adaptar a qualquer “fogueira” (como dizemos no jargão musical), facilidade de tocar em qualquer tom e, acima de tudo, excelência técnica nos seus respectivos instrumentos.

Carlinhos, após ser garimpado por Ednardo ainda bem jovem, participou da Massafeira, onde começou a tocar guitarra, virou um músico requisitado por todos cantores da Cidade, se aperfeiçoou em música (leitura de cifras e partituras) e, a convite de Amelinha, foi passar uma temporada longa no Rio de Janeiro, onde tocou e gravou com artistas do quilate de Sandra Sá, Zelia Duncan e Emílio Santiago. De volta a Fortaleza em meados dos anos 1990, se dedicou à carreira solo com ênfase no bandolim e gravou os discos Rabisco, Sambopeando (com pianista carioca João Braga), Brazuca (com banda Brazuca) e Vivências.

Ribamar conheceu o violão de sete cordas através dos mestres Pedro Ventura e Zé Renato, e se tornou o grande nome da cena de samba e choro de Fortaleza, tendo acompanhado Roberto Silva, Noite Ilustrada, Evaldo Gouveia, Altamiro Carrilho, além de integrar os “regionais “ dos principais programa musicais de TV locais.

Sardinha, carinhosamente conhecido como “Bebê”, é uma unanimidade na Cidade quando se fala de música, com o violão de 6 e 7 cordas, cavaco, bandolim, guitarra, teclado ele joga em todas. Sempre produzindo muitos artistas em estúdio, shows e com largo currículo: Silvio Caldas, Altamiro, Dominguinhos, Fagner, Belchior, Fausto Nilo, Yamandu Costa, Falcão, Eliane. Ele também se aperfeiçoou, tendo estudado violão clássico na universidade de João Pessoa. Como solista, lançou os discos: Carlinhos Patriolino e Tarcísio Sardinha ao vivo, Brasileirando (disco autoral), Choro (Sardinha toca todos os instrumentos, exceto pandeiro). Foi lançado recentemente um songbook com suas composições.

Zivaldo se consagrou como um solista de violão com um estilo único que junta sofisticação melódica e harmônica ao seu toque suave, sendo reconhecido por grandes apreciadores da arte e músicos mais jovens. Lançou os discos Zivaldo Puro e Simples, O violão de Zivaldo e Zivaldo Canta. Ele destaca em sua obra a composição Escalada, considerada por muitos de difícil execução e que integra um livro de partituras para violão a ser lançado na Alemanha.

Ver ou ouvir esses quatro mestres tocar nos deleita com essa arte que hoje já é uma raridade.

2 Comentários

  • Rita Greene disse:

    Parabéns Mimi Rocha , estamos aprendendo muito com sua coluna, excelente.

  • Newton Padilha disse:

    A qualidade da matéria desse grande amigo e não menos extraordinario Mimi Rocha , um artista de grande sensibilidade musical teria que desaguar nas escolhas desses artistas que é o que temos de melhor nas noites boêmias de Fortaleza nos proporcionando o deleite eterno e incomparável com o que já fora dito por outros expert no assunto . Meu caro Amigo e maestro Mimi Rocha, PARABÉNS, maiúsculo mesmo. Newton Padilha

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