Discografia

Em primeira live, Maria Bethânia canta o Brasil em versos políticos

Maria Bethânia se apresentou ao lado do baixista Jorge Helder, do percussionista Marcelo Costa (no foto, ao fundo), e dos violonistas João Camarero e Paulo Dáfilin

Há alguns dias venho pensando num gancho para falar sobre a live que Maria Bethânia realizou no sábado, 13 de fevereiro, com transmissão exclusiva pelo Globoplay. É que, depois de tantos meses de pandemia, quando esse formato de shows ao vivo já foi tão explorado por tantos artistas de tantas formas, me pergunto o que há de importante a se dizer de mais uma live. Puxando pela memória fui em busca do que teria sido desafiador para a baiana, que estava ali comemorando seus 56 anos de carreira, em escolher algumas canções e levá-la ao público. E esse era mesmo o ponto, o público.

Na live, a própria Bethânia comentou do quanto a força transmitida pelo público é importante para abastecê-la de energia em cena. “Aplauso é um fio condutor de calor. E eu sinto muita falta”, lamentou em certo momento. Ok, não são poucos os artistas que dizem o mesmo. Mas Maria Bethânia muito bem lembrou de diretores teatrais que a ensinaram a levar para as apresentações um misto de show musical, recital poético e teatro. E isso tornou-se uma marca indelével de sua vida artística. Assim sendo, seus shows seguem a mesma lógica de uma peça teatral, quente, viva, que provoca reações imediatas, sejam choros ou risos. Sem essa troca, Bethânia não pode ser ela mesma. Não por acaso, ela não é figura fácil em programas de TV e, quando vai, diz muito categoricamente que “não sabe fazer TV”.

Mas, na live do dia 13, a primeira dela depois de tantas lives, Bethânia fez o que sabe da melhor maneira possível. E sim, teve conversa (com a câmera), teve interpretação, teve música e teve poesia. Nada foi deixado de lado por conta da mudança de formato. Também não foi pensado um repertório de sucessos, naquela linha “o melhor de”. Alguns entraram no set list, como Explode coração, Onde estará o meu amor, Gostoso demais, Reconvexo e Sonho impossível. Mas também foi o momento de canções novas ou menos conhecidas do público, como Doce, Luminosidade e Balada de Gisberta. Como ela havia anunciado antes, parte das canções escolhidas para a live estarão no disco que ele pretende lançar no próximo semestre.

Alguns momentos do espetáculo de pouco mais de uma hora – pouco diante de outras lives – merecem destaque. O maior deles vai para 2 de junho, canção nova de Adriana Calcanhotto que relembra o caso do pequeno Miguel Otávio Santana da Silva, morto em Recife ao cair de um prédio –  filho de uma empregada doméstica, o menino estava sob os cuidados da patroa de sua mãe. Narrando um escândalo social brasileiro, a música, não por acaso, veio seguida de Cálice, de Chico Buarque, mostrando que pouco mudou entre uma e outra composição.

O momento dedicado aos boêmios, bêbados e notívagos foi primoroso. Bar da Noite, clássico de Nora Ney, gravado lá nos anos 1950, abre a cena com o verso “bar que é o refúgio barato dos fracassados do amor”. E depois um clássico moderno, que une todas as tribos em qualquer karaokê: Evidências. Quando você acha que chega de tanta dor, Maria Bethânia emenda Lama, Negue e Olhos nos olhos. Pra enxugar tantas lágrimas, ela vem com Volta por cima, levantando e sacudindo a poeira. E claro, ela não deixou de lado o Carnaval. Lembrou de algumas praças onde a folia deveria estar acontecendo naquele mesmo dia, falou de sua saudade, improvisou o Frevo Nº1 do Recife e se irmanou com aqueles carnavalescos que estava em casa por medidas de segurança

Mais de 50 anos de carreira ensinaram Maria Bethânia a força de suas palavras. E ela não é de jogar fora esse poder. Logo não é por acaso que ela foi chegando ao fim do show com Sonho impossível que fala de tantas guerras necessárias de vencer antes de um pouco de paz. O mundo vive um desafio grande de sobrevivência e o Brasil trata a questão entre a seriedade e o descaso. Mas é preciso ter esperança e Bethânia anuncia: “E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição. E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão”. E encerrou com a esperança nublada de Gonzaguinha em O que é o que é.

O recado foi dado. Visitando interiores, tomando uma cachaça na beira do balcão, invadindo a privacidade dos casais, colocando o pé em Santo Amaro e abrindo a ferida da morte de uma criança, Maria Bethânia cantou o Brasil. Sem filtro, sem alívio, sem faz de conta. É só ouvir com atenção e perceber.

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