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Lé com cré 3 – O hipotético encontro entre Renato Russo e Belchior

Por Daniel Medina

Na década de 1970, na ditadura militar do Brasil, o desbunde era uma postura política.  A liberdade do corpo, de ser o que se é sem grilo e sem vergonhas, para além da luta armada e dos partidos políticos, era um meio potente de se contrapor ao regime.

Mas sempre tem um tipo de gente difícil de enquadrar, que nem pega em arma, nem rebola ou põe tinta no rosto, nem levanta bandeira no automático. Gente que joga pela dúvida, que contraria a lógica e se permite contradições: falo de poetas.

Entre algumas boas e uns bons poetas sabe-se que a vida é mistério e é densa (não exatamente pesada, mas primordialmente densa). Que sabem que vida e morte andam juntas e que não se furtam a falar de uma ou outra e de entoar o seu espanto diante do todo.

Sem medo de errar, incluo entre essas figuras Renato Russo e Belchior.

Sempre brinco que Legião Urbana deveria ser contraindicada pra menores de 18 anos.

Explico: com 12, 13, 14 anos é provável que você não viva na carne ou compreenda versos como “os meus amigos todos estão procurando emprego”, ou “quem deixou a segurança do mundo por amor” e, claro, “ela se jogou da janela do quinto andar”. Acontece que a pessoa enche a lata de Legião muito cedo e, quando numa idade adulta, já escutou tanto (e já acumulou o ranço de tantos detratores) que não aguenta mais.

Mas, vamos à hipótese do título:

Existem inúmeras convergências entre as poéticas de Belchior e de Renato. São poetas que cantaram sua própria geração de forma singular, sem amarras ideológicas, com uma densidade poética absurda e uma responsabilidade imensa para com suas próprias obras.

As referências pessoais de ambos muitas vezes se tocam, tanto da cultura pop como de poetas como Camões a Dante, além da proximidade com a língua italiana e da forma de cantar para fora, o oposto da escola de João Gilberto.

Assisti a alguns shows de Bel em Fortaleza. Não o conheci pessoalmente, mas sei que era uma figura solícita com jovens artistas que lhe tocavam. Certamente Renato não lhe passou despercebido e, por mais que as décadas de 1980 e 1990 não tenham sido de evidência da carreira de Bel, é improvável que Bel fosse desconhecido do líder da Legião.

Busquei em todos os cantos por esse possível contato. Mesmo depois de muitas pesquisas não encontrei nada, nada, nada. Então, esses dias, comprei em um sebo “O Livro das Listas: Referências musicais, culturais e sentimentais” (Cia das Letras), livro organizado postumamente com material de cadernos de Renato.

Em meio a inúmeras listas de preferências cuidadosamente agrupadas que vão da literatura à música pop internacional, de óperas clássicas, romances aos grandes filmes mundiais, dou de cara com uma pequena lista de canções nacionais. Na lista, depois de citar todos os intérpretes, compositores e minutagem de todas as músicas com esmero, chega-se à última canção, onde se lê exclusivamente: “Mucuripe – Música e Letra de Raimundo Fagner – 3min37seg”, não citando Belchior.

Tudo bem não terem se conhecido. Ok eventualmente não terem gostado da obra um do outro. Mas suprimir o letrista cearense da sua lista de poucas canções nacionais favoritas foi demais para o meu imaginário.

Fiquei me perguntando o que teria acontecido, se teriam se conhecido e não teria rolado o match, se Renato por algum motivo não foi com a cara de Bel ou se Bel teria se sentido ofuscado pela luz daquela Legião. Até Esquadros, música de Adriana Calcanhotto foi gravada anos depois pelo poeta de Sobral, mas nada de um Metal contra as Nuvens ou de um Monte Castelo.

Não tem problema! Desenhei para mim um hipotético encontro onde Renato e Bel se conheceram, compuseram uma canção simbólica, mítica, atemporal, canção essencial, que fala o que precisa ser dito e, sem sabermos, o que precisamos ouvir. Que os dois alagaram até de manhã com seus vozeirões apartamentos e corredores de algum prédio do Rio, já na década de 1990, e que incomodaram os vizinhos. Desenhei que essa canção inédita jaz adormecida em alguma gaveta esquecida, a salvo do espólio de Renato e do de Bel, e que um dia essa obra ganha vida própria, espantará a todos na certa no momento exato e saciará meu desejo, é claro.

Me ative a esses dois nomes não a título de saudosismo, mas como uma “nostalgia de futuros”.

Em meio a tanto desbunde e tanto proselitismo partidário, tanta realpolitik e suas coalizações manjadas, em meio a busca por um pai-salvador da pátria, sonho com novas e novos poetas que insinuem outros caminhos contra esse fascismo perverso e datado, que para além da política pragmática apontem pistas simbólicas que nos deem força e sinais para sair desse atoleiro e principalmente, que aponte em nós mesmos os traços de pequenos e pequenas tiranas e o nosso fascismo portátil.

Durmo mal, durmo pouco, sonho bem.

Direct: Trecho de um caderno de Renato: “Tenha em mente escrever canções inspiradas, canções de amor & esperança & amizade – com belas melodias & letras delicadas, sábias e gentis”

Daniel Medina é compositor, cantor e curioso, sendo cantor nas horas vagas e curioso por ofício. Ele escreve nesse espaço semanalmente

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