Ensinar o valor do dinheiro desde cedo ajuda a preparar cidadãos conscientes

Nos últimos dez anos, cursos, palestras e conteúdos sobre educação financeira para crianças e adolescentes ganharam espaço em eventos, nas redes sociais e em documentos que regem a educação no país, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) identificou que, em países desenvolvidos, a população possui alto letramento financeiro. Em outras palavras, mantém boa relação com o consumo, com as instituições financeiras e com o planejamento financeiro pessoal, fatores que costumam impulsionar o desenvolvimento econômico desses países.

De fato, aprender a lidar com situações que envolvem dinheiro é uma habilidade útil nos planos individual e coletivo. Essa abordagem, além de preparar melhor as pessoas para cuidar da própria vida financeira, contribui para formar adultos mais responsáveis e empáticos.

Assim como ler e escrever, a educação financeira pode ser ensinada ainda na infância. Para a editora de conteúdo da Aprende Brasil Educação Janile Oliveira, trabalhar essas habilidades com crianças promove não apenas responsabilidade, mas também valores como respeito e solidariedade. “Quando o jovem aprende a se relacionar bem com o dinheiro, percebe que ele é um recurso geralmente limitado e que precisa ser controlado com cuidado. Isso ajuda a desenvolver disciplina e a entender o valor de suas escolhas, um processo que reforça valores como cooperação, responsabilidade e empatia”, explica.

Em outras palavras, Filipe Távora, autor de materiais didáticos e literários sobre Educação Financeira, aponta que “Educação financeira é um processo de conhecimento e autoconhecimento da forma como você lida com os recursos e com o dinheiro. É um processo de construção de um comportamento, de uma metodologia sobre como lidar com o dinheiro e como construir um futuro mais sustentável, melhor para você e para a sua família, para sua comunidade”.

Antes de falar sobre educação financeira, é preciso entender que ela não se limita a dinheiro, contas e maneiras de poupar. Envolve comportamento, consumo, estratégia, organização e cooperação. Por isso, o cotidiano de uma família pode render boas oportunidades, tal como fazer a lista do supermercado, reaproveitar alimentos em uma receita, separar brinquedos para doação ou brincar com jogos que envolvam escolhas e trocas. Em casa, quando fizer sentido, a mesada pode ser uma aliada. Ajustada à realidade da família, ela ajuda a planejar gastos, diferenciar o essencial do supérfluo e valorizar o que já se tem.

Já para pré-adolescentes, recursos como contas-poupança e investimentos simples introduzem noções de rendimento e de funcionamento do mercado. Para Janile, “o importante é que crianças e jovens entendam que o dinheiro é um aspecto da vida e que a educação financeira vai além de valores monetários, pois ela oferece referências para planejar e tomar decisões responsáveis”. Ela acrescenta que, assim como a formação acadêmica contribui para a vida profissional, a formação financeira fornece base para organização e escolhas conscientes.

Cláudia Marcos, autora de livros literários sobre o tema publicado pela Edições IPDH, aponta que o trabalho com Educação Financeira na sala de aula não deve ser algo complexo ou complicado. “O professor pode dramatizar, trazer uma vendinha para a sala de aula, com a crianças menores. Ele vai trabalhar poupança, ele pode mostrar dois produtos que ficam mais em conta que comprar um só. Então, a criança vai aprendendo como ela pode fazer com que aquele recurso financeiro que ela ou que a família tenha possa render mais e possa também fazer uma reserva”.

Educação para a empatia

Especialistas ressaltam que é importante ensinar às crianças e adolescentes que o dinheiro pode ir além do consumo, sendo também fonte de empatia. Nesse sentido, espera-se que eles desenvolvam a capacidade de tomar decisões responsáveis, evitando prejudicar outras pessoas ou a sociedade em si.

A partilha e doação podem ser incorporadas ao planejamento financeiro da criança, motivando desde cedo a prática da solidariedade e responsabilidade social. “Cidadania vai além de direitos e deveres, é também a capacidade de olhar para o outro. Muitas vezes, pessoas ao nosso redor precisam de ajuda e, com a educação financeira, a criança aprende que pode ser um ponto de transformação dessa realidade”, ressalta.

Para isso, a especialista defende que o exemplo deve começar também dentro de casa. Assim como em um ambiente empresarial, em que a liderança precisa demonstrar responsabilidade, na educação financeira é interessante que responsáveis e professores sejam referências consistentes.

As crianças costumam observar comportamentos e escutar o que os adultos dizem. Se eles falam sobre economia, mas gastam sem planejamento, a mensagem não se sustenta; se eles falam sobre caridade, mas não incentivam ou fazem a doação de roupas e brinquedos, não há exemplo para ser seguido. O ideal é que família e escola caminhem juntas, mostrando, por meio de atitudes, que consumir com consciência é também cuidar do seu próprio futuro e das pessoas ao redor.

Investir em educação financeira desde cedo, na escola e em casa, contribui para formar uma próxima geração mais preparada, consciente, autônoma e pautada em valores como responsabilidade, empatia e cooperação.

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Eduardo Siqueira

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