Especialistas analisam como ressignificar o uso da IA em sala de aula e por que a presença humana se torna insubstituível.
A popularização da inteligência artificial generativa na educação impôs um dilema urgente às redes de ensino: como garantir que crianças e jovens continuem a desenvolver pensamento crítico, curiosidade e capacidade de resolução de problemas em um cenário onde qualquer resposta está a apenas um clique de distância?
A chave para responder a essa questão passa pela redefinição do esforço intelectual do aluno e pela ressignificação do papel do professor diante das tecnologias.
A promessa de agilidade e respostas instantâneas da IA esconde um risco invisível para o desenvolvimento cognitivo. Quando utilizada para terceirizar raciocínios e tarefas, a ferramenta elimina a “fricção produtiva” necessária para a retenção do conhecimento e para a formação de conexões neurais profundas. Bruno Alvarez, head de Ensino e Inovações na Geekie Educação, alerta para a perda de resiliência intelectual provocada pelo apoio desmedido às máquinas.
“Pensar é uma habilidade que só se desenvolve com concentração e um pouco de fricção produtiva. Quanto mais o estudante se apoia na IA de modo acrítico, terceirizando seu cérebro à máquina, menos ele tende a aprender; bastam poucos minutos de interação para que a pessoa passe a esperar respostas instantâneas e desista mais rápido quando precisa resolver algo sozinha”, destaca Alvarez.
Nesse contexto, garantir a aprendizagem real exige preservar, de forma intencional, os momentos de esforço próprio. Para a Dra. Janaína Mourão, diretora pedagógica da IntraAct Brasil e especialista em neurociência da aprendizagem, o pensamento crítico não nasce do acesso passivo a conteúdos sintetizados, mas sim do confronto direto com materiais complexos.
“O ponto central é entender que pensamento crítico não se desenvolve recebendo respostas, mas recebendo uma formação sólida e com profundidade. O cérebro aprende tendo acesso a bons materiais e, em seguida, sendo desafiado a recuperar informações da memória, comparar ideias e encontrar soluções. Se a inteligência artificial faz todo esse percurso pelo estudante, ela elimina justamente a parte que promove a aprendizagem”, explica a especialista.
Janaína ressalta ainda que a leitura integral de grandes obras e documentos primários não pode ser substituída por resumos gerados por algoritmos: “A aprendizagem acontece quando o aluno entra em contato com a fonte, enfrenta um vocabulário novo, interpreta o texto e estabelece conexões entre as informações”.
Para evitar que a tecnologia ocupe o lugar da reflexão, os educadores apontam a necessidade de mudar a lógica das atividades e avaliações. O tradicional dever de casa ou os exercícios de memorização não perdem o sentido, mas mudam de função. Em vez de cobrarem um produto final padronizado facilmente gerado por IA, devem servir como ferramentas para estimular o raciocínio, a pesquisa orientada, a argumentação oral e a autoavaliação formativa.
Igor Ventura, diretor de produto do Grupo Eureka, reforça que a IA precisa ser integrada ao processo pedagógico e não encarada como um atalho ou um instrumento punitivo: “precisamos diferenciar as coisas: a atividade, a avaliação e o aprendizado. O aprendizado é construído e acompanhado ao longo de um processo, enquanto a avaliação é apenas um marco em relação a esse aprendizado. O que temos que refletir com a IA é como ela pode fazer parte do processo pedagógico, e não o substituir. Ela pode ser uma ferramenta para desenvolver o pensamento crítico, para analisar, de forma crítica, aquilo que devolve ou para ser utilizada como ferramenta na resolução de um problema”.
A relação professor x IA
Diante do avanço da inteligência artificial, a dinâmica entre educadores, estudantes e tecnologia passa por uma profunda transformação, a começar pela postura do próprio aluno.
Para que a IA atue como colaboradora e não como mera executora, a orientação central é o princípio de “pensar primeiro, consultar depois”, como sugere Bruno Alvarez. Em vez de delegar a primeira etapa do trabalho à máquina, o estudante deve formular suas próprias hipóteses e rascunhos, recorrendo à IA posteriormente como uma parceira de debate socrático.
Segundo Bruno, a ferramenta deve ser usada para questionar argumentos, apontar fragilidades e oferecer contrapontos: “Peça à ferramenta que faça perguntas, não que dê respostas. Usada como parceira crítica, ela amplia o pensamento; usada como executora, ela o substitui”.
Dra. Janaína Mourão concorda, exemplificando que o estudante pode usar a IA para aprofundar o contexto histórico de uma leitura ou esclarecer dúvidas, mantendo o esforço autoral: “A pergunta não deve ser ‘como a IA faz isso por mim?’, mas ‘como ela pode me ajudar a entender melhor isso?’”.
A tentativa de lidar com a tecnologia por meio da proibição pura e simples também traz riscos expressivos para o engajamento escolar. Os especialistas ponderam que banir sumariamente a IA tende a gerar uma “clandestinidade digital”, afastando os estudantes da orientação mediada que a escola deveria prover.
Alvarez adverte que o banimento não elimina o uso, apenas o empurra para longe do alcance pedagógico: “Proibir tende a produzir o pior dos mundos. Quando o professor se coloca só como barreira, ele perde engajamento e a autoridade para mediar o uso. A pergunta certa não é se a escola vai permitir a IA, mas que formação ela quer assegurar”.
Essa preocupação do especialista tem sentido. Segundo pesquisa TIC Educação, 70% dos estudantes do Ensino Médio no Brasil afirmam usar IA generativa para realizar pesquisas e atividades escolares. Os professores, por sua vez, também não estão na contramão. 43% dos docentes do Ensino Fundamental e Médio também usam plataformas de IA para produzir conteúdos didáticos e auxiliar em seus planejamentos de aula.
Igor Ventura complementa que o foco deve estar na intencionalidade: “Precisamos ter intencionalidade pedagógica no uso da tecnologia. Quando ela é inserida no processo de ensino com intencionalidade, aí viramos a chave da aprendizagem”.
Por outro lado, o professor precisa atuar como um “interruptor saudável” sempre que a tecnologia ameaçar substituir processos cognitivos e relacionais vitais. Janaína Mourão enfatiza que essa interrupção é indispensável na alfabetização e nos anos iniciais, ou quando o objetivo da atividade for o próprio ato de pensar.
“Existem aprendizagens que simplesmente não podem ser terceirizadas, como aprender a ler, escrever, desenvolver vocabulário, interpretar textos e construir raciocínio lógico. O professor atua como um interruptor saudável quando protege aquilo que o cérebro precisa fazer sozinho para se desenvolver”, reforça a especialista.
Alvarez, no mesmo sentido, acrescenta que a pausa na tecnologia também protege o “atrito relacional e moral”, preservando os momentos essenciais de convivência, colaboração e debate presencial.
Por fim, é na dimensão humana e socioemocional que o docente se consolida como figura insubstituível. Em uma era em que algoritmos entregam respostas prontas e chegam a simular interações afetivas, a mediação do professor ganha um peso sem precedentes.
Igor Ventura destaca que a tecnologia não é responsável pelo cuidado da mente e que o professor atua como mediador socioemocional indispensável para desenvolver a autogestão e a autorregulação dos jovens. Concordando com a visão, Alvarez alerta para dados que mostram estudantes recorrendo à IA para combater a solidão: “A IA processa informação em escala, mas não cuida da mente, não constrói vínculos e não acolhe frustrações e não desenvolve competências socioemocionais. A IA cuida da resposta, mas quem cuida da mente, do vínculo e da convivência é o professor”.
Complementando esse pensamento, Janaína Mourão sintetiza o papel transformador da docência no contexto digital: “Aprender envolve curiosidade, confiança, motivação, persistência diante do erro e interação humana. O aluno aprende verdadeiramente de quem ele admira e respeita”.



