Fisioterapia & Saúde

O Futebol no Divã: O Caso do Goleiro Bruno

por Adriana Espineli Simon da Fonseca (*)

A maioria das matérias apresentadas na televisão e dos artigos publicados na mídia sobre o caso do goleiro Bruno são muito parecidos.

Quase todos procuram dar destaque aos aspectos sórdidos do crime em questão. Parece-me que a intenção da imprensa não é apenas levar informação à população, como também usar a imensa repercussão do acontecimento para alavancar audiência.

Em comum também há um clima de comoção e condenação geral que parece sentir prazer ao gritar “pega e lincha”.

Quero deixar bem claro que não estou defendendo o Bruno nem os demais envolvidos. Para quem não me conhece, antes de fazer parte do mundo psicanalítico, pertenci ao universo jurídico. Sou formada em Direito (PUC/SP) e, como toda a sociedade, eu também desejo que os responsáveis sejam punidos. Mas acho que a postura adotada, até agora, pelos meios de comunicação e a exposição exacerbada do caso não têm eficácia alguma para ajudar a resolver a questão principal que se coloca diante de nossos olhos. Criticar e punir não basta. De que adianta secar um ambiente onde existe uma torneira que não fecha?
Inúmeros crimes brutais acontecem constantemente. A violência doméstica é uma questão nacional. Pesquisa do Instituto Sangari revela que, em dez anos (1997 a 2007), dez mulheres foram mortas por dia no Brasil. Os assassinos, quase sempre, são os atuais ou ex-maridos, namorados ou companheiros. Por quantas mulheres ainda vamos derrubar nosso pranto? Quem ainda não se lembra do Caso Eloá? Até ontem, estávamos chorando a morte de Mércia Nakashima. Agora, nossas lágrimas são por Eliza Samudio. A diferença é que, no último caso, há um famoso envolvido.

Além de Bruno, recentemente, outros jogadores de futebol foram investigados pela polícia. Vagner Love e Adriano tiveram seus nomes associados ao tráfico de drogas.

O fato é que estes atletas começam muito cedo na carreira, por volta dos 12, 13 anos. Geralmente abandonam os estudos e são provenientes de famílias pobres e desestruturadas. O futebol é o meio mais rápido e, talvez o único, que lhes possibilita reconhecimento social.

O jogador não é preparado para lidar com derrotas, lesões, pressões da torcida, cobranças da comissão técnica, transferências para outros países que implicam em distância da família e adaptação aos costumes estrangeiros, bem como ao clima e ao novo idioma. Não está nem pronto para a fama que traz consigo “amigos da onça”, empresários gananciosos e as “Marias-chuteira” da vida. Também é presa fácil das armadilhas da imprensa que, em um momento, estende o tapete vermelho para indivíduos despreparados, transformando-os em heróis e, logo em seguida, puxa-o, levando-os ao chão.

O apoio psicológico deveria ser tão importante como a alimentação balanceada, os treinamentos físicos e táticos e os cuidados médicos e de fisioterapia. Nelson Rodrigues, em sua crônica “Freud no Futebol”, diz que “de fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: – já é tempo de atribuir ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável”.

Vou mais longe ao dizer que não é apenas, no futebol, que este lamentável esquecimento acontece. Há algo de errado no mundo, porque existe algo de errado em nós. A sociedade apenas é o reflexo de nossos melhores sonhos e piores pesadelos. Estamos deixando de investir nos seres humanos e em suas emoções e complexidade. Se não mudarmos, cada vez mais o mundo transformar-se-á em um lugar insuportável de se viver. Vou repetir o que escrevi recentemente em um artigo: A transformação começa dentro de casa. Vamos criar seres humanos mais carinhosos e solidários, que saibam distinguir o certo do errado, que suportem frustrações, que aceitem regras e limites, que respeitem as diferenças, que não confundam posicionamento com agressividade, que dêem mais valor às pessoas do que ao dinheiro e ao “status”. Só assim teremos alguma chance de uma vida melhor.

(*) Adriana Espineli Simon da Fonseca é Psicanalista

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